Portfólio, currículo, perversão e academia: ser artista em tempos de Lattes.

“Em um mundo realmente invertido o verdadeiro é uma página no Lattes.”[1]

Um artista ou artífice que converge muito para seu próprio tempo histórico não pode ser chamado de contemporâneo, justamente por estar em comunicação direta com todas as normativas estabelecidas num passado recente ou antigo (por vezes bem antigo). O artista que se encaixa demais em todos os macetes e que ingressa na máquina sem causar nenhum dano a ela, não pode ser tido como contemporâneo “se a máquina só funciona rangendo” (DELEUZE, 1996) cabe ao artista adaptar sua prática a esse modelo: quebrado e incompleto.

Contudo, há muitos ganhos nos diálogos entre o artista e seu próprio contexto histórico. Conhecer um sistema é poder aprender sobre formas de utilizá-lo a todo momento, independentemente de onde se estiver, pois, um sistema tem várias entradas (SFEZ, 1997).

Atualmente não somente a mídia tem sido utilizada como forma de promoção e técnica de circulação da produção conceitual e visual de um artista, não somente as feiras de arte, salões, editais, publicações, espaços independentes, etc. Hoje temos um retorno a academia: as Universidades, Escolas Superiores e Faculdades como suportes de representação dos artistas. Digo um retorno, pois a filiação entre artistas e espaço acadêmico vem de longe, ela está ligada ao período renascentista e talvez até antes disso, a Idade Média, no que se refere a organização dos códices em sua escrita e pintura.

Hoje a academia é um espaço de representação, ela representa sujeitos e não somente os especializa em uma área, como nos diria Michel Foucault. Contudo, esse tempo gasto em especializar alguém em uma área específica não é mais necessário. Digo não é mais necessário, pois as ferramentas de averiguação, que antes talvez fossem a oralidade e a produção visual e que geravam dados concretos, foi aposentada. Hoje o currículo e o portfólio simulam e constroem as habilidades de uma pessoa, e substituem os atestados visuais, orais e o temporais para apreender uma área do conhecimento. Hoje já não sabemos mais se aquilo que está no currículo de alguém é atestado de competência para um trabalho prático ou conceitual. A periculosidade em se ter o aval de documentos hoje é que, nem sempre aquilo que é postulado em um currículo ou em um portfólio é verídico.

“Não é minha revolução se eu não puder colocar no Lattes” foi um trabalho de web art do Coletivo [Conjunto Vazio] que propõe uma problematização em relação ao uso atual que os editais, concursos e cursos vem dando aos currículos dentro do sistema de arte. O coletivo criou um currículo fake para a anarquista e feminista Emma Goldmann que pode ser acessado no link: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4337026T4

Outra questão a ser levada em conta é que as instâncias (coordenadores de curso, bancas de avaliação e orientadores dentro das universidades) que avaliam aqueles que pretendem adentrar na academia, fazem parte do mesmo circuito de interesses em regime de bloqueio, circulação e saturação, referente aos sujeitos dentro do sistema. A academia nesse sentido é utilizada como base para injetar valores curriculares nas trajetórias dos envolvidos, não necessariamente pautados na experiência.

Isso nos leva aquilo que o filósofo português Boaventura de Souza Santos chama de gentrificação das universidades, espécie de mercantilização do ensino. Onde professores e bancas avaliadoras não escolhem mais alunxs, mas sim clientes. Onde a universidade mercantilista se vende aos anúncios de apostas promissoras no mercado midiático. Isso interessa aqueles que avaliam quem entra nas universidades. Até porque, muitos desses avaliadores são vinculados a empresas que financiam pesquisas dentro das instituições, ou a curadores (as) independentes, artistas e pesquisadores (as) vinculados (as) sobremaneira as manobras nas sub-camadas dos sistemas, aquelas que nem eu nem você vemos: adulterações de pontuações, escolha de orientandos tendo por base vínculos de amizade, escolha de indivíduos tendo por base seu currículo artístico e não sua capacidade para representar com maestria a universidade do qual está fazendo parte.

O que ocorre então? Qual a consequência mais grave disso tudo? Um rebaixamento no nível conceitual e prático da universidade onde esses egressos são aceitos. Uma baixa na qualidade da produção acadêmica e que se faz sentir não somente no corpus da entidade, mas a milhas de distância perante as outras instituições e fatalmente (em parte) no rebaixamento da pontuação CAPES junto ao CNPQ.

Em paralelo a isso, no campo das artes visuais, os documentos se tornaram tão plásticos que diria-se, são hoje elementos representativos de uma estética da documentação, não sou eu que digo isso, mas outro cara, o filósofo russo Boris Groys. Para ele, o documento hoje tomou o lugar das produções artísticas. O documento tem um valor soberbo frente ao sistema de arte, ele é a vitória do falso pretendente, pois é a realidade em si, atestada e confirmada por inúmeras esferas e testemunhas inseridas no sistema de arte. Estamos vivendo a extinção da distinção entre o falso e o verdadeiro. Em certo sentido isso é ótimo, contudo, em outro sentido, mais burocrático e efetivo, há perdas e danos irreparáveis, pois, os atestados de experiências e competências são falsos. A partir do momento em que a experiência vira mercadoria (segundo Gilles Lipovetsky) a distinção perde direito de inclusão nos laudos de avaliação dos candidatos.

“No caso da documentação em arte, essas mídias não apresentam arte, mas meramente as documentam. A documentação de arte, por definição, não é arte, apenas refere-se a ela e exatamente dessa forma deixa claro que a arte, nesse caso, não está mais presente e imediatamente visível, mas ausente e escondida.” (GROYS, p. 74, 2015)

Fazendo um paralelo a relação documentos e academia. No caso da documentação de alguém, esses documentos não apresentam as experiências desse alguém, mas as forjam e assim, meramente as documentam. Os documentos apresentados se transformam em respaldo documental da experiência do sujeito, a vida deixa de ser aquilo que pode ser visto, para ser substituída por aquilo que pode ser respaldado via informação escrita ou impressa, algo como se a documentação tivesse a plausibilidade de representar a vida. Evidentemente, os documentos representam justamente aquilo que é incapaz de ser representado. O que gera um tiro pela culatra nessa operação de esconde-esconde e nos impele a questionar: o que existe por trás dessas representações e o que existe nesses bastidores que o currículo e o portfólio escondem?

Ricardo Macêdo, julho de 2017.

[1] https://comjuntovazio.wordpress.com/2011/07/12/nao-e-minha-revolucao/