Apologia: Como uma vida fracassada resultou num mergulho aéreo

Logo após um suicídio, o desejo imediato de todas as pessoas próximas ao falecido é saber o motivo deste decidir tirar a própria vida, abrindo mão de uma existência que poderia ser promissora e se entregando á morte.

Este texto então tem o objetivo de não deixar dúvidas que a minha decisão foi clara e deliberada, fazendo uma retrospectiva e deixando claro que o custo-benefício da realidade deste escriba não compensava. Nas redes sociais, vivemos mostrando a nossa felicidade e não estamos acostumados á ver alguém expor o lado difícil da vida. Quem sabe quem ler isto se sensibilize e ajude quem ainda possa ser salvo.

Pois bem.

Desde a infância, passei por contratempos que pra muitas pessoas são detalhes ínfimos, mas que pra mim foram pesos insuportáveis, pois eu não sabia como lidar.

A separação dos meus pais quando eu ainda tinha 10 anos teve um impacto decisivo nisso. Meu pai nunca deixou de me sustentar e eu até fui um pouco ingrato de não conseguir retribuir isso na mesma medida, reconheço. Mas querendo ou não, a ausência de ambos na mesma casa influiu negativamente na minha vida e também na de meus pais.

Só Deus sabe a quantidade de vezes em que eu peguei o telefone para ligar pro meu pai querendo desabafar e travei na hora H como se estivesse indo para uma batalha no Exército. Os motivos? Medo da minha mãe se lembrar de uma conta que ele deveria pagar e depois brigar com ele ou então ele mesmo se queixar de que eu não o visitava pessoalmente (E os meus temores se multiplicariam por 10). Aquelas briguinhas pra mim eram barris de pólvora que eu nunca estive preparado pra enfrentar.

A atenção que eu, de certa forma, ficava com medo de ter dentro de casa procurei encontrar na escola. No antigo Ensino Fundamental (Ainda é assim que se chama?) do Fadlo Haidar eu era o nerd retardado que adorava receber aprovação. Interrompia a explicação dos professores acrescentando coisas desnecessárias, denunciava algum aluno que estivesse colando, etc.

Resultado: Passei á sofrer bulliyng principalmente pelo meu peso e por não falar com os meus colegas de classe. Ir na escola entre á 5º e a 8º série passou á ser um inferno, principalmente na hora do intervalo. Á ponto de pedir pra me mudar de escola no 1º Colegial.

Infelizmente no Francisco De Assis não foi muito diferente. Eu, completamente ingênuo, me apaixonei por uma garota da minha sala que tinha namorado. E só depois que fui “Intimado” por ele, parei de flertá-la. Ali tive a primeira de várias decepções amorosas nos 7 x 1 da minha vida. Sem contar que passei á ser zoado pela minha sala o resto do ano, o que fez com que eu desejasse voltar pro Fadlo, o que ocorreu no ano seguinte.

Nos dois anos restantes do Ensino Médio, meu convívio foi de razoável pra bom. Mas logo voltei á solidão inexpugnável á ponto de passar por algum tempo dando a cara á tapa saindo sozinho pra baladas, só gastando dinheiro com bebidas e não tendo coragem de sequer dizer um “Oi” para desconhecidos.

Os vácuos sucessivos que levei de uma garota de Mogi Das Cruzes também são uma forte lembrança no meu conceito de que eu não deveria nem ter nascido. Vivia me perguntando aonde foi que errei e o que eu deveria mudar na minha personalidade. Como não econtrava a resposta, desejava morrer

Foi depois que eu terminei a faculdade em 2014 e ao não saber o que fazer depois de formado, somado á minha eterna solidão interrompida por breves intervalos desde 1992, que eu realmente cheguei á conclusão de que a melhor coisa que poderia acontecer pra mim era morrer.

Os tocos que eu levava de todas as garotas que eu desejava, somados ao eterno desemprego e a incapacidade de me qualificar, além das brigas diárias dentro de casa entre minha mãe cada vez mais doente e meus irmãos atarefados, transformou minha cabeça num desejo ardente de parar de sentir, de pensar.

Todas as pessoas que eu conheci eram bem sucedidos financeira e amorosamente e eu ainda era virgem com 25 anos, morava com os pais, raramente saia de casa por não ter amigos AAAAAAAAAAAA.

Valia á pena viver assim? Sabendo que assim que seus pais morressem você era incapaz de “Se virar”? Tendo a certeza de que você não conseguiria cozinhar, lavar a casa, entre as tarefas domésticas básicas e não tendo dinheiro pra viver do jeito que queria?

Sim, sofri muito por antecipação, mas eu tinha meus motivos pra isso. Foram 4 anos de bullying na infância 3 anos de completa inércia depois de adulto e todas vezes que eu tentei correr atrás sempre recebia um não.

Mas o gatilho definitivo não foi minha mãe doente sem assumir isso falando bobagem sozinha todo dia com meu irmãos perdendo a paciência com ela frequentemente, nem o desemprego há mais de um ano ininterrupto ou por três interrompidos durante quatro míseros meses, lendo exigências e mais exigências de experiência disso, inglês fluente daquilo, muitos obstáculos pra pouco Ricardo. Tampouco foi ver meu corpo mais gordo do que um hipopótamo e me sentir insuficiente de correr atrás do prejuízo. Poderia ser o fato de eu não ter capacidade de conseguir um cargo em concurso público, sonho antigo e cada vez mais impossível. Muito menos ver o sucesso alheio de pessoas mais novas do que eu que já tinham um emprego estável, amigos, namoradas… Porém tudo isso contribuiu sim.

Entretanto o acontecimento decisivo que fez com que eu não apenas desejasse, como também PLANEJASSE a minha morte foi a rejeição de uma outra pessoa que desejei tê-la do meu lado. Quando ela começou á ficar com outro, eu me senti um verdadeiro ogro do pântano, incapaz de fazer alguém se apaixonar por mim.

É horrível sentir que os 120% que você deu pra conquistar aquela pessoa não adiantou rigorosamente nada e agora ela está beijando com outro, transando com outro, assistindo filme e fazendo carícias com o outro. Você se pergunta qual foi a regra que descumpriu no jogo do amor. E aí chega á resposta incontestável: É o homem mais feio da face da Terra e não devia nem ter nascido.

Sei que todos nós passamos por isso, mas pra mim, homem que nunca namorou com 25 anos, isto tem um peso triplicado. Cresci com aquele velho peso de que o homem tinha que pegar todas pra provar sua macheza e eu nunca tive nenhuma história interessante pra contar sobre mulheres que eu conquistei. Não era nada agradável ficar meio de lado nas conversas.

Não que nenhuma pessoa tenha se interessado por mim. Dava pra contar nos dedos de uma mão, mas na hora H eu ficava com medo ou simplesmente a vontade não era recíproca. Quando você é o conquistador, sinto que há um gostinho especial.

Não direi quem é, para que ela não se sinta culpada pela minha morte. Tenho plena consciência de que é uma decisão exclusivamente minha, com o perdão da redundância.

Então veio a lembrança do vascaíno que quase se matou na marquise de São Januário e finalmente veio na minha cabeça a ocasião e lugar perfeitos para parar de sofrer todo dia como estava sendo desde 2015.

E por ter a certeza de que sou incapaz de construir uma vida melhor que a que meus pais me deram decidi me jogar do alto da arquibancada do Morumbi, lugar que eu sempre amei. Aqui tenho a certeza de que morrerei feliz.

Procurei um pretexto que justificasse o salto da arquibancada e o rebaixamento seria a desculpa ideal. Mas no fundo, eu já tinha desgraça suficiente pra não deixar minha vida nas mãos do São Paulo Futebol Clube e é por isso que não mudei minha decisão de me matar no dia 21/01/2018.

Se eu continuasse vivendo á contragosto talvez seria capaz de fazer maldades para provar o gosto do sucesso e isso eu sempre rejeitei. Odeio fazer mal á quem não merece e ás vezes tenho pena até de quem merece. Meu coração sempre foi puro e meu único pedido pra você que chegou até esta linha é que nunca perca o amor que há dentro do seu coração.

A cruz que Deus me destinou á carregar foi pesada demais pra mim e peço perdão á Ele, minha família e meus amigos (???) por isto.

Achou ruim, que venha passar o que passei no meu lugar.

Eu amo vocês e agradeço á cada um que cruzou a minha vida.

PS: Não precisam me enterrar, meus pais já gastaram dinheiro suficiente comigo sem eu merecer

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.