notas sobre poesia
poesia é que nem amor… não tem hora pra chegar. cutuca o sono, derruba da cama, brinca entre as cobertas. não pede permissão, não marca horário na agenda, não olha se tem alguém por perto quando decide mostrar as caras. simplesmente acontece.
poesia é ter o coração cheio de vontade de enxergar além dos muros do óbvio. é reinventar a dor do agora só para lê-la amanhã, com olhos mais maduros. poesia é ver beleza onde não tem — ou melhor, onde tem, e como tem (é só olhar de novo!).
poesia é dançar the lumineers no banho gelado, só para não sentir tanto frio. é olhar para o espelho e sentir orgulho da pessoa que você anda se tornando. poesia é apagar as luzes depois de um dia difícil, se deitar, colocar um folk no fone e sair em busca de novos cantinhos dentro de si. dar colo para a alma cansada. não chamar nenhuma dor de bobagem.

poesia é assistir o fabuloso destino de amèlie poulain e voltar a acreditar no amor. é se pegar agradecendo, baixinho, por estar ao lado de quem se ama. é aprender quando abraçar as saudades e quando guardá-las no bolso, para que elas não sufoquem os propósitos que são o motivo delas existirem, hoje.
poesia é dar só mais uma chance pra deus provar que ele é um melhor escritor que a gente. é saber que tudo passa, até essa barra. é compreender que, muito mais importante que traçar roteiros, é se permitir sair dos trilhos, de vez em quando. é saber que, às vezes, a vida derramará imprevistos nos planos que fazemos, só pra gente lembrar que não temos o controle de tudo.
poesia é hesitar. é não ter certeza. é sentir medo; sentir medo pra caramba e não ter vergonha nenhuma disso. é mandar áudio de madrugada, chorando e pedindo colo. é saber quando pedir ajuda e quando colocar os sentimentos pra fora de casa. poesia é ser sincero consigo e com o outro, sempre. é saber a hora de se calar e a hora de se pronunciar, quando o outro pisar na bola.
poesia também é saber quando parar de puxar a linha de volta e de aceitar ausências inaceitáveis. é perceber quando a reciprocidade já não está acontecendo numa via de mão dupla. é deixar o outro livre para ir e vir, sem cobranças e sem dependências; se esforçar para ser bonito enquanto tiver que ser bonito. poesia é maturidade, que também é saber até onde ir.
poesia é ser feliz com os contentamentos mais miúdos da vida — a gasolina que rendeu durante a semana, um café coado no fim da tarde, o sorriso de um idoso na rua. é ter sede de experiência; sede de transcendência, já dizia adélia prado. poesia é não desistir de ser sensível em um mundo que anda cada vez mais escroto. é viver com leveza, mesmo sendo um caos. poesia é seguir amando. poesia é ser acordado por ela e não conseguir voltar a dormir até escrever tudo que ela quer dizer.
