É golpe ou não? Como as agências de notícias estatais dos BRICS apresentam o impeachment
Informação é arma. Arma de guerra e poder. Os países sabem disso e uma das grandes munições no jogo de poder da Aldeia Global (como dito por McLuhan) são as agências de notícias estatais. Para o país, é algo muito útil, já que consegue enviar uma mensagem gastando pouco. Para a mídia, é mais útil ainda, já que as agências estatais liberam notícias, imagens e áudios gratuitos. Eu sou um que sempre uso as informações destas agências na redação. São bem apuradas, bem redigidas e normalmente trazem visões plurais sobre diversos temas.
As agências também estão presentes nos países que formam os BRICS. BRICS, grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, tem como semelhança o processo de economia emergente. Os BRICS saíram das ações discursivas e colocaram a mão na massa, criando não apenas frequentes reuniões de cúpula, mas também instituições, como uma futura aliança de ensino superior e um banco de investimentos, o Novo Banco de Desenvolvimento, que será um contraponto interessante ao Fundo Monetário Internacional (FMI) nos países emergentes e na cooperação internacional.
Em meio ao turbilhão vivido pelo Brasil, como os maiores parceiros do país fora do continente americano, os BRICS, noticiam em suas agências estatais o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff? Será que é golpe ou não? Saber como o processo é mostrado nos aliados do Brasil no bloco é importante. Fiz a análise e mostro para vocês abaixo.
Rússia

O presidente Vladimir Putin fez em 2013 uma grande reestruturação na mídia estatal da Rússia. Nesta reestruturação, a Rádio Voz da Rússia deu lugar, no final de 2014, à Agência Sputnik.

E a Sputnik já mostra maior número de matérias classificando o processo de impeachment como golpe. Isso fica claro na versão internacional da agência, que coloca várias vozes, em diferentes notícias, criticando o processo e tratando o processo como golpe. Para manter a ideia, a Sputnik possui artigos de opinião, notícias criticando a cobertura da mídia, entrevistas com políticos da América do Sul e do Parlamento Europeu.
Tema caro à Rússia, a agência traz, em sua versão brasileira, uma matéria com a deputada Maria do Rosário (PT/RS) dizendo que o governo Temer vai renunciar às parcerias com os BRICS. Ainda na versão brasileira, vozes a favor do impeachment aparecem. Na versão internacional, analistas ouvidos pela Sputnik seguem a mesma linha da deputada gaúcha.
Índia

A empresa pública de comunicação, Prasar Bharati, possui duas agências de notícias: a News on Air e a Doordarshan News (DD News). Os sites são extremamente confusos e os links colocados aqui estão armazenados no cache do Google, já que alguns deles estão inacessíveis.
A News on Air possui cinco notícias sobre o processo. Na única em que a palavra golpe é citada, a escolha léxica é atribuída a Dilma, por conta do vazamento do discurso de posse de Michel Temer. As outras quatro notícias (aqui, aqui, aqui e aqui) tratam o processo exclusivamente como impeachment.
Na DD News acontece a mesma coisa. Nas duas notícias publicadas sobre o processo, o foco é dado apenas no impeachment e a palavra golpe sequer aparece (veja aqui e aqui).
Nas agências indianas, o processo é visto como impeachment.
China

Único país comunista do bloco, a China possui a agência Xinhua. E é ela que possui uma conduta mais neutra diante do nome golpe. Tão neutra que, em boa parte das notícias publicadas, a palavra golpe aparece entre aspas. Deste jeito: “golpe”. O jogo com aspas cria no receptor da mensagem que o processo de impeachment não é golpe e que apenas foi um nome dado.
Mas a China é comunista. E a identificação da esquerda com as ideias comunistas levaram a Xinhua a soltar um artigo (feito no México) mostrando os riscos do impeachment de Rousseff à esquerda latino-americana, lembrando de uma possível ascensão hegemônica dos Estados Unidos na região. Em uma notícia feita pela agência em Brasília sobre a comissão do impeachment no Senado, é frisado que Rousseff não possui nenhum tipo de acusação.
Mesmo não ouvindo nenhuma voz pró-impeachment nas notícias analisadas, a Xinhua tenta mostrar uma imagem imparcial no processo e não vende um golpe no Brasil.
África do Sul

País cujo nome em inglês começa com S e termina com A, o S dos BRICS, a África do Sul é, até agora, o único Estado que não se posicionou em matérias próprias sobre o processo de impeachment nas mídias estatais. O motivo? A SABC (South Africa Broadcasting Company), a TV estatal do país, não fez nenhuma matéria sobre o processo, colocando em seu site apenas reportagens compradas da agência Reuters. A condução do processo na Câmara por Eduardo Cunha (PMDB/RJ) é criticado pela agência (aqui e aqui). Portanto, a África do Sul vende o processo como impeachment.
E o Brasil?
Por lei, a Agência Brasil (e a EBC) deve ser plural. Mesmo com a TV Brasil apresentando opiniões majoritariamente classificando o processo como golpe, a Agência Brasil se mostra imparcial no processo. E digo isso como leitor antigo da Agência. Não acho que o Brasil deva participar da análise, portanto excluí a visão da Agência Brasil do resultado final.
Como vimos, apenas a agência da Rússia vende o processo como golpe. Se Dilma sobreviver, já sabe em qual parceiro dos BRICS deve bater à porta para pedir ajuda.
Portanto…
Placar final:
