Mostremos valor constância?

Orgulhosamente nasci no interior do Rio Grande do Sul, frequentei por muito tempo as invernadas de dança onde, conheci o hino do estado. Até hoje começo o dia ouvindo esta canção , pela letra que acho fantástica. E sou fã da versão do Elton Saldanha, com um ritmo de vaneirão.

Desde cedo fui morar sozinho e, depois de formado tive a oportunidade de crescimento profissional bem longe do Rio Grande do Sul. Passei quase uma década em São Paulo. Posso dizer que me tornei adulto nesta imensa cidade. Vendo a atitude de certas pessoas, ficava triste com o ser humano em si. Não acreditava como alguém pode comer milho no transporte público e jogar o pote de plástico na via pública sem achar que vai causar alagamento. Não entendia como as pessoas podiam passar por cima das outras por causa de status, dinheiro e posição social. Não entendia essa busca cega.

Mas, me lembrava do meu estado, ouvia sempre o hino do Rio Grande do Sul e acreditava que aquele comportamento não era refletido na minha querida querência. Tinha uma fé ingênua que no meu estado as coisas eram um pouco diferente. Que aquela hombridade do gaúcho, que a honra e a ética ainda persistiam pelas bandas sulinas. E também acreditava (olha como era ingênuo com 32 anos) que a culpa do estado estar praticamente falido era somente dos governantes. Acreditava que aqui no RS também veria isso, mas em menor escala, devido a frases que ecoam no hino do estado:

“Mostremos valor constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra

De modelo a toda Terra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra

Mas não basta pra ser livre
Ser forte, aguerrido e bravo
Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo”

Tudo bem, tudo bem. Posso ser acusado de bairrismo sim. Acreditava que no RS era diferente.

Mas a saudade de casa foi tanta que voltei a morar no Rio Grande do Sul, mesmo estando muito bem na capital paulista. Ainda lembro bem de quando passei a divisa com Santa Catarina, da sensação de volta pra casa e da sensação de estar entrando em local sagrado, pelo menos pra mim.

Porém, logo fui apresentado a uma das especiarias interioranas: a fofoca. A fofoca talvez seja um dos males mais praticados e que as pessoas não tem parâmetro do quão nocivo é. Uma história pode causar muito mal e sofrimento. Mas, tudo bem, depois do pavor inicial me acalmei. Achei que era somente um susto para dar boas vindas no meu retorno.

Porém, chegamos nas eleições. E aí eu fui apresentado a realidade.

Antes de continuar, peço perdão aqueles gaúchos que não merecem ouvir isso. Felizmente conheço famílias que são exemplos de ética e honra. Porém, parece que estão se tornando um item raro. Também, frisar que devo muita coisa a São Paulo, inclusive fiz bons amigos nesta cidade e também conheci pessoas dignas.

Sabe a parte do hino que fala em “mostremos valor constância”? Que valor tem um povo que vende seu voto? Que valor tem um povo que reclama de um candidato e, depois de receber algum favorecimento vota nele? Independente do partido ou coligação que compra, no meu entendimento o principal bandido é a pessoa que vende seu voto. Ela não pensa no bem comum, pensa somente no seu bolso. Sem falar que prefere o bolso com algumas cédulas do que a honra intacta.

Parece que o povo não se da conta da equação mais simples que existe no mundo: quando você vende o voto, o político precisa repor aquilo que gastou para te pagar. Sabe como ele faz isso? Não, ele não tem uma fonte abençoada ou um pé de dinheiro em casa. Ele rouba dos cofres público.

E depois esse mesmo povo vai cobrar ética dos governantes. Vira um leão feroz atacando os políticos e reclamando que seu município, estado e país não tem saúde, educação, infra-estrutura e assim por diante.

E o que falar de grampos que são colocados nas estradas mais periféricas da cidade para furar os pneus dos adversários? Será que o cidadão não pensa que uma pessoa levando um ente querido as pressas a um hospital não pode ser vítima desse grampo? Não, não pensa. Porque o que importa é o seu bem comum em detrimento a qualquer outro ser vivo.

E sabe aquela parte do hino:

“Povo que não tem virtude
Acaba por ser escravo”

Que virtude tem uma pessoa que apóia um candidato, defende raivosamente um nome sabendo que ele compra votos. Sabendo que a principal estratégia do seu candidato e fazer reuniões e conseguir apoios de pessoas ricas, para simplesmente mudar a eleição de uma hora pra outra?

E o pior que essas pessoas acham que não estão fazendo nada de errado. Porque a pessoa simplesmente acredita que ela não rouba, quem rouba é o outro. Esta pessoa só dá um “jeitinho”.

E descobri uma coisa. Não existe mais democracia. Parem de vender esta mentira. Não existe uma luta pela prefeitura com ideais, com projetos e tentando convencer o eleitor no bate papo. Existe convencimento por chantagem, por mentiras que causam medo em relação a outro candidato, existe convencimento por dinheiro, enfim, baixaria completa.

Eu, sinceramente, perdi as esperanças. Não acredito em mudança no mundo. Ainda acredito em pessoas boas, de índole, caráter e ética imunes. Mas, elas estão em pé de igualdade ou, pior, sendo engolida por esta corja.

Algum leitor pode estar raivoso comigo e me perguntando: então porque não volta pra São Paulo? Não volto porque amo meu estado e prefiro me ater ao hino e viver no sonho de que a alma charrua, alma gaúcha, de honra e ética acima de tudo ainda prevaleçam. E os meus bens mais preciosos ainda estão no RS: minha família e minha futura família.

Enfim, parabéns as pessoas que estão conseguindo falir um estado que já foi líder em vários índices de qualidade de vida. A culpa não é do governo. A culpa não é do PT, PMDB, PP, PSDB, PDT ou qualquer outra sigla. A culpa é do povo que permite que a busca pela prefeitura seja uma guerra suja onde vale qualquer coisa.

E sabe aquela frase: “A política é suja”? É suja porque as pessoas sujas podem definir uma eleição.

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