As Relações Étnicorraciais no Cenário Brasileiro

Pode se pensar a interculturalidade, como o próprio nome sugere, como relações mútuas de trocas intelectuais ou mesmo culturais, entre culturas distintas. Esses conceitos carregam em si o significado não só do conhecimento da existência do outro, mas também do reconhecimento e da aceitação de suas diferenças como duas culturas propriamente diferentes, além do respeito mútuo. Embora nem sempre a relação de interculturalidade se dê por meio do respeito mútuo. As variações de comunicação entre as diversas culturas podem ser um problema para essas relações interculturais, dificultando o entendimento dos valores, normas, condutas, enfim, da cultura do outro. O grande problema mora exatamente nesse “entendimento” da cultura do outro, o que é entender efetivamente a cultura do outro e como traduzir esse entendimento para sua cultura. Essa dificuldade de entendimento ás vezes é o que causa o estranhamento e a hostilidade entre as culturas, etnias, enfim. Este exercício de pensar antropológica e sociologicamente a cultura do outro, juntamente com a busca da tradução efetiva sem perda de significado deste conhecimento é o grande desafio de uma relação intercultural.

O Brasil é formado pela miscigenação de várias raças, etnias e culturas diferentes, e todas essas diferenças coexistem sob um mesmo Estado de maneira não tão pacífica. Sabemos que a relação histórica de exploração e segregação de negros e indígenas não os coloca em uma posição igualitária com os brancos nos dias de hoje, que esse processo histórico culminou em uma severa e radical discriminação, invisibilidade, segregação e inferiorização desses dois grupos étnicos hoje em dia. Pensar essas relações entre brancos, amarelos, negros e indígenas e seus aspectos históricos, econômicos, enfim, é pensar nas relações étnicorraciais que integram a sociedade brasileira.

A partir dessas relações inter-raciais que muitas vezes se tornam hostis aos grupos étnicos envolvidos é que podemos entender o racismo. Há uma certa variação do conceito de raça ao longo da história, e conceitos equivocados e racistas persistem até os dias de hoje. Existem, basicamente, três conceitos de raça que foram e são praticados cotidianamente, embora no meio acadêmico eles já foram desconstruídos, e fortalecem, direta ou indiretamente o racismo e discriminação de grupos étnicos diferentes na sociedade. Caracterizam-se com os seguintes significados: i) o conceito de “raça” fazendo referência à um povo, grupo linguístico, Estado, nação. É um conceito devidamente ultrapassado, mas que ainda é utilizado ao vermos pessoas referindo-se à outras nações como “a raça espanhola, a raça árabe, a raça cigana, etc”; ii) o conceito de “raça” caracterizando propriamente o sentido da taxonomia, fazendo referência à diferenciação biológica e científica de grupos étnicos. Esse conceito foi introduzido por Lineu no ano de 1735 com sua obra “Systema Naturae”, que dividia o Homo sapiens em seis raças diferentes — europeus, americanos, asiáticos, africanos, selvagens e monstros; correspondendo a raça com o temperamento — e foi a base da teoria racista, fortalecida posteriormente por Johann Blumenbach, fundador da Anropologia Física, que classificava as raças pela craniometria e as diferenciava em cinco: caucasiana, mongólica, etíope, americana e malaia; e pensava que as influências ambientais causavam as diferenças entre os homens, embora todos eles tivessem um ancestral em comum; iii) o conceito de “raça” referindo-se à diferenciações físicas como cor da pele, traços faciais, estatura, etc. como classificação de separação dos indivíduos de diferentes grupos étnicos. Essa caracterização é definida pela visibilidade social dos indivíduos de determinado grupo étnico, é entendida como produto e reprodução da separação racial da categoria, e apenas nesse conceito é admitido pelas Ciências Sociais, visto que é uma reprodução do que é visto cotidianamente na sociedade.

Esses conceitos de classificação de raça infundamentados e hierarquizantes sem dúvida possuem uma estrita ligação com o racismo gritante principalmente na sociedade brasileira, embora no resto do mundo ele também exista em níveis preocupantes. Mesmo sofrendo alterações ao longo da história, o conceito de raça sempre remete a uma diferenciação dos indivíduos, seja ela de ordem social ou biológica. Essa institucionalização histórica do racismo, sem dúvida alguma, fortaleceu as manifestações extremas que vemos nos dias de hoje. A partir desses conceitos, percebemos que o racismo pode ser visto como uma manifestação social de separação, hierarquização e discriminação, caracterizando-se pela crença de que as identidades físicas e culturais de determinado grupo étnico têm ligação direta com suas características intelectuais, morais e sociais. Então, a partir dessa hierarquização definida pelas supostas diferenças físicas e intelectuais de determinados grupos, outro grupo reivindica a superioridade racial e convoca seus indivíduos a defender sua identidade étnica homogênea e superior, garantindo sua suposta prevalência genética frente a outros grupos. Uma vez estabelecidos esses conceitos dentro da sociedade, a relação hostil entre grupos étnicos é evidente, visto que essa ideologia de superioridade racial é absorvida por cada grupo com o intuito de garantir sua própria identidade cultural e não cair em um limbo social.

Sabemos que estes conceitos racistas e a própria institucionalização do racismo são realidades em nosso cotidiano, e como consequência existem várias formas de manifestação desses fenômenos sociais. Os grupos étnicos mais vulneráveis socialmente, geralmente negros, pardos, índios e ciganos, são comumente submetidos à uma forte inferiorização social em todos os aspectos, reprimindo suas culturas, suas religiões, seus costumes, etc. Existem diversas formas que essas repressões se manifestam discriminando tais grupos. Considerando toda a trajetória histórica desses povos que hoje são discriminados, percebemos que seu passado é normalmente marcado por conflitos, submissão e inferiorização, o que culminou, nos dias de hoje, em uma certa invisibilidade desses grupos perante a sociedade, que os vê como seres invisíveis e inferiores. Essa invisibilidade também se dá por não vermos em um número equiparado aos brancos ou com frequência negros, pardos e índios inseridos em ambientes outrora reservados às elites e classes médias-altas como universidade, aeroportos, empregos em setores administrativos, etc. Essa invisibilidade consequentemente nos leva à uma segregação desses grupos, que por serem vulgarizados socialmente, também são vistos como “indesejáveis” em muitos pontos das cidades, bem como “violentos”, pois o racismo também associa a imagem do negro ao crime, separando esse povo dos centros urbanos e o realojando em periferias e subúrbios. Normalmente, os bairros que são reservados aos negros, pobres, índios e grupos discriminados são vistos como bairros caóticos, sem organização social ou lei e perigosos, relacionando a criminalidade, drogas e práticas vulgares com esses grupos discriminados. Com todo esse preconceito pairando sob esses grupos, a desconfiança sobre eles é generalizada e, como consequência, o mercado os vê da mesma forma. Serviços considerados “menos dignos” geralmente são feitos por negros e índios, e podemos relembrar a questão da invisibilidade social dessas pessoas, que além de serem ignoradas pelo seu pertencimento a uma certa cultura, também são ignoradas pela profissão que exercem. Essa discriminação laboral deixa esses sujeitos reféns do mercado e de sua própria sorte, pois os salários geralmente são baixíssimos, impossibilitando-os de conseguir mudar sua realidade e ascender socialmente.

Dentro desse contexto de invisibilidade, discriminação, segregação e preconceito, muitos grupos utilizam técnicas de fazer sua voz ser ouvida. Normalmente grupos negros usam de sua cultura afro-brasileira como forma de visibilidade e protesto dentro da sociedade. Essa é uma forma de manifestação cultural com a finalidade de assegurar sua identidade étnica e afirmar-se como pertencente de sua cultura e da sociedade. Os Pankararu, uma tribo de Pernambuco que habita o Brasil desde antes dos colonizadores, passaram por um processo de migração para São Paulo onde sofreram gradativamente essa questão da invisibilidade social, da discriminação, do preconceito, e pouco a pouco eles foram se constituindo em um bairro da periferia onde, posteriormente, aglomeraram-se grande parte dos Pankararu que vieram à São Paulo. A partir dessa aglomeração, um ritual religioso, a Dança dos Praiás, foi reassimilado pelos Pankararu passando de um ritual para uma afirmação de identidade étnica e uma manifestação política de seu povo, buscando a visibilidade social.

Percebe-se que, a partir do conhecimento dos conceitos, dos processos e das formas de opressão, os mecanismos de institucionalização do preconceito, da discriminação, do racismo e da segregação mostram-se mais claros e em uma situação de possibilidade analítica aplicando as ferramentas das ciências sociais para se pensar e entender as relações e os mecanismos das formas de opressões raciais, étnicas e grupais dentro da sociedade. Pode-se fazer constante relação entre os conceitos teóricos e a realidade prática, analisando os aspectos sociais, comportamentais, culturais e históricos de formação, separação e afirmação de grupos étnicos dentro da sociedade ocidental atual.