Um ano depois, qual o legado do Pan Americano para Barbacena?

Barbacena recebeu em março do ano passado o XVI Campeonato Pan Americano de Mountain Bike. Nos quatro dias de competição, estive in loco, no Parque de Exposições, em três deles. Algo importante de citar sobre a competição: diferentemente de outras competições que aportam por aqui, vez ou outra, o Pan foi uma competição realizada apenas em Barbacena. Era o nosso evento. Era a nossa oportunidade de projeção continental. E que não foi devidamente aproveitado.

Muito se discute até hoje sobre o legado da Copa. Mas pouco se discute dentro da cidade qual o real legado do Pan. Em tempo: a participação de Barbacena na Copa foi de entreposto (termo definido pelo então presidente da CENATUR, Professor Barão, na Pré-Conferência Municipal do Turismo, em 2011), servindo a turistas em deslocamento pelas sedes e como parada para torcedores sul-americanos que vieram ao mundial de carro. Um desses exemplos foi a torcida belga, que, depois do jogo Bélgica x Argélia (17/06, vitória da Bélgica por 2 x 1), no Mineirão, parou na Cabana da Mantiqueira para jantar e depois seguiu ao Rio de Janeiro.

A cidade investiu pesado para receber o Pan. E esse investimento, em sua maior parte, foi na estrutura do evento, como a construção das pistas do Mountain Bike e do Downhill, por exemplo.

Mas afinal, Barbacena aproveitou — efetivamente — o evento para construir algum legado?

Vamos por partes:

1 — Divulgação:

Dói meu coração até hoje pensar na divulgação do Pan, que se resumiu a alguns outdoors, propagandas nos intervalos do MGTV e a boa vontade da imprensa local, regional e nacional em falar do evento.

Faltou divulgação dentro da cidade, chegando ao passo em que moradores dos bairros Nove de Março e Santa Maria fecharam a BR-265 em protesto ao transtorno trazido pelo evento (!!!).

Querem um exemplo de boa divulgação? Os postes do centro da cidade possuem suporte para inserção de cartazes. Por que, dentro do pack de patrocínios, não colocaram uma faixa para que a marca do patrocinador fosse exibida junto à do evento nos postes da cidade? Seria uma oportunidade ótima de exibição. Lembrando que com menos de R$ 10000 era possível comprar uma boa cota de patrocínio no evento.

Imaginem também o impacto de uma bicicleta de Mountain Bike na porta da Caixa Econômica Federal para que as pessoas pudessem tirar fotos dela. É publicidade gratuita ao evento e aos patrocinadores!

Competidor mexicano não acredita que venceu prova no Pan de MTB em Barbacena. Sabe quantas pessoas puderam ver essa reação? Poucas.

2 — Falta de público

Em A Lógica dos Megaeventos Esportivos, Cládice Diniz (2014) explica que os megaeventos são eventos memoráveis, em que haverá comparecimento maciço da população das cidades que os recebem.

Era evidente que não havia público no Pan. A baixa presença só não foi maior porque fãs do esporte vieram de várias partes do país para acompanhar.

Ouvi de um competidor do Rio Grande do Sul que o grande erro foi, vejam só, divulgarem mais aos competidores do que na região.

“Nós, atletas, temos que vir à competição. Quando está no calendário oficial, já fazemos a inscrição”, disse o atleta, que venceu uma prova em Barbacena.

3 — Preparação do comércio

O comércio teve alguns meses para se preparar. E qual o maior empecilho? Falta de atendimento bilíngue ou trilíngue. O que Prefeitura e associações de classe poderiam fazer? Cursos básicos de espanhol, inglês e francês para atender o público rotativo na cidade durante o evento. A capacitação de pessoal reverte-se em lucro e até novas oportunidades futuras. O que aconteceu? Nada. Atenção: tem Olimpíadas no ano que vem e Barbacena receberá delegações. Vejam a oportunidade que estamos perdendo…

4 — Sinalização bilíngue e preparação de pontos de ônibus

Uma das coisas que mais ouvi: “como faço para pegar o ônibus à Exposição?”. Uma informação simples para os barbacenenses, mas difícil para o visitante. Se era difícil para o falante de língua portuguesa, imagine para quem fala espanhol, inglês ou francês.

Placas personalizadas do evento, como as da Copa do Mundo, em duas línguas, ou uma tabela de horários de ônibus ajudariam e muito o visitante e ficariam como um bom legado e lembrariam à cidade do evento.

5 — A cidade ignorou o evento

Se a cidade não abraçar o evento, ele não funcionará. Isso aconteceu com o Pan. Os vários setores da cidade simplesmente ignoraram o evento. Muitos sequer sabiam que a entrada era gratuita. E essa junção de falhas graves prejudicou o Pan e, consequentemente, o investimento forte da Prefeitura.

Ficou legado?

Não. Para Diniz, o legado são coisas e situações que garantem aos megaeventos. Mas fica um aprendizado: se Barbacena quer se firmar como uma cidade de referência continental, é necessário se preparar. Viveremos as Olimpíadas em breve. E essa será a nossa ÚNICA E ÚLTIMA CHANCE em décadas para obtermos um legado continental. Não vamos perder isso. Temos menos de um ano para darmos o tiro certo.

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