Baratas

Eu odeio baratas. É um bicho muito escroto. Devo ter algum trauma de infância. Uma lembrança muito antiga que tenho, inclusive, é de baratas subindo nas costas da minha mãe durante uma mudança. Fiquei bem impressionado com aquilo.
É óbvio que essa repulsa (ou medo, ou nojo, ou seja lá o que se queira chamar) é totalmente ilógico, já que basta parar para pensar: o máximo que uma barata (que não tem nenhum mecanismo de defesa) pode fazer é correr feito uma maluca, já que acredita piamente que você quer comê-la (no sentido gastronômico). Você é infinitamente mais forte que ela e possui ferramentas especializadas para exterminá-las (sandálias Havaianas, por exemplo). Mas é difícil pra mim, ao ver aquele inseto asqueroso, com aquele cabeção falso, não imaginar que qualquer coisa que toque a minha pele seja uma dessas criaturas hediondas.
O pior é que ter uma casa limpa, por si só, não é suficiente para não ter problemas com essas monstruosidades. É tipo dengue: se seu vizinho não se cuida, fudeu do mesmo jeito.
É o que acontece aqui em casa. Elas não aparecem com frequência, mas estão lá. Em algum lugar. Nos vigiando. Aguardando o momento certo para vagar de um canto escuro para o outro.
Ontem à noite surpreendi uma de bobeira na cozinha. Algo na programação de seu cérebro minúsculo tende a fazer o mesmo que a galera do Jurassic Park: se eu ficar quieto, ele não vai me ver. Mas só um cego para não ver uma barata de quase um palmo de tamanho num chão de tons claros. Peguei a sandália sorrateiramente (aprendi, com o tempo, que as mãos são bem mais ágeis que os pés), dobrei o cotovelo para acumular nos punhos a Ira de Deus (se bem que estou mais para ofanim que pra querubim) e desferi aquele que eu acreditava ser mais um golpe fatal.
Ledo engano.
Com sua percepção aguçada, o maldito ser das trevas se moveu mais rápido que a velocidade da luz para o lado. Não me dei por vencido e investi novamente contra a besta, mas ela, com a força do desespero, conseguiu novamente se esquivar. Gasta a forma máxima acumulada para a investida inicial, comecei a desferir golpes a esmo, não mais na esperança de abater o monstro, mas de, quem sabe, imobilizá-lo. A fera deve ter percebido minha momentânea desvantagem e, com forças renovadas, investiu numa única direção de fuga. Entrou no vão entre a parede e o armário da pia.
Arrasado pelo fracasso, vi-me obrigado a aceitar a triste derrota. Larguei minha arma no chão e voltei a calçá-la. Nunca mais encontraria o vil oponente. Jamais poderia vingar-me de tamanha humilhação - o armário é fixo e, mesmo que fosse móvel, a maldita teria a vantagem de estar envolta em sombras.
Lembrei-me, no entanto, de uma arma que sempre julguei desnecessária nessas épicas batalhas. Arma essa que, coincidência ou não, estava guardada... no armário da pia. Aquela que minha mãe chama de "Remédio de Barata" (talvez por isso as baratas da casa da minha mãe pareçam sempre saudáveis e sem doenças). Com este místico artefato em mãos, borrifei seu poderoso conteúdo na fresta onde a criatura se refugiara. Tudo que eu podia fazer, a partir de então, era esperar.
E não foi em vão. Passados alguns minutos, o hediondo ser caiu ao solo em busca de ar fresco, mas nada mais poderia ser feito. De costas para o chão (como toda barata, estranhamente, tende a morrer), começou a agitar seu pescoço e suas patas dianteiras deformadas, numa imprecação que ultrapassou nossas diferenças de linguagens e pude ouvir no fundo de minha mente:
- Por quêêêêêêêêêêêêêê?!?!?!?!?!
Mas, para minha surpresa, ao seu lado caiu um segundo monstro que, ao que tudo indica, já estava escondido naquelas sombras. Também fitando a direção do céu (como toda barata agonizante), ignorando-me solenemente, girou seu pescoço na direção de sua companheira de infortúnio. Pude, claramente, imaginar aquelas que seriam, em seu estranho idioma, suas últimas palavras:
- Caraaaaaaaaaaaaaaaaaalho, filadaputa!!!!!!!!!