Os insatisfeitos

O senador Aécio Neves convocou manifestações contra o governo Dilma, mas não compareceu; o objetivo de seu partido é “sangrar” a gestão da petista

Cinco meses após o fim das eleições presidenciais, o principal partido de oposição — o PSDB — ainda não aceitou a derrota de seu candidato. Foi a quarta vez seguida que a legenda tucana perdeu para um representante do Partido dos Trabalhadores. Mas, desta vez, a certeza de que sairiam vitoriosos sobre a tentativa de reeleição da frustrante presidente Dilma Rousseff tornou a perda nas urnas mais difícil de ser digerida.

Não por acaso, após o fechamento das urnas, o partido tentou de tudo para que a vitória de Dilma não fosse consumada: pediram recontagem e análise das urnas, pediram que a diplomação da petista não ocorresse, devido a irregularidades em sua campanha e, por fim, se recusaram a dialogar, com o intuito de dificultar os trabalhos do planalto.

E o cenário de instabilidade política no país favoreceu às investidas dos psdebistas, que se articularam fortemente como nunca haviam feito anteriormente no papel de oposição. Embarcando na crescente rejeição de Dilma — confirmada pela vitória apertada — os tucanos incentivaram mobilizações populares, via redes sociais. O primeiro resultado claro foi um grande ‘panelaço’ no dia 8 de março de 2014 (dia internacional da mulher), enquanto a presidente fazia um pronunciamento em cadeia de rádio e TV.

A grita também alimentou a ideia de pedido de impeachment da líder do executivo, por mais que a alternativa se mostrasse inviável. Na mesma semana, o nome de Dilma Rousseff e do senador Aécio Neves (candidato do PSDB derrotado por Dilma em 2014) foram retirados da lista de investigados da Operação Lava-Jato (que apura os casos de corrupção na Petrobras) enviado ao Supremo Tribunal Federal.

Porém, uma mobilização maior estava por vir: em um domingo, 15 de março, diversas capitais do país tiveram manifestações contra o governo federal. Uma mobilização legítima, além de bastante característica.

O eco nas ruas

15 de março de 2015, Avenida Paulista, São Paulo. Mais de 1 Mi, segundo a Polícia Militar; o Datafolha aponta 210 mil.

Dificilmente, o PSDB seria um partido ligado à mobilizações de massa. No entanto, em meio a um cenário político onde a base do governo não estava afinada com os interesses da presidente e diversas camadas da população, além de movimentos sociais, mostravam-se insatisfeitos com os planos de austeridade fiscal do governo, ir para as ruas parecia ser a única opção.

O mais curioso, na realidade, foi notar o quanto uma manifestação de rua tomou conta das manchetes e dos veículos de comunicação, antes mesmo de acontecer. A iminência dos protestos de 15 de março parecia ter uma importância significativa em sua divulgação, no sentido de endossar um recado destinado à presidente da República.

Vista de longe, do alto, o tamanho das manifestações indicavam que Dilma Rousseff realmente teria motivos para se preocupar, a insatisfação era muito grande. Algo óbvio, se considerarmos que sua vitória nas últimas eleições foi muito apertada. Mas a presidente não poderia subestimar a situação: quem não foi pra rua contra ela, também não foi para defendê-la. Dois dias antes, movimentos sindicais chegaram a sair às ruas para defender os diretos trabalhistas e se posicionar contra o impeachment, mas seus números eram menores se comparados aos de domingo.

Números das manifestações dos trabalhadores e contra o governo. Fonte: Datafolha

Tamanhos a parte, vista de perto, outras curiosidades daqueles manifestantes de domingo se popularizaram bastante nas redes sociais. Eram, na maioria, eleitores de Aécio. Muitos com camisetas da Confederação Brasileira de Futebol. Seriam torcedores da derrocada de um governo eleito democraticamente e sem qualquer acusação oficial que o invalidasse, até então? Alguns defendiam o tal impeachment ou a saída de Dilma, sem o devido conhecimento sobre a linha de sucessão presidencial ocupada, hoje, por políticos investigados em esquemas de corrupção. Outros gritavam contra a corrupção (associado ao partido da presidente, o PT) indiferentes a importância de uma reforma política, pois todos os partidos têm alguma relação ou financiamento de empresas sob suspeita.

E como não mencionar os fãs da Policia Militar que aproveitavam para tirar fotos com soldados de uma instituição conhecida por sofrer com o ‘câncer’ das milícias e com a presença de membros da corporação investigados por matar jovens na periferia. Periferia essa muito pouco representada entre esses insatisfeitos. Aliás, outro ponto que nem vale a pena mencionar são os pedidos de intervenção militar.

Trazendo à recordação as manifestações de junho de 2013, percebemos que essa foi muito mais alimentada pela mídia do que aquela, responsável até por tecer críticas aos veículos de imprensa mais conservadores, tradicionalmente integrados ao oligopólio nas comunicações.

No mais, não há como esperar o mínimo de coerência em uma mobilização como essa, com bandeiras diversas e mal alinhadas para sair às ruas. A insatisfação é grande, numerosa, mas não oferece uma contrapartida viável e condizente com a realidade. Por isso, também fica fácil entender quem não foi às ruas motivado apenas pela insatisfação. E se for considerar unicamente o mal gerenciamento de Dilma Rousseff e suas falsas promessas de campanha, muitos outros governadores também deveriam ser alvo de manifestações.

Existem motivos para levar a manifestação do dia 15 à sério, mas também existem motivos para não levar.
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