notas sobre poesia

richard de assis
Jul 29, 2017 · 3 min read

poesia é que nem amor… não tem hora pra chegar. cutuca o sono, derruba da cama, brinca entre as cobertas. não pede permissão, não marca horário na agenda, não olha se tem alguém por perto quando decide mostrar as caras. simplesmente acontece.

poesia é ter o coração cheio de vontade de enxergar além dos muros do óbvio. é reinventar a dor do agora só para lê-la amanhã, com olhos mais maduros. poesia é ver beleza onde não tem — ou melhor, onde tem, e como tem (é só olhar de novo!).

poesia é dançar the lumineers no banho gelado, só para não sentir tanto frio. é olhar para o espelho e sentir orgulho da pessoa que você anda se tornando. poesia é apagar as luzes depois de um dia difícil, se deitar, colocar um folk no fone e sair em busca de novos cantinhos dentro de si. dar colo para a alma cansada. não chamar nenhuma dor de bobagem.

Foto: Richard de Assis

poesia é assistir o fabuloso destino de amèlie poulain e voltar a acreditar no amor. é se pegar agradecendo, baixinho, por estar ao lado de quem se ama. é aprender quando abraçar as saudades e quando guardá-las no bolso, para que elas não sufoquem os propósitos que são o motivo delas existirem, hoje.

poesia é dar só mais uma chance pra deus provar que ele é um melhor escritor que a gente. é saber que tudo passa, até essa barra. é compreender que, muito mais importante que traçar roteiros, é se permitir sair dos trilhos, de vez em quando. é saber que, às vezes, a vida derramará imprevistos nos planos que fazemos, só pra gente lembrar que não temos o controle de tudo.

poesia é hesitar. é não ter certeza. é sentir medo; sentir medo pra caramba e não ter vergonha nenhuma disso. é mandar áudio de madrugada, chorando e pedindo colo. é saber quando pedir ajuda e quando colocar os sentimentos pra fora de casa. poesia é ser sincero consigo e com o outro, sempre. é saber a hora de se calar e a hora de se pronunciar, quando o outro pisar na bola.

poesia também é saber quando parar de puxar a linha de volta e de aceitar ausências inaceitáveis. é perceber quando a reciprocidade já não está acontecendo numa via de mão dupla. é deixar o outro livre para ir e vir, sem cobranças e sem dependências; se esforçar para ser bonito enquanto tiver que ser bonito. poesia é maturidade, que também é saber até onde ir.

poesia é ser feliz com os contentamentos mais miúdos da vida — a gasolina que rendeu durante a semana, um café coado no fim da tarde, o sorriso de um idoso na rua. é ter sede de experiência; sede de transcendência, já dizia adélia prado. poesia é não desistir de ser sensível em um mundo que anda cada vez mais escroto. é viver com leveza, mesmo sendo um caos. poesia é seguir amando. poesia é ser acordado por ela e não conseguir voltar a dormir até escrever tudo que ela quer dizer.

richard de assis

Written by

escrevendo sobre a bagunça que eu sou

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade