Seis livros para entender a Insurreição Comunista de 1935

Quem me acompanha por aqui a essa altura já deve saber que eu escrevo ficção. No final de 2016, comecei a escrever um livro a partir de uma ideia que havia muito eu queria desenvolver, mas não me sentia pronta. Dividido em três partes, o romance se passa na década de 1930, gira em torno da Insurreição Comunista de 1935, e sua ação acontece em parte na URSS e em parte no Brasil.
O tema foi escolhido por afinidade pessoal, mas a pesquisa para esse projeto acabou me fazendo ler vários livros que sem dúvida integrariam um Index Librorum Proibitorum eventualmente elaborado pela inquisição ultradireitista que domina o Brasil.
Hoje quero recomendá-los.
Em tempos de revisionismo, com os poderes públicos lançando uma campanha ostensiva de distorção da nossa História e retorno a discursos que se acreditavam historicamente superados — a velha “ameaça comunista” — é fundamental que corramos para os dados ainda ao nosso alcance a respeito das lutas sociais do Brasil, aprendendo o máximo possível sobre elas.
1. Política e rebelião nos anos 30 (Marly Viana)
Para quem quer apenas um panorama da situação e não dispõe de muito tempo para dedicar à leitura sobre o assunto, esta é a opção perfeita. Este livreto pertence a uma coleção da Editora Ática pensada justamente para apresentar acontecimentos históricos de forma abreviada. Apesar de ter apenas cerca de cem páginas, é bem abrangente: cobre os levantes nas três cidades onde eles ocorreram, é ilustrado com fotos da época e não conta apenas sobre 1935, mas sobre as revoltas tenentistas que já se desenvolviam havia uma década e prepararam tanto o cenário quanto os atores da Insurreição de 35.
Uma das principais estudiosas dessa Insurreição, a historiadora Marly Viana tem outra obra mais completa e aprofundada especificamente sobre a revolta comunista, a saber, “Os revolucionários de 35: sonho e realidade”, que até seus opositores ideológicos tomam como obra de referência. Infelizmente, não tive acesso a esse livro ainda, mas a tese defendida é a mesma do livreto: a insurreição de 1935 foi mais uma culminação dos movimentos tenentistas, materializada em quarteladas, do que de fato uma revolução do proletariado ou mesmo do povo — e sua derrocada se deu porque os líderes subestimaram a importância da participação da classe trabalhadora no processo de conquista do poder.
É a mesma opinião que ela emite neste trechinho de entrevista:
2. Camaradas (William Waack)
O livro do jornalista William Waack certamente foi muito importante para a historiografia da Insurreição de 1935 porque lançou luz sobre uma questão polêmica desde a época que ela aconteceu: a revolta foi ou não controlada pela União Soviética?
Ao passo em que o governo brasileiro, ajudado pela imprensa, tentou pintar os revoltosos como agentes estrangeiros maléficos, doidos para subverter a ordem no país, os idealizadores dos levantes que chegaram a ser capturados sempre negaram a participação de Moscou no evento, sustentando ter sido um levante arquitetado pela ANL.
Quando alguns arquivos secretos da União Soviética foram abertos após sua dissolução na década de noventa, porém, novos dados vieram à luz sobre esse assunto. O livro-reportagem “Camaradas” foi escrito com base em telegramas trocados entre Luiz Carlos Prestes e os demais líderes da Insurreição Comunista e o comando da Internacional Comunista sediado na URSS à época e outros documentos retirados dos arquivos russos.

Desses documentos fica claro que a União Soviética teve, sim, influência no levante, como tinha em todas as tentativas de levantes comunistas da época — na Alemanha, na China… Afinal, a Terceira Internacional Comunista existia justamente para auxiliar o crescimento do movimento comunista no mundo inteiro, e seu QG ficava na URSS por motivos óbvios.
É bom, no entanto, que William Waack tenha transcrito boa parte dos documentos no livro, pois isso permite ao leitor tirar suas próprias conclusões sobre o assunto. É uma vacina contra a própria parcialidade ululante do autor, que tenta pintar um quadro bastante deplorável da liderança do movimento brasileiro, exagerando tanto a extensão da autoridade de Moscou sobre os atos dos agentes locais, quanto nas tintas de confusão, prepotência e alienação com que pinta os arquitetos da insurreição.
Eu mesma me deixei levar pelo tom irônico do autor no início das pesquisas, pois esse livro foi um dos primeiros que li. Comecei a questioná-lo só quando consultei outras fontes. Insinuações no sentido de que certas afirmações dos comunistas da época não passavam de delírio, não aplicáveis à situação do Brasil, se provaram injustas. Por exemplo, ao ouvir a classificação econômica da Internacional Comunista para o Brasil — país semifeudal — Waack a considera uma baboseira ideológica marxista, sem conexão da realidade. Mas, compulsando jornais não-comunistas e não-esquerdistas da época, podemos notar que eles também usavam termos como “semi-feudalismo” para se referir ao sistema econômico brasileiro, por causa das práticas das relações de trabalho no campo. Nenhum delírio, como se vê, apenas uma classificação considerada normal na época, apesar de hoje parecer estranha.
A mesma coisa acontece com relação às greves e ao movimento armado no campo, que os líderes brasileiros da insurreição relataram à Internacional existirem no Nordeste. Waack considera diz que os líderes brasileiros claramente estavam mentindo ou fantasiando em seus relatórios. Outras fontes que estudaram especificamente a revolta no Nordeste (o que o jornalista assume não ter feito, pois mesmo ao relatar a insurreição em si, concentra-se nos acontecimentos do Rio de Janeiro), confirmam a ocorrência de várias greves na região naquele ano e de um movimento guerrilheiro no sertão do Rio Grande do Norte, surgido como resultado da perseguição da polícia aos comunistas de Mossoró.
Além disso, um dos relatórios em que o jornalista se baseia para pintar os retratos dos participantes do quartel-general da insurreição no Rio foi escrito por um agente duplo que já havia muitos anos trabalhava para o Serviço Secreto Britânico. Posteriormente, dois escritores escreveram um livro sobre esta pessoa com base em entrevistas concedidas por ele em que ele narrou suas missões, inclusive a do Brasil, com detalhes de como traiu o movimento e entregou vários colegas à polícia getulista.
Ops.
Parcialidade e hostilidade à parte, porém, o livro é uma fonte inafastável para quem quiser entender os levantes de 1935 em todos os seus aspectos.
3. A Insurreição Comunista de 1935 (Homero de Oliveira Costa)
O diferencial da obra de Homero de Oliveira Costa para as mencionadas antes nesta lista está no seu foco. Enquanto as sugestões anteriores falavam da insurreição como um todo ou se concentravam no seu comando, centralizado na então capital do país, este livro trata da tomada da cidade de Natal, em que foi instaurado e vigorou por quatro dias o primeiro regime “comunista” da América Latina.
(O “comunista” vai entre aspas porque não se planejava, com a insurreição de 1935, a instauração de um regime soviético Brasil ainda. Como mencionado, o movimento comunista internacional considerava o Brasil um país semifeudal disputado pelos imperialismos britânico e norte-americano, e que ainda precisava passar por uma revolução burguesa e anti-imperialista para preparar o terreno para o socialismo no futuro. Afinal, não se podia pular etapas históricas indo direto do feudalismo para o socialismo).

Originado de um trabalho acadêmico, “A Insurreição Comunista de 1935” está disponível na internet gratuitamente em formato PDF. Então, se você não tiver acesso aos outros da lista, pode sempre clicar aqui e baixar este para começar seus estudos.
A estrutura de dissertação também permite que o autor não te jogue direto nas particularidades locais do movimento em Natal. Ele prepara o terreno com uma introdução sobre o contexto nacional e o cenário político potiguar na época, abordando tanto o estado dos movimentos esquerdistas e direitistas no estado, quanto questões de política partidária que acabaram por influenciar o estouro e o sucesso temporário do levante.
Compulsando fontes bibliográficas, entrevistas, processos e tentando se orientar no meio das informações contraditórias, o pesquisador nos apresenta um relato passo a passo tão preciso quanto possível dos acontecimentos entre o dia 23 e o dia 27 de novembro de 1935 em Natal e nas cidades ocupadas pelos revoltosos após a tomada da capital. Também se tem um breve relato dos levantes em outros estados do Norte e Nordeste, inclusive os planejados que não chegaram a explodir, e um panorama da repressão ao movimento.
Vários motivos respaldam a importância de se estudar o movimento em Natal, para além de seu pioneirismo continental: 1) foi o único levante bem-sucedido da Insurreição, ainda que por pouco tempo; 2) diferente dos levantes do Rio e de Recife, preponderantemente militares, este teve maior participação do Partido Comunista e da esquerda civil; 3) eclodiu espontaneamente por razões locais, sem consulta ao diretório nacional no Rio, e por isso mesmo 4) precipitou os acontecimentos, o que pode ter minado o sucesso do movimento como um todo no país.
Por isso mesmo, existe um site todo dedicado à memória da insurreição comunista no Rio Grande do Norte. Lá podemos encontrar, além de uma versão mais antiga deste livro e vários artigos, perfis, fotos sobre o assunto, alguns relatos mais diretos de participantes, que nos oferecem uma visão interna e mais íntima do movimento, como o próximo livro desta lista.
4. Praxedes: um operário no poder (Moacyr de Oliveira Filho)
Um nome, “Praxedes”, aparecia com frequência nos depoimentos dos participantes da insurreição de Natal e intrigava as autoridades, que, por não conseguirem associá-lo a uma face, chegaram a pensar que se tratava de um alias — coisa bem comum na época — ou personagem fictício usado para encobrir os verdadeiros líderes do movimento.
Se tal pessoa havia existido, tampouco os comunistas que sobreviveram à onda de repressão pareciam saber do seu destino, já que, após a derrocada do movimento, nunca mais se ouvira falar dele. Até que, na década de 1980, um jornalista encontrou o tal Praxedes, casado e velhinho, vivendo sob outro nome no estado da Bahia.

Gravando uma entrevista com ele, o jornalista prometeu levá-lo de volta a Natal para uma visita, o que não pôde cumprir, pois Praxedes faleceu antes da data combinada para o passeio.

Os depoimentos colhidos, porém, foram transformados nesse livro-reportagem, que traz uma narrativa do levante com conhecimento de causa, além de outros fatos interessantes sobre o contexto político e o meio comunista na Natal de então.
José Praxedes de Andrade, sapateiro, foi um dos primeiros comunistas de Natal. Ainda bem jovem, empolgou-se com as notícias da Revolução Russa de 1918, mesmo sem saber bem na época o que era comunismo, e também ajudou a organizar os sindicatos que começaram a surgir na cidade sob a liderança do advogado Café Filho nas primeiras décadas do século XX. Isso na época em que ainda não havia previsão legal autorizando greves e sindicatos, o que o tornou conhecido da polícia desde cedo.
Preso duas ou três vezes, enviado para o Rio para um intensivo sobre revolução e eleito para o diretório estadual do Partido Comunista, Praxedes foi de fato uma das peças-chave do movimento revolucionário, tendo exercido o cargo de Secretário do Abastecimento no curto governo comunista de Natal. Na entrevista, ele fala sobre as requisições de víveres aos comerciantes, o saque aos bancos — eventos em que teve participação especial, em razão do seu cargo — confirma ou refuta declarações de outros participantes, dadas às autoridades ou à imprensa, além de mitos que se criaram pelo falatório popular em torno do evento.
Abordado com a cautela recomendável para a análise de qualquer narrativa testemunhal, este livro-reportagem, também disponível online, é uma leitura rápida e agradável e um documento crucial para a compreensão do Partido Comunista do Rio Grande do Norte e da insurreição que ele ajudou a operacionalizar.
5. Vida de um revolucionário (Agildo Barata)

Outro depoimento pessoal que merece destaque entre os que li na minha pesquisa é o livro “Vida de um revolucionário”, do militar comunista Agildo Barata.
Pense naquela pessoa que está em todas. Esse era o Agildo Barata. Ele ajudou Getúlio Vargas a chegar ao poder em 1930, decepcionou-se e tentou derrocar Getúlio na revolução paulista de 1932 — que, segundo afirma, era para ter sido um movimento nacional, mas por uma armadilha do presidente, eclodiu só em São Paulo, deixando a aparência de agitação isolada movida por descontentamento reacionário — e em 1935 caiu quase de paraquedas no olho do furacão, o quartel da Praia Vermelha, assumindo, com outro oficial, o comando do quartel ocupado, em atenção às ordens de Prestes. Isso fez com que ele fosse uma das primeiras pessoas a ser presa e uma das últimas a ser solta na repressão que se seguiu ao movimento, passando aproximadamente uma década na cadeia.

Como o livro não gira em torno dos eventos de 1935, mas de toda a experiência de Barata enquanto revolucionário, após uma introdução sobre si e sobre sua própria formação política e profissional, o memorialista vai contando dos levantes em que tomou parte, das vezes em que esteve preso, de quando atuou na política partidária, e de toda atividade de militância e conspiração de que se encarregou nesse meio tempo, até o rompimento com o Partido Comunista no período do Degelo de Khrushchov.
O estilo do autor é direto e objetivo, tem um estilo que deixa a leitura prazerosa, especialmente devido à qualidade aventurosa de muitos dos acontecimentos relatados, como a perseguição em um bonde à noite e a fuga maravilhosa de uma prisão-barco.
Embora haja óbvia parcialidade e algum enfeite na forma de retratar a si mesmo e as figuras com que interage — é uma autobiografia, no fim das contas — vê-se que houve esforço para apresentar os fatos do modo mais puro possível. Inclusive com declarada abstenção de opinar certos assuntos e julgar certos posicionamentos alheios.
Particularmente, Barata se abstém de opinar sobre Prestes e sobre as decisões dele. Algumas insinuações deixam entrever certa decepção com o líder da insurreição comunista, quase um ídolo para a esquerda em geral e todos os discordantes do governo na primeira metade do século passado. Por isso, quem quiser entender a insurreição de 1935 não pode fugir de ler um pouco sobre a pessoa do Prestes.
6. O cavaleiro da esperança (Jorge Amado)

O caráter literário e assumidamente panfletário deste livro — Jorge Amado o escreveu como parte da campanha pela libertação de Prestes na década de 1940 — torna-o uma fonte de pesquisa questionável. Prestes nos é apresentado como uma figura quase inumana de tanta perfeição — e ao mesmo tempo, essencialmente humana, por ser o Herói, o filho do Povo.
O próprio tom messiânico, porém, é interessante para quem quiser entender a importância que Prestes teve no começo do século passado enquanto símbolo de resistência. Graças à façanha da Coluna Prestes, ele se tornou quase o Tordo da oposição brasileira (quem leu Jogos Vorazes entenderá); dos descontentes em geral, não só dos esquerdistas. Por isso, considero o livro de Jorge Amado útil, pois por ela podemos enxergar Prestes pelo prisma romântico com que o enxergavam na sua época de glória, e conhecer não só o homem, mas a figura, o mito.

É por isso que não descarto esse livro das minhas recomendações, e que incluo justo ela nesta lista, em vez de outras biografias de Prestes, talvez mais secas. Por isso e pela qualidade poética, afinal, é Jorge Amado.

É lógico que se recomenda certa dose de ceticismo durante a leitura. Na verdade, pela própria natureza polêmica que o tema do comunismo sempre teve no Brasil, tudo que versa sobre esse assunto arrisca estar contaminado por parcialidade favorável ou contrária.
Assim sendo, o ceticismo deveria ser a postura padrão com que lemos qualquer texto sobre esse tema. Deveria ser a postura padrão do pesquisador em geral, na verdade, especialmente na pesquisa histórica.
Então, entrego esta relação de obras à independência intelectual de vocês. Façam bom uso, e até a próxima.
