A alegria morreu

A vida não segue padrões. Não temos a capacidade, ou a autorização de dizer que somos felizes ou não. Que nossa vida é uma vida tranquila ou não.

Diria que se fossemos traçar um padrão pra nossa vida, seriam vários ciclos. Ciclos alternados. Alternados a ponto de não sabermos a combinação exata nem a repetição dos bons momentos e dos maus momentos. Nem mesmo quanto um momento dura. O que é um momento. Não sei, não se sabe.

A principio, fico lembrando de como eram as sensações antes de todo o turbilhão acontecer. Como era simples. Básico. Era gostoso viver.

Por mais que merdas acontecessem — sim, aconteciam — nada era motivo pra desespero de verdade, choradeira, aperto no peito, sensação de impotência. A vida era realmente mais simples. Um problema era exatamente um problema, ficava numa caixa, alocado na mente, latente. Vez ou outra a gente lembra, quando pode a gente resolve. E era isso.

Ficar sentado fazendo tarefa ou vendo TV, olhar pela janela e respirar com vontade fazia com que o espirito transbordasse de paz. Sair andar de bicicleta ou planejar o fim de semana enchia o coração de alegria e uma animação sem tamanho.

Sim, viver era bom. Sentir a vida correndo nas veias. Mesmo que nem tudo fossem flores, mesmo com perseguição na escola, alunos mal educados que poderiam te surrar sem motivo, tarefas que você deliberadamente não fazia e depois morria de medo das professoras. Tudo valia a pena e todo problema passava.

Mas um dia a alegria morreu. E eu senti. E não fiz nada para salvá-la.

Agora o lugar dela está vazio. Vez ou outra ela é tomado pelos sentimentos mais cruéis que podem existir no mundo. A alegria jamais voltou.

Agora, momentos bons são quando aquele buraco está realmente oco, e não tomado pelo desespero.

Aprendi e me apeguei ao vazio. O vazio é o sentimento menos pior. Ele fica ali, latejando, esperando remédios e remédios, oscilando entre terapia, picos escassos de felicidade e um abismo aparentemente infinito.

Já ouvi que ninguém é 100% feliz. Ei concordo, como bem tentei explicar de forma resumida. Mas ninguém é 100% triste e quando isso acontece, o desespero toma conta,

É difícil compreender a capacidade cognitiva que temos. Estamos mal, sabemos disso, sabemos que determinadas atividades ou notícias deveriam nos deixar felizes e, mesmo assim não ficamos felizes.

Ter a capacidade de notas essas nuances nos machucam, trazem um sentimento de auto piedade imenso e nos fazem pensar; “quanto tempo perdido”.

Ganhar algo, comprar algo, conquistar algo. Nada importa. Nada se converte em alegria.

Um beijo, um toque, um flerte. Tudo isso é tão mecânico que raramente traz algum calafrio, alguma surpresa.

De repente transformei meu próprio ser em um autômato entristecido. Aprendi a sorrir, aprendi a responder socialmente todas as provocações. Mas a alegria morreu.