Uma aventura no Minho… de bicicleta

Ricardo Rosa
Sep 3, 2018 · 10 min read

Vila Nova de Cerveira, Valença e Monção estão ligadas pela Ecopista do Minho, cerca de 40 km de ciclovia ininterrupta, com troços à beira rio e partes que aproveitam um antigo ramal ferroviário. A place where no cars go, verde, verde, verde, com floresta, milheirais ou vinha. Ida e volta pode fazer-se num só dia ou, com mais calma, em dois ou três. Nós, que não tínhamos nada mais para fazer, desfrutamos a viagem em quatro. Aqui fica o relato de uma semana de cicloturismo para iniciantes.

Dia 0. Vila Nova de Cerveira

A ideia da viagem surgiu depois de ler o relato e ver as imagens de uma das últimas etapas de Dar a Volta, iniciativa liderada por Ana Santos, entre Monção e Viana do Castelo. Ir de comboio até Cerveira ou Valença fazia parte do plano original, o transporte de bicicletas é possível e gratuito. Mas a hipótese de uma ida a Paredes de Coura e o regresso pelo interior levou-nos a optar pelo automóvel. Acresce o facto de a Carla ter pouca ou nenhuma experiência com bicicleta em meio urbano nem tampouco se sentir à vontade a pedalar com carros por perto, mesmo que poucos. E já que aceitou o desafio, meio desconfiada, então que o façamos com o maior conforto possível.

Chegamos a Gondarém, às portas de Vila Nova de Cerveira, ao início da tarde, já depois de devorar duas sandes de pernil na Casa Guedes, no Porto. Além de ser uma das opções mais económicas, o hotel escolhido somava outros dois atrativos: está perto do início da ecopista, junto à Ilha dos Amores, e tem piscina — o que às 3 da tarde foi o nosso destino imediato após o check-in.

Ao final da tarde, já mais frescos, lançamo-nos no “prólogo”, que foi também a estreia da Carla com a “Matilde”, uma dobrável elétrica recentemente adquirida. Ficou imediatamente rendida.

Do Cais da Mota, onde há uma pequena praia fluvial, seguimos até Cerveira, com a ciclovia sempre na margem do Minho e vista para as ilhas dos Amores e da Boega e, claro, para a margem espanhola. Depois de um passeio pelo centro histórico e pelo castelo — por esta altura decorre a bienal de arte, mais um pretexto para visita — o regresso ao Cais da Mota, já com o sol perto de se pôr.

Dia 1. De Vila Nova de Cerveira a Valença

Primeiros na fila para o pequeno-almoço, cenário que se repetiu nos dias seguintes, deixamos o carro em Cerveira, num parque de estacionamento usado sobretudo por caravanistas e mesmo lado da ecopista. Sacos e alforges montados nas bicicletas, tudo a postos para começar a viagem para Valença.

Depois de uma pequena inclinação à saída de Vila Nova de Cerveira, todo o percurso com uns 17 km é plano, pelo menos até ao último quilómetro antes de chegar às muralhas. O piso, tal como o percorrido no dia anterior, está em ótimas condições, em cimento ou betuminoso. Além de outros ciclistas, portugueses ou espanhóis, cruzamos e passamos por corredores, caminhantes e vários peregrinos a caminho de Santiago de Compostela. Sombras não faltam, há árvores na maior parte do percurso, que segue quase sempre com Espanha e o rio Minho à nossa esquerda. E à direita, de quando em quando, plantações de milho a perder de vista.

A dada altura, a ciclovia vira para o interior e, após cruzar uma ponte medieval, segue por 1,5 km a par da linha ferroviária. Ao chegar a Cristelo Côvo, voltamos à margem do rio até ao ancoradouro de Valença e ao Parque da Senhora da Cabeça. A viajar a velocidade de passeio, média de 11 km/h, pode não parecer fazer falta uma pausa para recuperar o fôlego, mas é recomendável fazê-la aqui, pois segue-se a subida mais complicada (entre as que não se conseguem evitar) de toda a ecopista: uma elevação de 50 metros para fazer em menos de 700 m de distância e onde a inclinação chega aos 12%. A Carla seguia encantada com a “Matilde” elétrica, já eu e a “Maria da Rocha”, carregados, demoramos mais um pouco.

O que vale é que, diz-se entre ciclistas, a seguir a uma subida há sempre uma descida, que neste caso contorna a muralha e o perímetro urbano de Valença, ligando ao troço que continua para Monção. Mas não chegámos lá nesse dia. Ainda a meio da descida, paramos junto à ponte que liga Valença a Tui. Cruzámo-la e entramos em território espanhol, passeando na outra margem do rio e por ruelas da zona mais antiga de Tui.

Com o sol a apertar, voltamos à procura do hotel e mais uma subida (e respetiva descida) até lá chegar. Tinha reservado mais um hotel com piscina, onde passamos a tarde para recuperar forças. De todo o percurso, este foi o dia mais “difícil”. De Valença, não conhecemos mais nada senão o restaurante a dois passos onde almoçamos e jantamos, afinal cá voltaríamos dois dias depois.

Dia 2. De Valença a Monção

A ecopista entre Valença e Monção reaproveita outros cerca de 20 km da antiga linha ferroviária desativada em 1989. Desde logo uma certeza: as inclinações existentes não irão além dos 3%. Os carris deram lugar ao piso clássico de ciclovia, pintado de vermelho ou amarelo, e as árvores que os ladeavam cresceram e concedem boas sombras e bonitas paisagens. Não temos tantos milhais, mas vinhas imensas ao sol. E as antigas estações continuam de pé, mas pouco aproveitadas senão para instalações sanitárias (o que por si só já é de louvar).

A pista é cruzada por vários caminhos rurais e em cada cruzamento há pilaretes e vedações em madeira para evitar que outros veículos usem a ecopista além de velocípedes. O problema é que a passagem é tão estreita que os alforges mal passam e, por vezes, temos mesmo que desmontar das bicicletas. Coincidindo talvez com a fronteira entre municípios, o piso da ecopista aparenta pior estado, algumas rachas e elevações provocadas pelas raízes, também há mais mato nas bermas — mas quilómetros à frente passamos por trabalhadores que tratavam da tarefa de cortar as ervas.

Umas das localidades que a antiga linha ferroviária atravessa é Lapela, na margem do Minho. Aqui vale a pena uma paragem e apreciar a vista da Torre de Lapela, apelidada de Torre de Belém do Minho, que é o que resta de uma antiga fortificação medieval desfeita para reaproveitar as pedras numa praça da Fortaleza de Monção, após a restauração da Independência, no Século XVII.

À chegada a Monção, já sabia que a ecopista termina abruptamente junto a uma superfície comercial. Mas sabia também que metros antes há outro caminho à esquerda que desce em direção ao rio. Foi por aí que continuamos, até passar por baixo da ponte que liga a Salvaterra do Miño. Do outro lado há também um passeio fluvial, mas desta vez não cruzamos a fronteira. Procuramos uma das entradas nas muralhas de Monção e subimos, agora a pé. O empedrado não ajuda e a bateria da “Matilde”, que não tínhamos recarregado na noite anterior, deu de si.

Apeados das bicicletas, que deixamos no hotel, calcorreamos a vila, calma e bonita. Fora da rota de Santiago, há alguns turistas, mas poucos, afinal já passaram as festividades e as visitas dos imigrantes na primeira quinzena de agosto. Junto ao rio e às termas de Monção, demos de caras com uma piscina municipal — maravilha, estava encontrado o sítio para passar a tarde depois do almoço e da sesta.

Desta vila raiana, destaque para uma das melhores refeições da viagem, o jantar de bacalhau com broa da Casa Matraquilhos.

Dia 3. De Monção a Valença

Para o regresso a Valença, tomamos a ecopista junto ao já referido hipermercado. O percurso foi calculado com ajuda das aplicações de GPS, no centro da vila não encontramos quaisquer indicações.

Da viagem já quase tudo foi dito e visto no dia anterior, ainda que a vista no sentido oposto traga sempre novos pormenores na paisagem. A maior parte do caminho é também a descer, o que ainda o torna mais fácil e rápido.

De novo em Valença, agora subimos ao centro histórico, dentro da fortaleza. Aqui há mais turismo e peregrinos de Santiago, mais comércio, souvenirs e restaurantes quase a cada porta. Voltaríamos lá a pé, depois do check-in e deixar as bicicletas no hotel. E para sermos enganados com uma (mini)posta barrosã. De que nos vingamos ao jantar numa casa de tapas junto à ponte para Tui.

Dia 4. De Valença a Vila Nova de Cerveira

A viagem entre Valença e Cerveira é a mais curta, fácil e rápida. Aquela subida à chegada de Valença é agora uma descida para tomar balanço para o resto do caminho. Aliás, todo o percurso de regresso podia ser feito num só dia, desde Monção, mas não quis arriscar da boa vontade da Carla. É até isso que propõe a Olá Vida, em Vila Nova de Cerveira e transporta de carro quem quer até Monção, para depois voltar em bicicletas alugadas (ou as próprias).

Depois de uma pequena volta pelo centro de Cerveira, já de carro subimos ao miradouro do Cervo, para uma panorâmica avassaladora.

No regresso, o almoço foi em Paredes de Coura, com a praia fluvial do Tabuão a convidar a um mergulho, na semana seguinte à invasão do festival.

Tudo correu melhor que esperava, muito graças à prestação e ao encanto da “Matilde”. Qual é próxima? Amarante e o Tâmega, talvez.

Alugar bicicletas e outras dicas

Não é preciso levar bicicletas para fazer a Ecopista do Minho. Como referi acima, nas minhas pesquisas já tinha encontrado a Olá Viva que, por 30 euros/pessoa, aluga bicicletas e leva-nos até Monção para fazer a ciclovia no sentido descendente. Também é possível alugar bicicletas ao dia e ficarmos por nossa conta.

No site da empresa encontrei outro mapa muito útil: todo percurso da ecopista, com pontos de interesse assinalados:

Onde comemos e dormimos

As reservas foram feitas via Booking e todos os hotéis garantiram sítio seguro para guardar as bicicletas. Quanto à comida recorremos ao Trip Advisor, Google e ao olfato.

Dia 0

Hotel Vila D’Artes, Gondarém. 60 euros com pequeno-almoço e acesso a piscina.

Jantamos no restaurante do hotel por 22,5 euros.

Dia 1

Hotel Valença do Minho. 55 euros com pequeno-almoço e acesso a piscina.

Almoçamos (15 euros) e jantamos (25 euros) no restaurante Teresinha.

Dia 2

(O nosso preferido) Hospedaria Muralhas do Minho, Monção. 60 euros com pequeno-almoço.

Almoço no Restaurante Central (22 euros) e jantar na Casa Matraquilhos (25 euros).

Dia 3

Hotel Val Verde, Valença. 50 euros com pequeno-almoço.

Almoço no Restaurante O Limoeiro (30 euros) e jantar no Fronteira Gastrobar (30 euros).

Ricardo Rosa

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Gestor de Produto Digital @ Impresa | (ex-)Jornalista | Pai babado | Utilizador de bicicleta | Geek qb

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