O Homem Cego.

Ele nunca viu nada. Quando pequeno, seus pais narravam os acontecimentos, por menos importantes que fossem, pois achavam que isso ajudaria o desenvolvimento do filho. Porém, seu problema de visão dificultou a criação de amizades e isso fez com que ele aprendesse a viver mais na própria imaginação do que na realidade. Quando adolescente, seus pais adoeceram e morreram durante um surto que atingiu o vilarejo onde moravam. Ele também adoeceu, mas acabou sobrevivendo. Com o tempo, consumiu tudo o que havia na casa e vendeu coisa por coisa para conseguir se alimentar.

Hoje em dia, o Homem Cego vive mendigando e implorando por moedas. A coberta que o protege do frio há anos fede terrivelmente, seus cabelos lembram os de uma bruxa e a doença que o poupou deixou feridas em sua pele. Aos olhos externos, ele se transformou num conjunto de horrores que anda por ruas frias, sempre implorando, sem enxergar. Porém, ele vive dentro de si. Seus olhos veem o que ninguém mais vê. Por ter tido tantos infortúnios na vida que o levaram a um certo isolamento, nunca pôde se deixar levar pelo automatismo social. O Homem Cego é constrangido a viver de olhos abertos.

Ele anda lembrando de sentir o vento. Quando chove, ele se abriga e, quando para, passa a mão nas coisas molhadas pela rua, procurando sentir o efeito da água sobre tudo. Quando faz calor, foca em absorvê-lo. Quando chora, sente a lágrima descendo e acompanha seu rumo pela pele. Mas isso tudo já é bem conhecido pelo cego. Desde criança, sempre sentiu aquilo ao máximo que pôde, agora ele quer mais. Sua alma demanda, necessita disso. Quer o que definitivamente não está em seu vilarejo. Nele, toda sensação, por mais variada ou profunda que seja, leva a uma melancolia de efeito quase entorpecente, mas nada mais. O local, porém, é cercado por uma floresta, embora exista uma trilha para a cidade grande. O problema é óbvio: quem ajudaria um mendigo, sozinho, cego e fedorento? Quem pegaria sua mão e o ajudaria? É certo que um bom coração ou outro no meio da multidão se disponibilizasse, mas como pedir algo assim para alguém?

Ele precisa sair dali e não aguenta mais. Mesmo com as dificuldades físicas, a única dúvida presente em sua cabeça é: para onde ir? Só há um caminho para a cidade grande, mas o que lhe desperta a curiosidade é a floresta. A primeira poderia ser mais do mesmo, só que num local maior. Na verdade, desde que essa necessidade se impôs sobre ele, o cego sempre soube que a única saída era a floresta. Aquilo sempre foi de uma obviedade assustadora e a suposta dúvida sobre o destino residia na escolha entre o medo e a conformidade. Agora ele não consegue suportar, seus olhos já viram demais.

Hoje é sua última noite no vilarejo. Partirá amanhã cedo para a floresta. O Homem Cego, que tudo sente, está melancólico e com dor por partir. Passa a mão pela parede das casas e bota o pé no chão para sentir o contato com seu frio. Ouve as últimas conversas alheias e come os últimos alimentos. Sente a lágrima escorrendo pelo rosto e vira a cabeça para o céu, como se estivesse vendo a noite, enquanto a gota desce pela bochecha e pula de seu rosto, tentando não se separar da cidade onde sempre quis ser chorada. Amanhã o dia será outro e outras lágrimas virão. O cego se acomoda no frio e dorme sobre suas memórias. Dentro das casas ao seu redor, os moradores passam a noite achando que o barulho incômodo é de algum animal uivando.

O dia nasce e o Homem Cego, que pouco dormiu, não cogita mudar de ideia. Nada é tão óbvio quanto sua ida à floresta. Para não chamar atenção, ele abandona o vilarejo pela trilha e, quando ouve o suficiente para saber que ninguém está próximo, pula a cerca e entra em meio às arvores, esquecendo de qualquer outra questão que pudesse importar antes. Perde-se em meio aos cheiros, à sensação de pisar em tanta vegetação e ao barulho de pássaros nas árvores. No início, até teve medo de pisar numa cobra, mas isso agora já nem importa mais. O cego passa um tempo incalculável conhecendo aquilo tudo, chorando sem perceber. É um mundo novo e, sem nenhuma dúvida, seu lugar é ali. A noite vem e ele não percebe nem o frio da madrugada, ocupado que está admirando seu novo e óbvio lugar eterno.

O cego acorda na floresta. Tinha dormido sem perceber. Uma luz no centro da escuridão de sua vista chamou atenção. Em sua frente, uma fada.

***

Muito tempo depois, o corpo do Homem Cego ainda apodrece, sem importância, em meio às árvores. Tinha esquecido de comer e de beber. Seu rosto frio permaneceu sorrindo assustadoramente até desaparecer. Morreu magro, sorridente, esquecido e com picadas na perna.