Elogio à reclamação

aprenda com o mestre

Muito se fala do papel do álcool como lubrificante social. Porém eu, tímida a ponto de ter passado um estágio de um mês em uma agência sem ir ao banheiro por vergonha de perguntar onde era (fazia xixi num boteco, na hora do almoço) sinto que um dos melhores KY da socialização passa frequentemente despercebido: a reclamação.

Nada cria uma amizade mais rapidamente que a danada. Relações de anos, papinhos passageiros e verdadeiros impérios do companheirismo já foram erigidos sobre a pedra sólida de um “tempinho escroto, não é mesmo?” ou um “acredita que tem um osso de frango no meu pão de queijo?”.

Gosto de pensar que a insatisfação é a mais pura expressão humana. Pense: qual foi seu primeiro ato comunicativo, lá na época em que sua principal função era preencher fraldas? Um baita de um berro para dizer (em tradução livre): giganta, cadê o leite?, o serviço dessa espelunca é péssimo. Tudo que vem depois disso é apenas uma forma mais elaborada de reclamação, com mais sílabas e mais suavidade.

De repente é por isso que reclamamos: talvez, no fundo, esperamos que quem nos ouve seja um desses gigantes bondosos, uma espécie de Godzilla do amor, pronto para resolver o que nos incomoda. E que, como quando éramos crianças, berrar seja o bastante para fazer surgir a coberta que espanta o frio, a mão com dedo cheio de Hipoglós, a caneta da Xuxa que toca chorando-se-foi. Quase nunca é.

Depois de grandes, reclamar serve para pouca coisa: inventar shows de stand-up, criar textões no facebook (ou no medium) e, sim, puxar assunto em elevadores, bares e táxis. É isto, reclamar é encontrar o que temos em comum: Tá ruim mas tá bom.

Like what you read? Give RIDÍCULA a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.