DEPRESSÃO E TRABALHO

Na mesma semana em que a imprensa noticia que Michel Temer considerou como válida a proposta de colocar funcionários licenciados por DEPRESSÃO para trabalhar meio expediente, uma mãe morre de depressão e tristeza pela perda de seu filho para a violência que assola o Rio de Janeiro. Depressão não é tristeza ou preguiça, muito menos frescura.
Depressão é doença incapacitante. Não pode passar pela cabeça de ninguém achar que um paciente com qualquer doença altamente debilitante seja obrigado a trabalhar ainda que em meio expediente. Ninguém pensa em colocar alguém com crise de hérnia, ou em tratamento quimioterápico trabalhando meio expediente, mas porque pensar que com relação a depressão isso seria possível?. Uma pessoa deprimida é uma pessoa doente. Ela desejaria muito sair de seu estado de letargia, pessimismo,angústia e desanimo, faz muito esforço para isso, mas está incapacitada. É algo bem maior que a vontade dela, por isso é doença. Tudo que um paciente deprimido gostaria era de recuperar o sentido de sua vida e retornar aos seus afazeres, sobretudo ao trabalho.
A proposta de Robson Andrade, presidente da CNI e a simpatia de Michel Temer são não apenas repugnantes, são preocupantes. Como o presidente de uma entidade patronal e o presidente de um país são incapazes de sentir qualquer empatia por pessoas, por funcionários, por seu povo? Como podem ser tão desligados do mundo real?
Temos visto, por um lado, através de pesquisas, a diminuição do afastamento por acidentes, mas por outro, temos um aumento de afastamento por doenças relacionadas ao trabalho, como por exemplo, lesão por esforço repetitivo (LER), patologias da coluna e depressão. Pesquisas mostram que o afastamento por depressão é percentualmente maior em trabalhos mais estressantes. Aliás, as principais causas de afastamento do trabalho são nesta ordem: Fratura punho e mão, Transtorno de discos intervertebrais, Lesão do ombro, Tumor do útero, Hérnia e Depressão. O que indica evidentemente, que é a saúde do trabalho que está ameaçada. Ou seja, não se trata simplesmente de diagnosticar o paciente e afastá-lo do trabalho, e sim pensar na relação desse diagnóstico com as condições de trabalho. A vinculação entre o trabalho e o adoecimento psíquico apresenta visibilidade crescente.
O suicídio em áreas rurais, agravado pelo uso indiscriminado de agrotóxico é exemplo disto. Um outro exemplo disso é o aumento da síndrome de burnout. Esta é um tipo de resposta prolongada a estressores emocionais e interpessoais crônicos no trabalho. Tem sido descrita como resultante da vivência profissional estressante em um contexto de relações sociais complexas, envolvendo a representação que a pessoa tem de si e dos outros. O trabalhador que antes era muito envolvido afetivamente com os seus clientes, com os seus pacientes ou com o trabalho em si, desgasta-se e, em um dado momento, desiste, perde a energia ou se “queima” completamente. O trabalhador perde o sentido de sua relação com o trabalho, desinteressa-se e qualquer esforço lhe parece inútil.
Claro está que a depressão perpassa todo esse processo e pode mesmo ser o início de de outras várias complicações na saúde. Outro dado curioso diz respeito ao padrão que o suicídio tem se apresentado nos últimos anos. O que antes era um ato que se apresentava em espaços privados (enforcamento, ingestão de remédios numa quantidade fatal, etc) e espaços públicos (jogar-se de pontes, prédios públicos, no metrô), hoje desloca-se para o ambiente de trabalho. Atualmente vem aumentando o número de suicídio que se realiza no espaço do trabalho: dentro de fábricas, empresas e prédios comerciais. O que faz com que o vínculo adoecimento psíquico e trabalho esteja totalmente relacionado.
Enfim, o mundo do trabalho como vemos está desmontando, e com ele sua saúde. O que regula minimamente esse caos são as leis trabalhistas que garantem uma mínima condição de saúde ao trabalhador. A depressão do trabalhador é um dado que fala das relações de trabalho atuais. Deve ser tratada como doença incapacitante, muitas vezes grave que requer tratamento longo e preciso. É só respeitando as regras e leis trabalhistas é que podemos ter um prognóstico que devolva saúde a esse trabalhador. Fora isso, funcionários serão completamente descartáveis, peças que adoecem, deprimem, e até morrem.
No mais #ForaTemer