Mudar o mundo é possível. Que legal

Reflexão baseada no ensaio “Mudar o mundo é possível. Que legal.” de Lala Deheinzelin

Por que não mudamos o mundo? Concordo que a primeira razão é por que não queremos. Somos naturalmente propensos a ficar como estamos, na nossa zona de conforto, como dizem. Somente em situações muito específicas em que somos obrigados a tomar uma atitude criamos coragem e fazemos algo diferente, algo novo. Estas situações peculiares ocorrem em maior ou menor quantidade na vida de cada um.

Imagine a sua família. Quantas pessoas são? Quando alguma mudança acontece, como foi tomada esta decisão? Se foi racional e discutida por todos, é porque algum fato externo a estava provocando, certo? Se não foi racional, é porque alguém com poder de decisão ou influência achou que tinha que mudar, e assim foi feita, com a concordância da maioria ou não. Agora imagine mudar alguma coisa no seu prédio ou no seu condomínio, ou na rua em que você mora. Há que se ter muita vontade e mobilização, ou a situação estar insustentável. E veja como o grau de dificuldade de mobilização aumenta. E para uma cidade, um país então? E o mundo? Impossível, você deve estar pensando.

Pensando então nesse grau gigantesco de dificuldade, a vontade necessária para mudar o mundo deve ser muito grande e envolver muitas pessoas. Na verdade nem tanto, por que o processo não é assim rápido como nas situações acima, da família ou do condomínio. Mudar o mundo é um processo lento, muito lento. E depende do quê? Eu penso que primeiramente depende de algumas pessoas quererem mudar (esta vontade nunca surge só em uma única pessoa!). Uma vez que estas façam uma mudança, essa mudança pode se propagar para outras pessoas, até atingir uma região, um país e finalmente o mundo. Pense no que você conhece da história da humanidade. Não foi assim?

A revolução industrial, a mudança de maior magnitude, a mais radical e a mais duradoura da humanidade é um exemplo. Iniciou em 1760 (vide Wikipedia), e durou até por volta de 1840, ou seja, 80 anos. Se durou tanto tempo, na verdade não foi uma revolução e, sim, um processo de mudança (que é do que estou escrevendo), mas isso é outra discussão. Ou seja, um exemplo de que mudanças de grande magnitude são lentas.

Mas voltando ao começo. O desejo da maioria das pessoas (em qualquer situação) é não mudar. As poucas pessoas que querem geralmente não conseguem convencer a maioria de que a mudança será positiva. Todo mundo tende a pesar mais os aspectos negativos. E a segunda razão porque não mudamos o mundo, pelos exemplos acima, é por que achamos que é impossível mudar. E justamente por isso é que as pessoas que querem mudar começam a fazer mudanças sem se importar com o que pensa a maioria. Isso vale para as “revoluções”, vale para a ciência, para as invenções, para tudo que tenha algum grau de mudança (ou inovação, como se diz atualmente). Mas vou voltar a isso mais adiante.

O que nos leva a pensar assim? (ter medo das mudanças e pensar que as mudanças são impossíveis de se conseguir) Em ambos os casos o que nos faz pensar assim é a nossa cultura. A maioria das pessoas pensa concretamente, pensa nas coisas que tem, nas coisas que consome, nas coisas que conquistou. Pensa no material, no tangível. Naquilo que se pode pegar, sentar, usar, etc. Essa é a nossa cultura.

E justamente essa é a origem do problema. O tangível é finito, se consome com o uso. O tangível gera economia e escassez. Que são a base do sistema atual, baseado na competição, centralização, exclusão. A economia do consumo faz com que as pessoas consumam cada vez, não por que precisem, como foi no início (da revolução industrial), mas por que se tornou a nossa cultura. É importante consumir para a economia fluir, dizem muitos. O consumo gera a necessidade de se produzir mais (a demanda). Mas atualmente, o produzir mais não é para os que ainda não tem, geralmente é para os que já tem, e podem continuar consumindo. Estes tem recursos financeiros para consumir. Os que ainda não tem (bens), também não tem como comprar (não tem renda), e vão sendo excluídos.

É errado pensar concretamente? Não. Precisamos pensar concretamente para garantir nossa sobrevivência. Para termos alimentos, habitação, mobilidade, estudos e trabalho (hoje nem tanto). Mas é fácil ver que há um limite para estas necessidades. No sistema atual, há a necessidade de se passar deste limite para que justamente seja gerado o excedente e os detentores deste excedente possam fazer comércio e investimentos, necessários à economia. Mas é fácil ver que não é necessário passar muito deste limite, chegar à situação de concentração de renda a que chegamos hoje, que não é uma característica original do capitalismo ou da revolução industrial. Então, considerando que se atinja o limite aceitável da acumulação e do pensar concretamente, o avanço a além deste limite pode ser de outra forma.

Que forma? Se mudarmos nossa visão de olhar o mundo atual, veremos que estamos em um mundo onde coisas maravilhosas estão sendo feitas (junto com a mesma porcaria que sempre foi feita, como guerras e armas). Perceberemos que estamos vivendo uma era de mudanças tecnológicas (uma revolução!), uma época de informação e conexão que nunca existiu antes. E poderemos enxergar que em muitas das coisas que fazemos ou mesmo compramos, o valor não está mais no tangível, mas no intangível. Está, por exemplo, no design ou na comunicação. Atualmente os carros não vendem mais só por que tem melhores motores, ou lugar para cinco pessoas, ou quatro portas, ou um porta malas de bom tamanho. Mas pelo design, e pelo que o carro tem de ferramentas de comunicação (aplicativos embarcados). Da mesma forma os smarphones hoje são quase tudo na vida de muitas pessoas mas na menor parte do tempo servem para telefonar. As pessoas passam mais tempo em aplicativos, facilmente acima de duas dezenas, do que falando por uma ligações telefônicas. E os aplicativos mais populares são os de comunicação (redes ou mídias sociais) e os jogos. Esse produtos são intangíveis, não irão se acabar. Quanto mais usados, mais crescem, e crescem muito mais rápidos do que o uso dos bens tangíveis. E o que move estes produtos intangíveis? Cultura, conhecimento, criatividade, relações, valores. Coisas que não se acabam, que acontecem no tempo. Outra característica deste produtos intangíveis: o “excedente cognitivo”. Não é um excedente material, concreto, físico. É um excedente do tempo que cada pessoa tem para criar alguma coisa, para comunicar, para se conectar. E como cada pessoa é única, em cada instante de tempo que uma pessoa estiver criando algo, ou se conectando com alguém, teremos algo único e singular, o seu patrimônio intangível.

Desses dois fabulosos recursos, tempo e singularidade, podemos fazer qualquer coisa … inclusive mudar o mundo. Então, as pessoas que hoje podem começar a mudar o mundo … somos nós mesmos. Basta deixar que este potencial de conexão e criação aconteça.

A tecnologia que hoje nos conecta, a rede (a internet, a web), é um fator essencial para que este potencial possa se multiplicar. Hoje tudo está acessível, visível, aberto (quase tudo) e interligado. E a rede não são as máquinas, os servidores, são as pessoas. A rede é fluxo. E fluxo só existe se há conexão. Conexão entre as pessoas. E o que precisa para poder conectar? Mais confiança, colaboração, afeto. Menos medo, individualismo, solidão.

E como permitir que esse potencial de conexão e criação possa surgir? É necessário, primeiro, se desconectar do que nos é empurrado para nos fazer consumir. Desconectar da TV, do futebol na TV, por exemplo. Precisamos sair e jogar o jogo da vida, nos conectarmos com as pessoas, seja no real ou no virtual. Seja no parque ou na praça, seja nas redes sociais ou no Pokémon Go. Deixar surgir o que tem dentro de nós. Deixar surgir nosso afeto, nossa confiança no outro, nossa vontade inata da colaboração. E isso que temos dentro de nós é intangível, é infinito.

E por que eu penso que isso é possível? Por que a nossa história mostra que a ideia antecede a matéria. As pessoas que querem mudar trabalham sintonizadas nas ideias, que vão ficando mais fortes, e tomando mais pessoas. Até que quando percebemos as ideias estão se concretizando e ocupando o mundo, como aconteceu com a “revolução” industrial. Mas não espere ver uma revolução, tem que procurar as mudanças. As conexões. As informações. E não é difícil perceber que isso está acontecendo, as conexões estão aí nas nossa casas. A informação está aí, acessível, visível, aberta. É só parar e pegar o bonde. Sintonizar e se inspirar.

Que legal.