Carnaval do glitter

Ilustração: Lucas Tonon

Você sabe o que é um pontinho brilhante no sofá? Glitter. E um pontinho brilhante no chão do banheiro? Glitter também. Um pontinho brilhante em cima da cama? Glitter. Na colcha? Glitter. E o pontinho brilhan… Glitter. Em cima da mes…É glitter. Na…

Glitter. 
Glitter. 
Glitter. 
Glitter.

Mais do que a música Deu Onda e dedo sujo de Superbonder, o glitter gruda talvez pra nunca mais sair. Ele chegou chegando no carnaval deste ano, prometendo eternizar a espécie e fazer da Terra uma milanesa multicolorida à imagem e semelhança das Globelezas de outrora.

Foto: reprodução

Nenhum folião é capaz de sair ileso. Cedo ou tarde, uma mão melecada surgirá das entranhas do bloquinho, espalhando brilho por onde passar. Quem jura ter escapado se engana. Sempre haverá um grânulo brilhante alojado em alguma fresta do nosso ser, ali, quietinho, esperando a hora certa de ar o ar de sua graça.

O problema é exatamente esse: quando e como o glitter costuma ser descoberto. Dias ou, às vezes, até semanas depois do convescote etílico-carnavalesco, geralmente pela pessoa que você menos gostaria, nos momentos mais inapropriados possíveis. Você está em uma reunião importante com o chefe, discutindo metas e projetos e, de repente, percebe que ele não está mais prestando atenção em absolutamente nada do que você está falando. Você até tenta manter certo grau de profissionalismo ao continuar falando, mas então se dá conta de que seu chefe está com o olhar fixo em um ponto do seu rosto que não é a sua boca e, sim, sua testa. Depois uma ou duas limpadas sem êxito, ele decide interromper o discurso: “Tem um pontinho brilhante na sua testa”.

Você sabe o que é um pontinho brilhante na testa? Óbvio que é glitter — esse dedo-duro carnavalesco que delata de duas, uma: ou que o folia foi mara, ou que suas técnicas de banho são, no mínimo, contestáveis. Não importa se foram duas, três, quatro chuveiradas bem tomadas: o maldito grânulo resistirá bravamente, sem nem mudar de lugar.

Descobri dia desses que existem métodos especiais pra se desempanar de glitter. O primeiro é usando demaquilante bifásico. Dizem que é tiro e queda. Com alguém com um nome desses na minha frente, se eu fosse o glitter, também fugiria correndo. Outro falam que é bom o óleo de coco, mas como, assim como eu, o glitter não é fã de Bela Gil, ele pica a mula logo que vê a esponja besuntada. Tem ainda a fita adesiva, que faz da sessão de expurgo uma espécie de depilação roots. Se não sair por bem, vai sair por mau.

Tudo vai depender do glitter que você escolher. Não vá pensando que qualquer pozinho brilhante de papelaria vai dar os mesmos efeitos com os filtros do Instagram. Comprei três potes desse tipo na semana passada pra ir ao bloquinho e despejei um inteiro em mim. Cheguei até a achar que não tinha pele boa pra glitter, mas não: o problema era ele, não eu. “Quer glitter bom?”, perguntou uma amiga em voz baixa, como se fosse revelar a dona da biqueira. “Manda um Whatsapp pra esse número”. Pelo suspense todo, pensei, capaz de chegar lá e ainda ter que dar adivinhar a palavra mágica, dar três pulinhos, declamar a tabuada do sete de trás pra frente e repetir duas vezes a quadra:

“Um ninho de mafagafos
Cheio de mafagafinhos
Quem desmafagafar o ninho de mafagafos
Bom desmafagafador será”

“É o melhor glitter de todos. Gruda que é uma beleza”. Mamãe eu quero, mamãe eu quero, mamãe eu quero brilhar. Querer eu até quero. Mas só no carnaval.