Pin Ups versão 2016

Pin Ups está de volta !

Entrevista com o guitarrista Zé Antônio Algodoal.

O Pin Ups voltou. De vez. Depois de ter gravado um último disco (na verdade, um EP chamado “Bruce Lee”) em 99 e encerrado as atividades após a turnê de divulgação do trabalho, a banda símbolo do indie paulistano só fez algumas apresentações esporádicas (para comemorar 20 anos do clássico “Time Will Burn” em 2009, com o primeiro vocalista Luiz Gustavo e em 2012, na Virada Cultural, quando bizarramente tocou às 8h da manhã). Depois, em 2015, chegou a fazer um “show de despedida” catártico para um Sesc Pompeia cheio de órfãos da banda. Muitos, que não tinham nem nascido quando a banda começou em 88.

Foi por causa da boa repercussão dessa noite que, de acordo com um comunicado oficial da banda, a decisão de encerar definitivamente as atividades foi revertida.

Da formação da segunda fase do Pin Ups (a mais pop e que gravou os últimos dois discos), só não está de volta a guitarrista Eliane Testoni (que hoje vive em Londres). Para completar o time, a baixista/vocalista Alê Briganti, o baterista monstro Flavio Cavichioli e o único membro fundador ainda presente, Zé Antônio Algodoal, chamaram o homem das mil bandas, Adriano Cintra (ex — CSS, e atual dezenas de outras).

Entrevistei o Zé Antônio por e-mail. O guitarrista e escritor (o volume II do seu livro Discoteca Básica sai no final do ano, pela Edições Ideal) falou um pouco sobre os discos da banda lançados nos anos 90 e sobre as dificuldades de ser indie naquela época. Falou também sobre as novidades, que incluem relançamentos digitais e até em vinil.

1.Apesar de ser conhecido como um marco do som indie no Brasil e das comparações com Jesus & Mary Chain, feitas pela imprensa, músicas como “Kill Myself” e “Bright” (do Time Will Burn) me lembram a sonoridade inicial das bandas de garagem de Seattle. Isso procede? Vocês já conheciam esse tipo de som naquela época?

Zé: Certamente ouvíamos as bandas do início da cena de Seattle. Sempre corríamos atrás do novo, por amor à música e interesse no novo.

Mas na época nossa grande influência foi mesmo Jesus & Mary Chain, My Bloody Valentine, Loop, e é claro Stooges, Velvet e o MC5. Talvez a coisa mais crua, que de alguma forma possa remeter as bandas de Seattle venha daí. Isso, é claro somado às melodias simples que, em nosso caso, veio de nossas deficiências.

2. Como se deu a decisão de mudar o direcionamento da banda do primeiro disco pro Gash? Tem até música cantada pela Alê. Qual foi o fator determinante ?

Zé: Na verdade o Pin Ups sempre teve esses dois lados. De vez em quando fazíamos shows mais calmos no Espaço Retrô, onde tocávamos músicas mais lentas, mais melódicas que gostávamos. Coisas como Spacemen 3, Love, Teenage Fanclub, e as menos barulhentas do Jesus & Mary Chain, claro.

O primeiro álbum é praticamente uma demo, um disco cru gravado do jeito que deu, mas a idéia de fazer coisas diferentes sempre foi algo presente, e sempre achamos que o segundo disco deveria mostrar um outro lado.

3 O Scrabby parece ser o disco em que finalmente a banda conseguiu colocar em prática as ideias sonoras que tinha desde o primeiro trabalho. Ter alguém que entendia de som pesado (João Gordo) na produção, junto com RH Jackson, ajudou?

Zé: Olha, acho que o RH Jackson foi o verdadeiro produtor desse disco. A verdade é que o João até ajudou a catalisar algumas idéias de peso, mas o Jack foi quem nos deu os elementos para que isso acontecesse. Confesso que talvez esse seja o disco que menos me agrada, justamente por uma sonoridade diferente da que eu imaginava, não gosto muito de alguns timbres que eu usei, e lembro do Jack me alertar sobre isso.

4. Pra mim, Witkin soa deslocada dentro de Jodie Foster, mas já era o prenúncio dos dois discos seguintes. Quem levou essa linguagem mais suave, quase pop, pra banda? Como era o clima da banda na época do disco? Havia disputa entre você e a Alê pelo controle criativo ou algo assim?

Zé: Nunca houve nenhum tipo de disputa entre eu e a Alê, muito pelo contrário, ela sempre foi minha grande companheira na banda, e continua sendo até hoje.

A linguagem mais pop veio naturalmente. Na verdade eu já pensava nisso desde os primeiros tempos, mas os vocais do Luis eram mais agressivos e nunca funcionaram bem para coisas mais melódicas. Com a Alê cantando pudemos colocar esse outro lado em prática.

5. Para muita gente, a melhor fase da banda é a dos dois últimos discos. Lembro de uma entrevista pra MTV em que os integrantes diziam que não se incomodariam em ser contratada pelo selo Chaos (na época da Sony). Pra quem gosta dessa fase, ficou um gosto de “quero mais” depois do Bruce Lee. O que faltou pra continuar?

Zé: Pode me incluir nessa lista das pessoas que preferem os dois últimos discos!

Sempre nos perguntam o que faltou para continuar… O Pin Ups surgiu em uma época em que tudo era mais complicado, sem internet, com longas viagens de ônibus, equipamento caro, cachês que nem sempre cobriam os custos, dificuldade de divulgação, etc…Sem falar que cantar em inglês sempre foi algo mal visto pelas gravadoras e parte da imprensa (digo parte porque muita gente bacana nos ajudou, justiça seja feita). E quando parecia que as coisas poderiam melhorar, surgiu a cena hardcore da qual não fazíamos parte. Essas dificuldades foram determinantes para que a gente optasse por desacelerar.

5.1 Essa entrevista que citei acima foi no programa especial do Fábio Massari para a MTV Brasil sobre o Festival Junta Tribo. Como era o cenário nessa época ? Havia “brodagem” entre as bandas indie na época? Com quais?

Zé: O cenário nessa época era bem interessante e bastante criativo. Sobre brodagem a resposta é sim e não. Bandas como Killing Chainsaw, Mickey Junkies, Tube Screamers, Garage Fuzz, Concreteness, Happy Cow, Muzzarelas, entre outras sempre foram muito próximas de nós, todos muito queridos. Mas havia sim uma concorrência bem besta entre bandas de estilos diferentes. Lembro de algumas bandas góticas que disputavam atenção e espaço, e também de bandas de uma geração anterior à nossa que tratavam as novas com certo desdém. Coisas da época que o tempo acabou sanando.

6. Agora que a banda voltou a fazer shows regulares, há planos para relançamentos em vinil (ou outros formatos) dos discos anteriores da banda? Gravações inéditas, músicas novas, lados B? O que o futuro reserva para o Pin Ups em estúdio?

Zé: Estamos trabalhando para colocar os álbums nas plataformas digitais, mas por enquanto só posso confirmar os dois últimos, Lee Marvin e Bruce Lee. Os outros dependem da autorização do Luis, co-autor das músicas, que ainda não liberou. O Rodrigo Lariú, do Midsummer Madness está cuidando disso para nós, mas acredito que tudo se resolva, afinal acho importante que mais pessoas tenham acesso à fase com os vocais do Luis. Faz parte da nossa história e da dele também.

Para esse lançamento digital estamos reunindo algumas gravações inéditas, coisas ao vivo e gravações que só saíram em três cassetes distribuídas em shows.

Fora isso, o Lee Marvin logo ganhará uma edição em vinil, que será lançada graças a uma iniciativa da Assustado Discos em uma parceria com o Midsummer Madness.

Sobre o que o futuro nos reserva… bem eu adoraria saber rsrsr. Estamos trabalhando com algumas possibilidades mas ainda é cedo pra gente falar sobre isso. Prometo te informar tão logo algo se confirme.

7. Ter Adriano Cintra (ex-CSS) na banda faz uma ponte entre a geração rock 90 e a geração eletrorock 00. O que ele traz de interessante pra uma banda que sempre teve o indie rock como maior referência ?

Zé: Ter o Adriano na banda é um privilégio, não só pelo incontestável talento como instrumentista, compositor e produtor, mas principalmente porque ele é uma pessoa muito generosa e traz um clima bom pros shows e ensaios, algo que sempre buscamos.

E musicalmente também é foda, ele tem uma sensibilidade incrível pra saber o que colocar na hora certa, está sendo ótimo tocar com ele.

Sobre a questão do eletrorock, vale lembrar que o Adriano teve muitas outras bandas com sonoridades bem diferentes, eu não o classificaria apenas dentro de um estilo. E é justamente essa versatilidade que faz dele um músico tão especial.

8.(Extra Pin Ups) Vai rolar Discoteca Básica vol II. Alguma coisa que dê pra adiantar sobre o livro ?

Zé: O segundo volume do Discoteca Básica sai agora no final do ano, também pela Ideal, a mesma editora do primeiro que sempre foi muito parceira no projeto. Ainda estou fechando as participações, mas garanto que vai ter muita gente boa e muitas listas surpreendentes.