Escracho público

Ser perseguido e ouvir reclamações em seu dia-dia, por onde quer que vá; ser alvo de retaliações espontâneas em momentos de pronunciamento em cadeia nacional; ouvir o barulho de panelas, apitos, cornetas ou vaias durante a participação em eventos públicos e por aí vai. Difícil não ser a favor de que políticos ineficientes, mentirosos e sob suspeitas claras de infrações sofram o maior número de “escrachos públicos” possíveis, pois o que mais prejudica o Brasil são tipos como esses.

Os recentes “panelaços” de 2015 estão mais alinhados ao interesse de um partido de oposição do que a favor de toda sociedade.

Mas, diante do alto número desses políticos, se os “escrachos públicos” acontecem apenas com uns, e não com outros, a coisa já começa a ficar estranha, muito estranha.

Durante a abertura da Copa do Mundo, em 2014, Dilma Rousseff foi vaiada. Em seu último pronunciamento à nação, em 1° de maio, as panelas soaram mais alto que a voz da Presidente tentando explicar a situação do País. Os “panelaços” se repetiram na transmissão de um programa do Partido dos Trabalhadores (legenda de Dilma) e, mais recentemente, em um casamento, no qual ela e o ex-presidente Lula foram padrinhos. E com razão: mensalão, corrupção na Petrobrás, o baixo crescimento do PIB e o estelionato eleitoral da últimas eleições.

Porém, onde estavam os donos dessas panelas quando a Polícia Militar do Paraná, sob o comando do governador tucano Beto Richa, partiram para cima de professores com bombas, balas de borracha e cães pitbull? Onde essas pessoas guardaram suas panelas quando ficaram sabendo que o maior estado do País praticamente secou um de seus principais reservatórios de água, por falta de investimento no sistema de distribuição, entre outros motivos? Havia falta de panelas, apitos, buzinas ou outros utensílios que o valham quando o escândalo de cartel no Metrô de São Paulo veio à público?

Diante de tantas perguntas, uma constatação é bastante clara: ao perceber o sentido para onde as panelas batem, não fica difícil de perceber de onde ela vem. O que lança suspeitas sobre o argumento de que tais, e cada vez mais frequentes, mobilizações aconteçam em favor de toda a população. A postura seletiva torna o propósito do escracho questionável, além de ineficiente e pouco legítimo.

Hipótese: se, por um acaso, o governo Dilma e o PT não derem mais motivos para as panelas soarem, mas as obras de governos estaduais de outros partidos continuarem a apresentar atraso, super faturamento e até erros graves (como aconteceu com uma ponte em Belo Horizonte, prometida para a Copa do Mundo de 2014, que caiu) quem terá coragem e ímpeto para fazer barulho outra vez, a fim de impor como prática comum a honra ao compromisso com a população ?

Alias, os veículos que dão destaque aos “panelaços” seletivos em suas manchetes e os leitores dessas manchetes também deveriam começar a se perguntar sobre isso. Com tanto barulho vindo apenas de um lado e indo apenas para outro, esses eventos podem se tornar simples motivo para piada e a população engajada, de fato, perderá um artifício super interessante.

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