Sobre jornalismo: crise? Que crise?

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Em junho de 2013, eu era um dos editores da home do site do jornal O Globo, no Rio de Janeiro. Naquele mês, vi a redação envelhecer dez anos em uma semana, atônita diante da enxurrada de informações sobre os protestos que tomaram as ruas do País contra os aumentos nas passagens de ônibus — estopim para outras tantas reivindicações. Enquanto as pessoas se informavam por relatos multimídia “amadores”nas redes sociais e outros recursos, como os desconcertantes streamings da Mídia Ninja e outras fontes de mídia independente, a redação, letárgica, tentava entender como organizar, filtrar e (re)distribuir tantos dados (ao menos parte dela; outra segue, até hoje, negando o impacto das novas tecnologias sobre seu próprio ofício).

Naquele mês, sob o impacto desse fato histórico — pelo volume de dados e pela inabilidade de boa parte dos jornalistas “tradicionais” em lidarem com a voz dos leitores — participei de uma mesa do fórum Rio Cidade Criativa, a convite do jornalista e pensador cultural Luís Marcelo Mendes, cujo tema era:

“O futuro do jornalismo passa pela mudança da ideia de autoridade pela de compartilhamento, engajando-se criativamente com a cidade”

Tudo a ver com o que eu estava presenciando na própria redação do Globo. Às pressas, sem tempo para organizar uma apresentação decente, li em público o texto que reproduzo abaixo. Um ano e sete meses depois, diante de sucessivas demissões nos grandes jornais do Brasil (e do mundo), vejo que boa parte dos colegas de profissão segue desesperançosa em relação ao seu futuro. Eu, ao contrário, sigo acreditando que o momento é de redefinição de valores, e que a crise da indústria jornalística (na verdade, essa é uma crise de toda a cadeia de comunicação) não necessariamente é ruim para o jornalismo. Talvez seja mesmo sua salvação.

Rio de Janeiro, 21 de junho de 2013:

1. Sobre jornalismo e o momento atual, eu gostaria de dizer o seguinte:

A cada dia, uma luz de alerta pisca na testa de mais e mais jornalistas: para onde estamos indo?

Todos sabemos que o jornalismo passa por um momento complicado.

- Uma crise de negócio, gerada pelos novos hábitos de consumo de informação das pessoas;

- Uma crise de relevância, potencializada pelos meios digitais;

- E uma crise de identidade, consequência direta das duas anteriores.

Eu, por exemplo, há algum tempo não tiro da cabeça o verso da Legião Urbana:

“O futuro não é mais como era antigamente”.

O que acontece? Até um tempo atrás (nem tanto tempo assim), parecia que o futuro do jornalismo ia ser de um jeito.

Hoje, ninguém sabe como será.

Mas eu arrisco dizer que esse futuro inclui muito mais gente. De certa forma, inclui todo mundo.

2. Na faculdade, aprendi que a mensagem ia do emissor ao receptor. Era muito mais simples e foi assim por mais de um século: a produção de notícias, e sua divulgação, era uma atividade cara e um trabalho específico. A estrutura era nitidamente vertical: Eu falo, Você escuta.

Hoje, eu falo, você escuta e, se não concorda, comenta no site, posta no Facebook, escreve no blog, sobe um vídeo no YouTube…

E aí muitos jornalistas se assustam quando percebem que não estão mais sozinhos na produção desse negócio chamado “Conteúdo”.

Mas precisa ser assim?

3. Todo mundo aqui, jornalista ou não, pode fazer um vídeo, escrever um texto, coletar dados, entrevistar alguém relevante, registrar um flagrante, até mesmo dar um furo. Produzir uma informação que seja de interesse coletivo. Inclusive (principalmente) dos jornalistas. Muitas vezes, um celular é suficiente para isso.

O que nós, jornalistas profissionais, precisamos aprender é como agregar a informação que as pessoas — o “todo mundo” — estão fazendo circular pela internet. E não, a internet não está dissociada da “vida real”.

O Nick Bilton, editor do Bits Blog, do New York Times, escreveu um livro que se chama (em português) “Eu vivi no futuro — e é assim que ele funciona”. E ele escreveu essa frase:
“Não é mais uma questão de confiança; é uma questão de credibilidade.”

Acabou a era do “Eu falo, Você escuta.”

4. Está na hora de os jornalistas descerem do pedestal — muitos já estamos fazendo isso — e aprenderem a conversar com as pessoas.

Porque, se prestarmos bem atenção, vamos conseguir acompanhar com mais profundidade, responsabilidade e uma variedade maior de ângulos os assuntos do dia a dia. Em especial coberturas complexas como a dos protestos que acontecem no Brasil neste momento.

Fazer isso é ir em busca de maior credibilidade, como nos ensina Mr. Bilton.

O Twitter, o YouTube, o Facebook, o Tumblr, o Instagram, o Vimeo, canais de streaming etc etc etc, são fontes que contribuem para a maior compreensão deste e de outros fenômenos. Ajudam a fazer as perguntas certas. O acesso direto, em tempo real, ao que está acontecendo nas ruas, e a soma de pontos de vista torna a nossa apuração mais vasta, e dá instrumentos para cobrar e esclarecer, entender e informar, refletir e tomar decisões. Todos nós. Nosso papel, como profissionais de comunicação, não perde, mas sim, ganha valor, se soubermos fazer os filtros adequados para contar (novas) histórias. Com tudo o que existe à nossa mão.

Um vídeo no YouTube desmonta uma verdade “oficial”.

Dados públicos bem apurados podem nos dizer se aquela comunidade precisa mesmo ser removida em nome do progresso.

Ou se o estádio tal precisava mesmo custar todo aquele valor.

Estar abertos nos dá munição para participar mais ativamente dos rumos da nossa cidade; ou exigir essa participação, que me parece ser o caso, no momento.

É nessa brincadeira que os jornalistas têm que entrar agora.

Informar — e informar-se — por todos os canais possíveis. Analógicos ou digitais.

Trabalhar por sua própria reputação ética, e buscar sempre credibilidade pessoal, independentemente do veículo onde trabalhem.

Porque credibilidade é o maior ativo que um jornalista pode ter.

O potencial de construção é imenso.

Mas é preciso saber: o público não é mais como era antigamente.

5. Muitas vezes somos xingados, execrados, mal interpretados por nossos leitores / espectadores. O que eles querem dizer — e é saudável entender isso — é que eles não são mais apenas leitores / espectadores. Eles têm voz, têm olhos e muitas vezes estão dispostos a colaborar conosco no trabalho de informar da melhor forma possível. Ou de novas formas.

Temos que ouvir mais as pessoas.

Temos que estabelecer parcerias para produzir informação relevante, de interesse genuinamente público.

Ainda temos as nossas manhas, mas precisamos reinventar nossos processos de apuração, redação, edição e distribuição de notícias.

Não estamos mais acima de ninguém. Estamos juntos.

Para fiscalizar, duvidar, revelar e cobrar. Sempre de maneira transparente.

Mais do que nunca, as notícias estão aí. Cabe a nós saber o que fazer com elas.

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