Lídia

Lídia é o nome da minha avó . Lídia vai ser o nome da minha filha algum dia, caso os cromossomos X colaborem (e isto está combinado com Carlos já faz alguns anos, com a condição dele escolher o nome de um hipotético menino).

A Lídia não vai conhecer a Lídia.

Hoje eu vi a minha avó — acordada — pela última vez. É estranho pensar que nesse fim da vida pudessem caber umas tantas estreias. Fazem só algumas poucas semanas que eu vi, pela primeira vez, o rosto dela sem a maquiagem, sem batom vermelho e as sobrancelhas finas desenhadas a lápis. Somente alguns meses desde que conheci os cabelos brancos, não loiros, onde mesmo agora, aos 91, finos fios pretos se misturam. Os dedos curtos, parecendo particularmente jovens sem o esmalte. Nossos nomes, o crochê e a vaidade. São as poucas coisas que o alzheimer se demorou em levar.

Eu morava no mesmo prédio que meus avós. Dos oito aos dezesseis anos, eu almoçava e passava as tardes na casa dela, ao menos três vezes por semana. Foi um amor construído na conta dos dias, tijolinho a tijolinho, indo ao mercado, lendo as crônicas que ela recortava pra mim do Estadão, vendo juntas todo e qualquer seriado que passasse entre as 14h e as 19h (nosso favorito era The Nanny) ou, cúmplice, me deixando furtar das latas os biscoitos wafer do meu avô. Um amor de alvenaria. Sólido e feito dessas coisas pequenas.

Minha vó tem o choro fácil, e chorava sempre que contava a história de como ela e meu avô saíram da Romênia, porque naquele dia, na estação de trem, foi a última vez que ela viu seu pai. Minha vó tinha 1,50m de altura, mas foi diminuindo mais com a idade, e tem os pés tortinhos de uma baixinha que usou salto a vida inteira para andar ao lado do seu marido alto, e por isso eu e a Paula (que também tinha uma vó romena e baixinha) escrevíamos histórias em que nossas avós eram hobbits.

E eu, que sou um fracasso como dona de casa, já me peguei ligando para ela para tirar alguma dúvida de como se prepara língua de boi ou sarmales, porque as receitas que ela me dava eram as receitas de quem nunca precisou saber as quantidades, onde tudo era “ a gosto”, “ o suficiente” ou “ quanto baste”. Ela sempre gostou de cozinhar e de comer. Isso foi uma coisa que o fim levou. No fim, o único sabor que ela ainda gostava era o de Coca-cola.

Vou sempre lembrar com amor essa vó que eu tive, que me emprestava seus lápis e tintas para desenhar, que arrumava o sofá-cama para eu dormir lá, que assava para nós um bolo de mel no ano novo judaico. Mas também não vou me esquecer dessa Lídia pequena na cama automática de hospital, com os olhos semi-cerrados, falando umas poucas frases enigmáticas, com sentidos que nos escapam mas parecem terrivelmente importantes (domingo passado, quando me inclinei para dar um beijo, me falou: as meninas estão se arrumando? Papai disse, as meninas sempre se arrumam.)

Vó, eu vou me lembrar sempre dessa comunicação que nos resta quando as palavras significam muito pouco mas o coração ainda está lá. Que quando a cabeça já esqueceu, existem ainda tantas coisas que o corpo se lembra, a voz pura e tranquila do gesto. Então eu passo as mãos pelo halo leve do seu cabelo, e eu passo os dedos sobre suas pálpebras e sua testa e aliso um por um os nós dos seus dedos. Foi assim que eu disse que te amo.

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