Não matem as baratas!

Vivemos tempos difíceis. E não falo de economia. É muito difícil conviver com seres imundos, fétidos e que transmitem tantas doenças! Imundos em suas ações inescrupulosas — vulgo guerra aos professores no Paraná e guerra aos estudantes em São Paulo; fétidos em seu caráter — vulgo pedido de impeachment da presidente Dilma por um ladrão que esconde contas milionárias na suíça; e transmitem a pior das doenças: o preconceito; preciso mesmo falar da onda fascista que tomou conta do Brasil? Misoginia, racismo, homofobia e o “au-au” à quatro?

Quando criança eu sonhava em ser ator (consegui!), bombeiro, super-herói, chiquitito, power ranger, um mestre Pokémon e também um Digiescolhido. Eu sonhava em defender o mundo de seres maus; de monstros fantásticos que habitavam os filmes de ficção. Eu sonhava em ser um escritor e contar histórias pras crianças e fazer do mundo um lugar maravilhoso, cheio de paz, amor, alegria e muito chocolate. Mas então, o pior da vida me aconteceu: eu cresci. Tornei-me adulto e passei a enxergar a realidade de fato. Os sonhos de criança deram espaço à responsabilidade e problemas de adultos. Tudo piorou quando passei a compreender que o mundo qual eu sonhava (de paz, amor, alegria e muito chocolate) não existia e estava muito longe: na utopia de uma criança. Criança esta que ainda vive em mim e que ainda sonha com tudo isso. Criança esta que chora quando vê PESSOAS maltratando PESSOAS. Quando vê seres humanos guerreando contra si mesmos. Que se desespera quando em pleno século 21, ainda vê mulheres sendo humilhadas, desprezadas e agredidas moral e fisicamente por homens que ainda vivem com a cabeça na Idade Média. Me pergunto diversas vezes se esses homens foram paridos por uma pedra! Quando vejo pessoas tratando o movimento feminista (inclusive mulheres) como “feminazis” eu penso se elas têm mães, irmãs, tias, avós… Porque um mínimo que olhassem ao seu lado perceberiam que elas também são vítimas desse machismo que impera em nosso inconsciente. Por que raios a mulher não pode sair na rua com a roupa que ela quer? Por que a sociedade AINDA trata a questão do estupro como “sem vergonhice” e trata a mulher como responsável? Por que os homens AINDA insistem em mandar no corpo das mulheres? Minha mãe teve duas grandes decepções amorosas em sua vida. Eu nasci de uma delas. Por muitas vezes me perguntei o quanto deve ter sido difícil pra ela me carregar em seu ventre sabendo que eu havia sido “abortado” por meu pai; aguentar as piadas e o preconceito por ser mãe solteira há 28 anos — quando as coisas ainda eram bem piores. Admiro ela pela coragem em me assumir. Em me amar e aguentar todas as humilhações que passou em casas de patroas, na igreja e na própria família por não ter “conseguido um casamento”; por ser “mãe solteira”. Será que não poderíamos chamá-la apenas de MÃE? Mas e se fosse o contrário? E se depois de ter sido abandonada ela decidisse que não me queria? ERA UM DIREITO DELA! Sei que não estaria aqui hoje escrevendo, mas um homem quando abandona uma mulher grávida também comete ABORTO. Por que a mulher é tão discriminada por querer ter o direito de mandar no próprio corpo? Por que ela tem que carregar essa culpa sozinha? Por que o homem sempre sai ileso de culpa? Este é um assunto polêmico, eu sei, mas há muito venho me remoendo pra falar sobre isso.

E o que dizer do racismo? Vejo comentários terríveis em relação às cotas, em relação ao dia da Consciência Negra, dentre elas comentários como “Por que não tem o dia da consciência branca? Amarela? Rosa-Choque?”. WHAT!? Um mínimo que se estude a história, UM MÍNIMO, e perceberá as atrocidades cometidas aos negros e indígenas (nativos BRASILEIROS) quando este país de proporções continentais foi “descoberto”. Ou você acha que a escravidão também foi uma invenção? Você sabia que quando foi assinada a Lei Áurea e os escravos “foram libertados” eles não tinham pra onde ir? E por não ter pra onde ir, muitos se submeteram a continuar trabalhando com seus patrões BRANCOS em troca de comida e um chão imundo pra dormir? E os que não se submeteram aos caprichos da elite dominante se aglomeraram em quilombos, guetos, que deram origem às primeiras “favelas”?

Pra reforçar meu argumento, deixo aqui um dado do Censo de 2010:

“Pela primeira vez na história do Brasil, o censo indicou que a população negra e parda é a maioria no país: 50,7% de um total de 190.732.694 pessoas. O Censo 2010 revelou que a maior parte da população negra concentra-se no Norte e Nordeste do país e sofre a maior taxa de analfabetismo na faixa etária acima dos 15 anos (entre 24,7% e 27,1%).
A pesquisa mostrou que a desigualdade de renda continua bastante acentuada em todo o país, com ricos ganhando 42 vezes mais que pobres. Metade da população brasileira vive com até R$ 375 por mês, valor inferior ao salário mínimo (na época R$ 510). Das 16,2 milhões de pessoas vivendo na pobreza extrema (cerca de 8,5% da população), com renda igual ou menor a R$ 70 por mês, 70,8% são negras.
Em suma, os negros e pardos ganham salários mais baixos do que brancos e amarelos (que ganham 2,4 vezes mais) e morrem mais cedo em consequência da precariedade das condições de vida, da violência e do difícil acesso a cuidados de saúde.” Fonte: https://pt.globalvoices.org/2011/11/24/brasil-censo-populacao-negra/

Pelo amor da Mãe Natureza, não quero pregar uma briga de classes, longe disso, mas quero mostrar pra algumas pessoas que racismo existe sim. Que o preconceito no Brasil nasceu no descobrimento, quando massacraram os povos nativos e trouxeram negros traficados em navios vindos da África. Então, quando falamos em relação aos direitos das cotas, falamos dessas injustiças cometidas no passado, qual o país carrega como uma chaga que não cicatriza, e as cotas são uma forma de proporcionar aos filhos e descendentes daqueles índios (nativos) e escravos um mínimo de oportunidade. O Estado é muito falho ainda. No melhor dos mundos, o ideal seria proporcionar uma educação de qualidade a todos os brasileiros, em todos os níveis do ensino. Mas em tempos de guerras a estudantes que protestam pra não fecharem sua escola, onde fica o ideal? Então o sistema de cotas é uma medida paliativa e emergencial. Não será algo eterno. Ao menos enquanto não lutarmos por uma reforma de verdade na educação, onde qualquer pessoa sem distinção tenha esse direito garantido.

O Brasil é um país maravilhoso. Um país diverso em cultura, etnia, biomas. É quase o paraíso perdido na Terra. Com tantas qualidades, como ainda podemos viver baseados no preconceito? Sou uma pessoa muito sensível, e sempre o fui, desde criança. Sempre fui alvo de piadinhas na escola, do tipo “viadinho”, “bichinha”, “mocinha”; tudo porque não gostava de jogar futebol — oi? — e tinha muita amizade com meninas — as mulheres são as melhores! — e isso na concepção dos “machinhos” da escola me tornava “viado”, “bicha”, ou gay. Engraçado que eles sabiam mais de mim do que eu mesmo, porque quando criança a gente é tão inocente, né? Eu nem sequer sabia o que era ser “gay”. A primeira vez que ejaculei, foi aos 13 anos de idade, brincando com um ursinho de pelúcia. A criança aqui era tão inocente que achou que tinha “feito xixi” e saiu correndo lavar o ursinho escondido. Tudo por quê? Porque eu nunca tive em minha casa uma educação sexual. Porque o sexo, numa família religiosa era tabu e não podia-se falar sobre isso.Tive uma adolescência reprimida, com sentimentos que eu sequer entendia e porque não tinha com quem compartilhar, e tinha medo da agressão. Já apanhei na escola por acharem que eu “era gay”, sem eu nem saber o que significava isto. Quando por fim, aos 16 anos percebi que tinha desejos reprimidos, que sentia atração por meninos, acreditei que estava com o “diabo” no corpo — este ser fantasioso que a religião enfiou em minha cabeça. Eu tinha nojo de mim e achava que Deus também tinha. Eu tinha medo do que aconteceria comigo. Eu tinha medo de morrer e acordar no inferno por gostar de meninos. Eu tinha medo de falar disso com qualquer pessoa porque segundo à igreja e à Bíblia — escrita por HOMENS e modificada por HOMENS por mais de dois mil anos — eu era um pecador; uma aberração; e tinha o “diabo” no corpo. Tentei me enganar namorando com mulheres. Forçando desejos que não faziam parte de mim. Qualquer afeto que eu sentia por uma garota — AFETO, não desejo — eu achava que podia namorar com ela e tudo ia se transformar. Mas não é bem assim. Algumas coisas na vida não se explicam. Tentamos justificar o injustificável. Dar explicações a tudo que nos cerca, e muitas vezes não tem explicação. Esta é a primeira vez que falo abertamente sobre minha orientação sexual. Mas falo porque hoje aceito isto como parte de mim. É algo natural em mim e sempre foi, mesmo que muitos não aceitem ou não acreditem. Infelizmente, sempre me escondi por medo de represálias, de agressão, de levar uma lâmpada na cara e de ser desprezado pela família. Mas desde o ano passado que falei disto com minha mãe, estou muito mais feliz — apesar dela ainda não me compreender. Mas está certo isto? Eu devo passar minha vida fugindo, me escondendo porque sou como sou? Em que momento você escolheu gostar de mulheres? Ou gostar de homens? Ou gostar de chocolate? Ok, chocolate não tem nada a ver com isso… porque já é um vício. Pauta pra outro post rs! O que quero dizer é que a vida fica muito mais leve quando a gente se aceita como é. Hoje eu voltei a acreditar em Deus. Não aquele Deus maquiavélico e assustador que falavam pra mim nas igrejas, mas sim num Deus feito de amor, e como reflexo da criação, eu e você também somos FEITOS DE AMOR.

Na minha cabeça não faz sentido existir o preconceito. Confesso que isso está tão arraigado em nossa mente, que até mesmo eu já me peguei me afastando de pessoas na rua por estarem com uma vestimenta que eu “julguei ser de maloqueiro”. E eu assumo isto. É tão inconsciente que muitas vezes a gente não percebe que tem atitudes machistas, racistas ou homofóbicas. Pense. Quantas vezes você chamou alguém de filho da puta? De viado? De neguinho? Porque você não chama de “branquinho”, “filho do puto”, “de macho”? Por que uma mulher galinha é puta e um homem galinha é o garanhão? Por que dizer “tinha que ser preto” quando vê um policial prendendo um usuário de drogas?

São coisas a se pensar.

Sinto que estamos vivendo um caos moral; ético. As pessoas não se olham mais. Não se ouvem. Apenas criticam e julgam conforme lhes convém. Até mesmo as baratas — seres consideradas como pragas urbanas e tão repudiadas pelas pessoas — são mais dignas do que muita gente por aí. Ao menos elas não matam, não roubam dos cofres públicos, não batem em professores e estudantes, não agridem, não discriminam, não assustam— com exceção das voadoras, essas não têm perdão! — , ficam na delas, caminhando e cantando, ou seja lá o que for que elas fazem escondidas em nossas casas. Será que somos mesmo melhores do que as baratas?

Por favor, meus amigos, não matem as baratas!

Rick Marques