Obsolescência programada

João Paulo Albuquerque não teve vida fácil. Nascido em uma família decadente de classe média não teve uma adolescência igual as de seus amigos. O pai saiu de casa e casou de novo, formou outra família, a mãe uma guerreira, criou os filhos na cara e na coragem. João não tinha o videogame de última geração, não foi pra Disney até casar e precisou trabalhar cedo como DJ de festas e casamentos. Com isso comprou seu primeiro carro ao mesmo tempo em que passava entre os primeiros lugares para uma universidade federal. Aluno brilhante e esforçado, as dificuldades lhe forjaram caráter, se divertia, mas com responsabilidade, vários amigos com muito mais condições ficaram para trás, João venceu na vida pelos seus próprios méritos, hoje é executivo de uma multinacional de tecnologia.

João prosperou, comprou um belo apartamento na zona sul, tem SUV asiática e uma bela esposa, também executiva, independente, bonita, daquelas que trabalham 12 horas por dia, chega em casa, cuida do jantar e ainda ajuda na lição de casa, sempre bonita, cheirosa e bem vestida, as vezes um pouco estressada, principalmente quando está de TPM.
 
 Da área de tecnologia, João faz um belo discurso sobre obsolescência programada, explica que nem sempre é apenas pela má qualidade do produto que já é projetado para durar um tempo específico. Basta deixar de atualizar um software, ou vir com uma tecnologia ultrapassada, algumas novidades ficam guardadas para os próximos modelos. Explica que nossos aparelhos já poderiam ter melhores telas, maior capacidade de armazenamento, e mais velocidade, as novidades vão sendo lançadas homeopaticamente, a roda tem que girar, o mercado funcionar, o esforço e pesquisa precisa gerar lucro. Projetar aparelhos que quebram depois de um tempo não é inteligente, muito melhor os que ficam obsoletos, que resistem até o fim, fideliza. João só não se dá conta que também é uma máquina programada para o consumo.
 
 Apesar da esposa linda e competente, dos filhos matriculados numa das melhores escolas bilíngues do Rio de Janeiro, das selfies em Praga, Paris, Amsterdã e Milão durante as férias, daquela esticada básica até NY no carnaval, do apartamento bem decorado, do curso de sommelier, algo não fecha no pacote de João. Ele não consegue ser feliz, sente uma insegurança tremenda, um certo vazio que o consumo não preenche por muito tempo. Afinal, o país está em crise, aquela poupança em ações da Petrobrás virou pó em consequência dos escândalos e má gestão, a esposa anda triste e Thiago, seu filho mais velho fazendo análise já que os remédios para TDAH não surtiram o efeito esperado. Sonha com o Canadá e lamenta que os países nórdicos tenham idiomas tão difíceis, Espanha, Portugal, Itália, França já não são opções.
 
 Quando sai de seu pedestal, bebe mais uns vinhos ou cervejas artesanais e conversa com os poucos amigos em que não precisa manter as aparências, João se mostra preocupado, já está com quarenta e poucos anos, se perder o emprego não conseguirá uma reposição à altura, tem tudo mais ou menos planejado, é claro. Se algo acontecer troca as crianças de escola, vende um dos carros, se for preciso até vende o apartamento e compra um menor de dois quartos em Copacabana, “vim de lá, não preciso morar no Leblon” diz tentando se convencer. A verdade é que João não entende porque não é feliz, muito menos porque sua mulher e filhos não são felizes, a vida sempre lhes foi generosa. Logo se dá conta, como ser feliz num país com tanta violência, corrupção, leniência, com tantos impostos.
 
 Na segunda feira João vai cedo para São Paulo, a secretária já mandou o e-ticket do avião, tem reunião com o Vice Presidente da empresa. Não lhe pediram para preparar nada, o último projeto que gerenciou foi entregue com extrema eficiência, porque diabos esta reunião? Porque não um call ou vídeo conferência?
 
 O mau humor com as crianças, a falta de vontade de trepar com a patroa, o aperto no peito, no fundo João já sabe, é a mais nova vítima da obsolescência programada.