Para uma ideia se sustentar no mundo

As valiosas lições do filme ‘A Grande Aposta’ sobre os testes de resistência para que ideias e visões se firmem num mundo volátil

O que é necessário para uma ideia, conceito ou visão se sustentar a longo prazo no mundo, cenário ou mercado? Até que ponto uma ideia individual (ou de poucos indivíduos) pode penetrar no consenso coletivo tornando-se aquilo que chamamos de sucesso? Ou ainda, em que medida um sistema viciado pode sustentar ideias a despeito do interesse da maioria de seus membros?

Embora filosóficas e abstratas, estas questões se refletem em situações bem concretas e práticas, como a possibilidade de avaliar o potencial de novas ideias provocarem inovações, de produtos tornarem-se bem sucedidos, de tendências se firmarem como traços culturais duradouros. Indo além, essa reflexão pode nos ajudar a planejar soluções resilientes para problemas complexos ou antever eventuais falhas de concepção com potencial impacto na sociedade.

E é por um exemplo de um fracasso coletivo desastroso que vou me guiar a partir daqui, mais precisamente pelo filme A Grande Aposta, que retrata a história verídica da bolha do mercado imobiliário de hipotecas dos EUA que resultou na grande crise econômica mundial de 2007 e que ainda impacta várias economias.

Atenção: Spoilers a seguir, mas ninguém acreditará neles

A Grande Aposta é praticamente um filme-denúncia sobre como um conceito amplamente consolidado pode não permanecer assim para sempre. O mercado financeiro de hipotecas nos EUA se sustentava na impressão de solidez em seus títulos, pois “ninguém deixa de pagar a hipoteca de sua casa”. Muito dinheiro era investido em grandes fundos hipotecários por conta desta crença e as instituições bancárias lucravam de forma estupenda.

Até que Michael Burry resolveu estudar e investigar esta ideia mais a fundo e previu que um aumento da inadimplência hipotecária derrubaria todo o sistema financeiro baseado nestes papéis. Assim, resolveu direcionar o fundo que controlava (cerca de 1 bilhão) contra a maré reinante do mercado.

No mesmo período, um corretor de fundos ligado a uma grande instituição foi alertado pela possibilidade da bolha. Mark Baum (cujo nome real é Steve Eisman), sujeito questionador e desconfiado, decidiu averiguar a situação diretamente. Após entrevistar corretores de imóveis, agentes hipotecários e compradores de imóveis, descobriu que o alerta tinha procedência. Decidiu também investir no sentido contrário ao indicado pelo mercado.

A trama mostra como ambos foram amplamente rechaçados por seus parceiros e clientes, mas mantiveram-se fiéis aos seus prospectos e resistiram à pressão contrária que crescia à medida que suas previsões não se confirmavam tão rapidamente. Resistiram incrédulos e desgastados pela situação, até testemunharem juntos com um mundo atônito, não somente as suas previsões mas também uma fraude imensa no sistema virem à tona.

Agora sim, vamos aos testes de resistência

Como estes dois visionários mantiveram-se fiéis às suas previsões mesmo diante de um mercado incrédulo? A resiliência de ambos se baseavam em dois importantes aspectos: em primeiro lugar, eles estavam ancorados em um profundo senso de veracidade — uma convicção interna para manter-se fiel a uma visão, e em segundo lugar, a confirmação em dados objetivos reais, ou seja, em uma verdade que confirma este senso subjetivo. Não havia dúvidas nestes agentes, eles estavam absolutamente firmes em suas conclusões, independentemente desta percepção ser confortável ou não. Porém, conforme um artigo do filósofo Ken Wilber, para uma ideia ou visão resistir ao teste do tempo, não basta a convicção e as planilhas, ela deve ser disseminada (o teste do entendimento coletivo) e funcionar na sociedade (o teste do encaixe funcional).

E a dificuldade de ambos transporem estes dois últimos testes que fazia surgir um abismo entre as suas previsões e a percepção do mercado: tanto Michael como Mark não correspondiam ao estereótipo normal de agentes financeiros eloquentes do meio em que atuavam, seus interlocutores preferiam julgá-los de acordo com as suas inadequações ao padrão ao invés de dar ouvidos às suas posições embasadas. Havia então um descompasso naquilo que Ken Wilber chama de entendimento mútuo entre o mercado e os agentes contestadores, e este descompasso se refletia em falta de empatia e desconfiança. Finalmente, as ideias defendidas pelos dois não encontravam encaixe funcional na realidade daquele sistema — em outras palavras, os fundos hipotecários mantinham-se valorizados a despeito do aumento da inadimplência, em desacordo com as suas previsões.

Segundo Wilber, quando há um descompasso muito grande entre estes diversos aspectos da realidade, o sistema como um todo passará por um rearranjo em busca do equilíbrio, e no nosso exemplo, este rearranjo acontecia na medida que a opinião pública descobria que os fundos hipotecários revelavam-se supervalorizados por conta pelas relações fraudulentas e viciadas das agências reguladoras, as avaliadoras de riscos e os bancos. Assim, todo o sistema financeiro ruiu diante de poucos agentes que se sustentavam bravamente com suas posições mais autênticas da realidade.

O que esta história pode nos ensinar?

Em tempos em que verdades dadas como absolutas são rechaçadas e desconstruídas, em que o mundo se apresenta volátil, incerto, complexo e ambíguo, torna-se difícil estabelecer uma base que fundamente ideias, conceitos, projetos e produtos. Em que parâmetros apoiamos nosso julgamento para apontar a solidez ou a autenticidade entre visões diferentes, muitas vezes contraditórias, entre pessoas, instituições, mercados e governos?

Qualquer que seja o nosso papel em determinado momento, seja como criador, empreendedor, gestor, consultor, analista, estrategista, consumidor, ou eleitor, precisamos nos manter alertas e questionadores profundos para reconhecer e estar em sintonia com ideias e contextos autênticos, que tenham força para se sustentar no tempo. Talvez esta capacidade seja o maior diferencial para nos mantermos surfando sobre as ondas da realidade e não sermos tragados por ela. Sendo assim, questione-se:

Em que está baseada a minha veracidade interna, por que eu acredito no que eu acredito? As premissas que em que me baseio são realmente sólidas?

Os dados objetivos em que me apoio são verdadeiros? As fontes são confiáveis?

Consigo estabelecer um entendimento mútuo com meus interlocutores? Onde estão os possíveis ruídos? Estamos falando a mesma língua? Qual é a diferença em nossas premissas? É possível integrar estas diferenças?

Aquilo que pretendo ou acredito tem encaixe funcional na sociedade? Vai suprir necessidades reais da sociedade? Contraria a quem? Está alinhado ao local, tempo e público adequados? É possível conciliar com as regras do sistema? Se não, o que seria preciso mudar para que haja este encaixe?