A entrevista de estágio

Mais uma fase, esta entrevista com o “dono da vaga”. Um processo seletivo disputadíssimo, os números giravam em torno de 5 mil inscritos para pouco mais de 100 vagas naquele ano. Não preciso nem dizer que a empresa é uma dessas transnacionais líder ou vice líder nos mercados em que atua. Sonho de consumo de qualquer estagiário.

Voltemos a entrevista: João sai de casa, como manda o figurino, melhor roupa e — principal — sem discurso pronto, com o coração aberto e demostrando muita vontade fazer parte de tudo aquilo.

Ele chega à empresa, passa por todo aquele controle de acesso que o manual de segurança patrimonial recomenda, encontra candidatos de todas as partes do Brasil, das melhores Universidade públicas e privadas, nestas a mensalidade era maior que a renda de sua família.

Naquela tarde a entrevista seria com uns 15 candidatos, João se aproxima de uns 3 ou 4 rapazes. Faz amizade — bate-papo com o pessoal, apresentação rápida: de onde é?; onde estuda?; qual curso?.

Ao término da entrevista os candidatos eram dispensados — o resultado da entrevista seria divulgado no site do RH da empresa em data ainda a ser confirmada.

João ali, suando, ansioso, mas muito feliz por participar de todo aquele processo (Nem nos melhores sonhos de João aquela empresa havia acontecido, mas ainda era pouco). Nesta fase a entrevista era apenas com um entrevistador, ainda chegaria a fase que seriam 3 lhe “sabatinando”.

João é chamado, entra na sala e se depara com seu entrevistador, um senhor na casa dos seus 40 anos, cumprimentam-se e começa a entrevista.

O entrevistador, como é de se esperar, está com todos os dados dos testes e das fases anteriores do candidato. E diz: você trabalhou na empresa X? João responde que sim e o entrevistador diz que conhece bem a empresa — diga-se passagem, demonstra que conhece mesmo.

Depois de uma pergunta e outra, o entrevistador dispara, foi exatamente assim: João, eu estava no ônibus, a caminho do trabalho, lendo o jornal (era mês de Novembro) e, eu acho esse negócio de feriado da Consciência negra uma grande bobagem.

João logo em seguida, perdeu o chão, sendo ele um negro.

O entrevistador continua: Você, João, é um exemplo de luta, persistência, vontade… você não precisa de dia nenhum, de que lhe dêem nada, precisa de oportunidade, competir em condição de igualdade com aqueles que estão ai fora.

João não sabia o que dizer ouviu tudo aquilo e pensou “acho que ele falou a meu favor”. O entrevistador pediu desculpa pelo desabafo — mas afirmou que aquele era seu ponto de vista.

Voltou à entrevista, fez um ou outro comentário sobre o processo e disse para João aguardar o resultado no site.

João imaginava que só por um desastre não teria sido aprovado nessa fase. Apesar de tudo que ouviu.

A importância de tudo isso. Primeiro, João descobriu que poderia chegar aonde quisesse, nem que para isso precisasse fazer um esforço dobrado em relação a qualquer outra pessoa.

Segundo, não se colocar em situação de vítima, não se lamentar, correr atrás, batalhar — não esperar nada de ninguém.

Terceiro, não menos importante, a se sentir capaz.

Naquele dia, mais que a aprovação, aquele entrevistador se colocou na condição de João e o formatou com autoestima.

https://youtu.be/O6mbjTEsD58


Originally published at ricardoproenca.wordpress.com.

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