Vida narrada > Loja de discos

Uma biografia é impossível. Você ainda não sabe disso. Você acredita em peças decifráveis, ou, que existam lembranças que lhe aproximam do quadro geral de sua conformação, como nas estatísticas eleitorais. Você entende sua vida como uma coisa narrada. De todo modo, não vou lhe convencer do contrário. Nesse momento busco retratar ao longo de pequenas narrativas de lembranças minha vida conectada à existência de coisas e lugares onde eu seja uma peça, utensílio e não o sujeito.

Nos anos 80 existia uma loja de discos localizada no BH Shopping chamada Hi-Fi. Era intrigante o fato do nome da loja ser a mesma combinação de letras que encontrava nos discos “Hi-Fi”. No interior da loja a combinação de zonas escuras e luzes muito fortes, com muitos reflexos, desnorteava-me, à época, um santuário ou oráculo, um lugar com uma profundidade cavernosa, de assombro próximo às igrejas barrocas que visitara, o museu ou mesmo toda Ouro Preto. O lugar me tornava ao mesmo tempo em alarde e melancólico. Minha tia e madrinha Cristina — “eu comprava muitos discos na época”— fomos até às cabines. Às cabines nada se comparava, havia uma vitrola e grandes fones, fones tão grandes como aqueles que haviam na casa de meu pai, que fora minha casa alguns anos antes, mas que agora entrava em contato através das cabines telefônicas que faziam chamadas interurbano com fichas cromadas DDD. Entrar nas cabines com um vinil e sentir o estranho e incompreendível cheiro, que sempre me desagradava, mas ainda assim sempre valia a pena; a ver as fitas e os discos. Falávamos disco, pois ‘vinil’ era apenas o Kid Vinil, apenas tempos mais tarde os ‘bolachões’ seriam referidos[agora] como vinis.

Na metade dos anos 90 começei a trabalhar como técnico em informática na empresa do meu tio e também padrinho. O salário, em torno de R$ 112,00, me permitia, a depender da escolha e valor de discos, comprar exatos 10 Cd’s e ganhar um de brinde, geralmente, no último andar do Shopping Quinta Avenida na Savassi. De posse do meu cheque saia do escritório e percorria alguns poucos quarteirões (caminhando com o cheque segurado pelas minhas duas mãos à altura do rosto por todo o percurso) e então meu primeiro gesto era entregar o cheque ao caixa, o funcionário ou o dono. Então passava a uma minuciosa varredura de toda a loja em busca de meus 10 ou 11 cd’s. Ao fim, fazíamos a conta e comparávamos com o cheque, rendia ou um desconto ou um troco. Rapidamente o dono compreendeu meu apetite e me inquiria sobre as bandas que me interessariam para o próximo mês. Dessa maneira comprei discografias quase inteiras de uma ‘vezada’: Gênesis, Yes, Jethro Tull. Outra loja abrira na Savassi e comecei a me interessar pelos vídeos, mais caros, mais raros. Quando não era possível alugava na Videomania e fazia uma cópia VHS. Eu tinha de cór cada música e a ordem das músicas de cada Cd, e todos os nomes, das músicas e dos discos, a ordem cronológica. Mas nem tudo era possível de conseguir. Havia aquela loja, Discos Raros, em uma galeria na Rua Paraíba, de propriedade de Ricardo (o mesmo nome de meu tio empregador, também do meu pai… agora também do meu cunhado, e o meu próprio). Discos vindos do Japão, vinil que só conhecia por referências de fotos em catálogos, em geral, tudo longe de meu alcance, a começar pela loja, que não tinha horário fixo, você tinha sorte de encontrar aberta. Consegui uma brilhante encomenda, Olias of Sunhilllow. As lojas se diferenciavam, algumas por serem a extensão de minha ansiedade e pragmática em ter músicas, afinal não sobreviveria sem, e outras por deterem a fantasia de um lugar imprevisível, onde encontramos coisas sobre o mundo, sobre o sub-mundo, sobre a origem do mundo; o próprio mundo.

Em 1998 o cenário era diferente, estava apenas tendo aulas, nada de salário, sob a desculpa de um vestibular que se aproximava, eu estava inclusive, em algum dia de maio fazendo apressadamente uma prova. Terminei a prova de qualquer maneira e sai correndo até a loja de discos SAX, que ficava ao lado do Café com Letras. Chegando lá fiquei parado em frente à porta, o primeiro a chegar. E então chegaram mais duas pessoas. Continuei aguardando. Enfim, chega o vendedor e o proprietário, eles vêm com as caixas e material de divulgação, os ingressos que seriam postos a venda. Eu era o primeiro, não apenas isso, eu vivia naquela loja, sentava naquela excelente poltrona, com alguma frequência, muito mal vestido para o ambiente, eu sabia disso, mas, escolhia um disco enquanto o dono tentava adivinhar meus gostos, com encomendas que ele não sabia bem porque algumas funcionavam comigo e outras não. Comprei as melhores gravações da Harmonia Mundi nessa loja, entre R$ 20,00 e R$ 30,00, preços até razoáveis para um Cd importado. Enfim, o funcionário abriu a banca, comprei o meu ingresso, dos meus irmãos, do meu pai, da minha mãe e de um monte de amigos, escolhi a fileira A, todos os lugares ao centro. Tudo foi muito rápido, então o dono olha para o funcionário que já tinha recebido o meu dinheiro, e faz um cara nada gentil. Eu pressinto algo, e o tempo dá o disparo para vários frames vagarosos que se suscederam, entre eu agarrar os ingressos já agrupados em cima do balcão, a aproximação do dono para garantir que os ingressos reservados continuariam reservados e não postos à venda, a cara de culpa subalterna do funcionário que enfim compreende a burrada a qual se metera, e minha saída à francesa como quem diz, “nem a polícia retira esses ingressos do meu bolso!”. Ora, todos me conheciam naquela loja, eu aconselhava clientes, provavelmente já era tido como o “maluco da loja de discos”, e definitivamente ninguém amava mais o Yes do que eu, aqueles ingressos não poderiam ser de mais ninguém, o que apenas se confirmou com Jon Anderson acenando para mim enquanto tocavam Siberian Khatru e eu chorava copiosamente, como um bebê, logo ali ao centro, em frente ao palco na fileira A!

A última loja, a Discoplay, um acervo inacreditável, mas com as variações do dólar no mais das vezes levava apenas uma boa pechincha da Naxos. As cabines eram modernas, semi-abertas e tinham um pequeno aparelho de Cd, escutei muita música ali no centro da cidade, ao lado do Oton Palace Hotel. Diferentes versões, novidades, curiosidades, tempos de sebo e orçamento reduzido, as lojas eram meu oasis, sempre que passava perto escutava um pouco mais, retinha na memória por alguns dias, retornava, até que conseguia o dinheiro para comprar. Sim, os vendedores já me conheciam e não precisavam mais desconfiar da minha presença. Não roubava discos, eu estava no meu templo, com o meu culto, apenas isso.

Aos poucos fui percebendo que nunca teria uma loja de discos. A resistência não é mais coisa da minha geração, eles estão lá na galeria do Rock, onde consegui todos os meus Kraftwerk em vinil, excelente preço, excelente sorte. Mas não foi sorte. Resistência — não digo isso como alguém que seja especialmente afeito ao substantivo — interessa que são pessoas fazendo de tudo para que alguém continue. Não ando tendo tempo e embora esses mesmos tempos têm de ser passageiros não ando mais pelas lojas de disco.

Isso não conta nada sobre a minha vida, mas em algum nível você acredita que essa história conte algo sobre sua vida. Eu encontro minha vida ali nos espaços onde ela foi compartilhada, eu consigo me ver caminhando até as lojas de discos, e isso selaria uma permanência de onde todos podemos nos ver. Os personagens transitórios nos enchem de emoção porque podemos ser eles ou podemos ser eles sendo qualquer um. Uma biografia é impossível porque no relato o sujeito é esquecido em nome do mundo que o cerca ou no preenchimento de nós mesmos.