Textão para entender a importância da vitória do Salvador Sobral no Eurovision Song Contest

Imagem: Divulgação/EBU

A maior vitória da história do Eurovision Song Contest foi hoje. Nos próximos dias, vocês ouvirão com certeza no Fantástico ou no Vídeo Show: “quem é o mais novo fenômeno da música portuguesa, que recebeu apoio de Caetano Veloso?”. Salvador Sobral fez 758 pontos, vencendo o voto do júri euroasiático+Austrália e do televoto.

Mas qual é a importância disso? Vejamos:

- Portugal é o único país participante que até hoje não levou músicas em inglês em sua totalidade. Neste ano, a seletiva portuguesa (o Festival da Canção) aboliu a exigência das músicas em português. Salvador venceu o FdC com este fado em português e colocou o ESC no bolso. Não só Salvador e Portugal venceram. A língua portuguesa também;

- O Eurovision sempre foi um espaço de resistência português. Exemplos não faltam. Em 1973, “Tourada” criticava abertamente a ditadura de Salazar, que só cairia no ano seguinte, com a Revolução dos Cravos. O evento mais importante da Revolução dos Cravos (que derrubou a ditadura Salazarista em 1974) foi a execução da música “Grândola, Vila Morena” na Rádio Renascença. Esta música foi a senha para o Exército tomar as ruas e derrubar o governo de Salazar. Mas uma música também foi importantíssima para o Dia D da Revolução: E Depois do Adeus, representante de Portugal no Eurovision em 1974. Quando essa música tocou no rádio, a mensagem era clara: atenção, tropas. Preparem-se pois a Revolução começará. As tropas se prepararam. Grândola tocou e o resto está nos livros de história. No ano seguinte à Revolução, a música “Madrugada” exaltava a Revolução. Em 1977, “Portugal no Coração” trouxe uma reflexão sobre os tempos da ditadura e das guerras de libertação das Colônias Portuguesas na África. Em 2011, “A Luta é Alegria” falou da necessidade dos portugueses irem às ruas combater a Troika e o ajuste fiscal (quando virem aquela reportagem sobre a falta de ajustes em Portugal, questionem sempre. O povo português sentiu muito). O grito de “A Luta é Alegria” ecoou nos protestos do início da década em Portugal (tenho um artigo sobre a música apresentado no Intercom Sudeste de 2014);

- Mesmo sendo um dos países mais tradicionais do Eurovision, Portugal sempre foi coadjuvante no Concurso. As chances de vitória do país sempre foram mínimas. E as estatísticas eurovisiopsefológicas provam isso. Nas 40 finais anteriores a de 2017 que Portugal participou (a última foi em 2010), o país obteve 1256 pontos. Uma média de 31 pontos por edição. Isso não dá para atingir a vitória nunca. Só a vitória de Salvador Sobral hoje dá mais da metade de todos os pontos obtidos por Portugal em mais de 50 anos de Eurovision! É muita coisa, Nossa Senhora! Além disso, nunca Portugal havia chegado ao Top 3. Até hoje;

- Nos últimos anos, a RTP tem feito um esforço imenso para manter o Festival da Canção no ar e, consequentemente, a participação portuguesa no Eurovision. Por conta da Crise de 2008, as verbas do canal público foram reduzidas e a produção teve que apertar os cintos para fazer o show;

- Ainda há a questão com a Espanha. Portugal era o único país da Península Ibérica que não havia vencido o Eurovision ainda.

Em um curto período, essa vitória levantará a moral portuguesa e dará ao povo sentimentos nacionalistas e de pertencimento semelhantes ao da vitória da Seleção Portuguesa na Eurocopa de 2016. A médio prazo, o turismo em Lisboa e na região vai se desenvolver muito (ou você acha que não irei à comunidade de Barbacena, no distrito de Elvas, durante a semana do Eurovision?). A longo prazo, o Estado Português terá que juntar moedinhas no porquinho para pagar a realização do Eurovision e as dívidas que ficarão. Nos últimos anos, a organização do Eurovision vem passando dos 10 milhões de euros tranquilamente (nada comparado ao R$ 1 bi que o Azerbaijão gastou em 2012).

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