Notas sobre poesia

Poesia é que nem amor… Não tem hora pra chegar. Cutuca o sono, derruba da cama, brinca entre as cobertas. Não pede permissão, não marca horário na agenda, não olha se tem alguém por perto quando decide mostrar as caras. Simplesmente acontece.

Poesia é ter o coração cheio de vontade de enxergar além dos muros do óbvio. É reinventar a dor do agora, só para lê-la amanhã, com olhos mais maduros. Poesia é ver beleza onde não tem — ou melhor, onde tem, e como tem (é só olhar de novo!).

Poesia é dançar The Lumineers no banho gelado, só para não sentir tanto frio. É olhar para o espelho e sentir orgulho da pessoa que você anda se tornando. Poesia é apagar as luzes depois de um dia difícil, se deitar, colocar um folk no fone e sair em busca de novos cantinhos dentro de si. Dar colo para a alma cansada. Não chamar nenhuma dor de bobagem.

Foto: Richard de Assis

Poesia é assistir O Fabuloso Destino de Amèlie Poulain e voltar a acreditar no amor. É se pegar agradecendo, baixinho, por estar ao lado de quem se ama. É aprender quando abraçar as saudades e quando guardá-las no bolso, para que elas não sufoquem os propósitos que são o motivo delas existirem, hoje.

Poesia é dar só mais uma chance pra Deus provar que ele é um melhor escritor que a gente. É saber que tudo passa, até essa barra. É compreender que, muito mais importante que traçar roteiros, é se permitir sair dos trilhos, de vez em quando. É saber que, às vezes, a vida derramará imprevistos nos planos que fazemos, só pra gente lembrar que não temos o controle de tudo.

Poesia é hesitar. É não ter certeza. É sentir medo. Sentir medo pra caramba e não ter vergonha nenhuma disso. É mandar áudio de madrugada, chorando e pedindo colo. É saber quando pedir ajuda e quando colocar os sentimentos pra fora de casa. Poesia é ser sincero consigo e com o outro, sempre. É saber a hora de se calar e a hora de se pronunciar, quando o outro pisar na bola.

Poesia também é saber quando parar de puxar a linha de volta e de aceitar ausências inaceitáveis. É perceber quando a reciprocidade já não está acontecendo numa via de mão dupla. É deixar o outro livre para ir e vir, sem cobranças e sem dependências; se esforçar para ser bonito enquanto tiver que ser bonito. Poesia é maturidade, que também é saber até onde ir.

Poesia é ser feliz com os contentamentos mais miúdos da vida — a gasolina que rendeu durante a semana, um café coado no fim da tarde, o sorriso de um idoso na rua. É ter sede de experiência; sede de transcendência, já dizia Adélia Prado. Poesia é não desistir de ser sensível em um mundo cada vez mais escroto. É viver com leveza, mesmo sendo um caos. Poesia é seguir amando. Poesia é ser acordado por ela e não conseguir voltar a dormir até escrever tudo que ela quer dizer.

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