Como fazer política em um Brasil pós-PEC?

Após a aprovação em primeiro turno da PEC 241, em outubro, fiz quatro provocações sobre o labirinto político em que estamos metidos e recebi vários comentários. Neste texto, proponho algumas reflexões para ajudar a pensar em saídas (vale quebrar a parede) e dar um "traço" nos Minotauros cotidianos. 

a) Estude, estude e estude. Não há melhor base para a ação política que ler e sair às ruas conversando com o povo. Estudar e prestar atenção no que ocorre. Diversas pesquisas e textos vinham dando sinais de que a denominada "classe C" não fechava com o PT, mas sim com uma noção difusa de "self made man" tupiniquim. Essa bola vinha sendo cantada pelo menos desde 2013, na época dos protestos de junho. O que de concreto foi feito nesse período para lidar com essa população? Nem ao menos dialogamos com eles e ficamos presos a um conceito que no cotidiano já se evaporara. Mas as pistas haviam sido lançadas.

b) Da perifeira para o centro. O sentido é esse. Só haverá mudanças efetivas se começarmos pela periferia. O centro (aqui no sentido da classe média que bate panela) tem a sensação de estar bem estabelecido, de ter se aprumado na vida de forma definitiva. É um engano isso, mas a ficha tá só começando a escorregar para baixo. As coisas começaram a mudar e a indignação está ali só à espreita aguardando ser deflagrada. É preciso descobrir espaços de interlocução com tais pessoas e a chave é a ampliação de direitos, não mais somente a inserção pelo consumo e, por conseguinte, pelo endividamento. A periferia já vive o drama dessa política de desmantelamento na pele todos os dias, sentindo de forma concreta o descaso dos governantes há séculos. Os ganhos sociais ocorridos recentemente melhoraram essa situação, mas tudo pode ir por água abaixo daqui por diante. Isso sem falar no processo de criminalização da periferia, violento reflexo de uma sociedade hiperdesigual.

c) Reencantar a cidadania. A noção de cidadania se esvaziou por completo diante de um individualismo mediado pelas mídias sociais. A política é o espaço de ação dos cidadãos e das cidadãs. Como mudar as cidades se nos vemos apenas como motoristas, consumidores e usuários portadores de direitos absolutos sem qualquer compromisso de cumprir nossos deveres? Se não conseguirmos criar laços sociais suficientemente fortes que permitam transcender o abrigo dos nossos apartamentos não é possível pensar em soluções coletivas.

d) Diálogo, diálogo, diálogo. O diálogo é o principal recurso de uma ação política nos tempos atuais. Vamos ter de gastar saliva, bytes e tinta de caneta na defesa do que acreditamos e na elucidação das estruturas que nos aprisionam mentalmente. Muitas pessoas estão entranhadas nos sistemas de dominação vigentes reproduzindo como ventríloquos um pensamento que não é o deles sem ao menos perceber que novas formas de sociabilidade são possíveis. Aprofundar os rachas e as discordâncias ideológicos não irá nos levar muito longe. Mas para entrar nesse debate é preciso saber do que se fala (item a), conhecer a fundo o que estamos tratando. Não dá pra levar essa tarefa adiante insistindo somente em slogans e no compartilhamento de informações falsas, mas que estejam do nosso lado. E onde exercitar esse diálogo? Em todo canto. Nas reuniões de condomínio, nos times de futebol, nos blocos de apartamentos. Não se trata de um processo de conversão e nem de proselitismo, mas de jogar a sementinha da dúvida na cabeça das pessoas. De fazer pensar por meio de reflexões que desconcertem, que provoquem rachaduras no pensamento monolítico em vigor. 
d.1) Há, obviamente, situações em que o diálogo se torna impossível. Lidar de forma frouxa com as manifestações neofascistas é pedir para seguir uma trilha que só nos leva à consolidação social da intolerância. Nesse sentido, é urgente que se combata os grupos que pregam o ódio e há muitos deles espalhados por aí.

d.1.1) Um choque de democracia nos órgãos de segurança é algo urgente, mas quem terá coragem de promover essa mentalidade?

e) Coletivizar o que há ao nosso redor. A partir do diálogo o passo seguinte é a estruturação de coletivos informais, redes de pessoas que comunguem da mesma opinião, que possam se fortalecer nas mesmas crenças e atitudes disseminadas. Em todo canto. Nas reuniões de condomínio, nos times de futebol, nos blocos de apartamentos, nas mesas de bares. Tornar a política algo sexy, que nos motive a sorrir, a lutar e a ter esperanças. Junt@s.

f) Aprimorar a comunicação, educar as novas gerações. Educomunicação na veia. Urgentemente. Educar para se comunicar melhor, para aprender a tornar-se presente em uma sociedade que transpira suor comunicacional. Ir além da postagem de fotos em manifestações. Promover uma rede de informações que possa fortalecer grupos e agentes que busquem mudar as coisas. Explorar o potencial das mídias sociais, criar coisas belas, subir nos telhados e tornar os espaços de convivência/passagem cada vez mais comuns.

g) Fortalecer as bancadas que defendem os nossos interesses. Agir em defesa de propostas alternativas, apoiando mandatos populares, inserindo pessoas novas ou que tenham compromisso com a mudança social nos parlamentos e nos postos de comando. Embora desmoralizado, o regime atual de partidos não foi extinto e ainda precisamos deles. Isso é ainda mais verdade quando se vê que medidas impopulares são impostas goela abaixo sem qualquer espécie de diálogo com os movimentos sociais e setores organizados da sociedade que não tenham R$ 7 milhões para bancar aprovação de lei.

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