Pela culatra

No Bar do Alemão, contadores de histórias relembram última eleição para prefeito de Timbé do Sul, extremo sul de Santa Catarina

Por Ricardo Pessetti


Seu Germino Palheiro colocou todo armamento em fileira, já carregado, organizado conforme o tamanho, por cima da mesa de madeira grossa, longa, que ocupava quase todo o espaço da cozinha da sua casa. Duas espingardas 16 mm, um revolver 22, dois 38 e dois foguetes de tiro 12x1, desses que as torcidas de futebol usam em dia de jogo. Abriu a porta da cozinha, que dava na garagem, agachou-se e pegou uma bomba de encher pneu de bicicleta debaixo da churrasqueira de tijolos. Foi até à entrada da casa, já na rua, e começou a encher os pneus do Fusca 76, cinza, que acabara de comprar de um agricultor, plantador de fumo do Amola Faca, bairro do interior do município. Era 2012, poucos dias antes das eleições municipais.

Há certa verdade quando se diz que em terras do interior o tempo demora a chegar. Por mais que a virada dos anos faça presença a todas as cidades, as mais perto do pacífico parecem esperar mais para se acomodar às novas datas. A pequena Timbé do Sul, de cinco mil habitantes, dois mil eleitores, no extremo sul de Santa Catarina, quase pampa gaúcho, cidade que dá entrada a Serra de São José dos Ausentes, é uma dessas terras que se apaziguaram com a memória do passado, deixando o passado estar. No preparo da massa do domingo, na galinha caipira, ensopada, morta a golpes de machado — ou estrangulamento -, na polenta de tábua, no pisotear das uvas para o vinho e, também, na tradição quase coronelista de se fazer política.

Entre uma rancheira e outra, morador da cidade conta a história da eleição municipal de 2012

Depois de terminado o serviço, Seu Germino faz quatro ligações. Era isso duas da tarde. Esquematizado. Era esperar a hora e dar banda nos 45, os pés brancos, pelegos.

Historicamente, em Timbé do Sul, dois partidos disputam as eleições municipais. Os pés vermelhos, do 15, e os pés brancos, do 45. A prática da tocaia é comum na cidade, de um lado e de outro. Em Timbé do Sul, os votos são conseguidos durante as visitas que os candidatos fazem de casa em casa — tem dias que chegam a tomar dez cafés da tarde. Deixar de visitar uma casa é deixar de ganhar voto. Quanto menos casas o adversário visitar, menos votos ele vai ter. Por isso, se faz de tudo para impedir que um dos pés chegue aos bairros e, consequentemente, às residências da zona rural, no interior da cidade.

Timbé do Sul vista da serra de São José dos Ausentes, no RS

Apenas 20% dos eleitores moram na zona central do município — onde fica o único posto policial, uma viatura, dois soldados. Enfrentar a estrada de areia vermelha, às vezes de barro, a escuridão das fazendas, os buracos das chácaras e o lodo das plantações de arroz, é fundamental para ganhar o pleito. Nas eleições de 2010 — o prefeito eleito em 2008, do PSDB, foi caçado por compra de votos e uma nova eleição foi feita -, a diferença foi de sete votos, a favor dos pés vermelhos.

Chegando próximo do domingo é que a peleia engrossa, ainda mais. O que se diz por aqui é que a tocaia não tem intenção de matar, mas foi a única — e melhor — maneira de se fazer respeito e atrapalhar a vida do adversário na campanha.

Em Timbé do Sul, os bares são os comitês de campanha de cada partido — muitas vezes, parecem até quartéis generais. Os bares do início da cidade são dos pés brancos, os do centro é zona neutra — ficam os que não se envolvem com política -, e os de cima — mais perto da serra — dos pés vermelhos.

Programa Nossa Terra, Nossa Gente, desvenda a cidade de Timbé do Sul e o Bar do Alemão

Por volta das cinco da tarde, colocou todo armamento, escondidos por cobertores, no Fusca. Saiu de casa para buscar quatro companheiros que bebiam no Bar do Alemão. Falaram ao dono do bar, um italiano apelidado de Alemão, que iam ver um porco e uma ovelha para carnear no domingo, a modo de comer na festa da vitória. Subiram no Fusca e foram rumo ao Molha Coco. Andaram por cerca de 10 km até chegar à ponte que dá entrada ao bairro. Por essas horas, não passaria ninguém que morasse lá. Agricultor dorme cedo e, no fim da tarde, já estão todos em casa. O carro que passasse era carro de campanha, marreco de passagem, havia de levar bala.

Cautelosamente, esconderam o Fusca na mata que cerca a estrada, logo antes da ponte, já na direção da cidade, assim, facilitaria a fuga. Entranharam-se no barranco do lado da ponte, todos agachados. Ficou combinado que Seu Germino ficaria com a 16, Zé Baga com a 22 e um 38, Pampola com o outro 38 e o Negão com os foguetes. Na espreita, ficaram a esperar.

Wilson Mafioletti, o Alemão, mostra os objetivos do seu bar, registro material da história da cidade

Lá por volta das sete da noite, avistaram um Fusca azul, com a luz baixa, devagar. Difícil era ver quem era, mas não havia muito do que duvidar. Nessas horas, devagar, luz baixa, era carro de campanha e era dos pés brancos. Prepararam-se. Logo depois que o Fusca azul passou da ponte, subiram para a estrada e começaram a disparar. Pá, pá, pá, bum, tratatá! Os pés brancos, frouxos, saíram voados, balançando a traseira do Fusca. Feito! Seu Germino queria é ver fazer visita depois da tocaia, mas nunca, ninguém tem tempo de pensar em promessa de campanha depois de um tiroteio.

Na manhã seguinte, véspera da eleição, todos os quatro, Seu Germino, Zé Baga, Pampola e Negão, estavam lá no Bar do Alemão a gargalhar e bebericar graspa. Satisfeitos, sem falar nada da tocaia, cada um com um sorriso no canto de boca. Deixaram segredo, queriam saber se alguém ia chegar dando notícia do acontecido.

Chega Dirceu, Pitisso e Tonho, do 15, pés vermelhos rachados. Dirceu entra no bar batendo pé no chão, xingando a própria mãe, prometendo vingança. Seu Germino, sem dar entendimento, pergunta, ressabiado, o que havia sucedido, porque da tanta revolta. Dirceu, babando palavrão, conta da ida ao Molha Coco. Tava com o candidato pra fazer campanha nas casas, quando os pés brancos, saem do mato e dão tocaia com espingarda, revolver, foguete e o diabo. — Quê?! Hoje mesmo dou troco.

Seu Germino dá uma esgueirada na cadeira, olha em direção à porta, para fora do bar. Vê, estacionado na estrada, o Fusca azul, todo cravado de bala, arriado, com os pneus vazios, sem o para-choque traseiro. Volta à posição, dá uma coçada na cabeça, olha o teto, coça a orelha, franzi a cara e apaziguador:

-Companheiro, deixa disso rapaz. Esquece dessa troça. Tamo um dia das eleição, vai querê guerreá agora? Logo agora, pra ficar mal com os eleitor? Vamo é dá troco nas urna! Seu Germino sempre foi disso! Homem de desfazer vingança.

Vista geral do Bar do Alemão, entre a saída e a entrada de frequentadores do estabelecimento
Show your support

Clapping shows how much you appreciated Ricardo Pessetti’s story.