A resposta de Jane Austen ao Ateísmo 2.0

Rilson Joás
Jul 20, 2017 · 4 min read

Artigo original em inglês por Rebecca McLaughlin

Em sua palestra ao TED, “Ateísmo 2.0”, Alain de Bottom, co-fundador da School of Life nos apresenta um novo tipo de ateísmo. Ele rejeita a crença religiosa (uma atitude tão fácil pra ele como ‘disparar em um peixe dentro de um aquário’), mas argumenta que devemos extrair as melhores práticas religiosas e simplesmente “substituir as escrituras pela cultura”. Onde protestantes de tradição negra pentecostal podem responder a um sermão animado com “Obrigado, Jesus; obrigado, Cristo; obrigado, meu Salvador!”, ateístas inspirados não precisam se sentir perdidos. Respondendo a uma mensagem secular, ateístas podem invocar os seus heróis: “Obrigado, Platão; obrigado, Shakespeare; obrigado, Jane Austen!”

Talvez alguém poderia se perguntar como Shakespeare — cujo trabalho e mundo foi tão moldado pelas escrituras — se sentiria sobre esta apropriação. Mas quando se trata de Jane Austen, não há dúvidas: ela ficaria tremendamente chocada.

Como podemos saber isso?

As orações de Austen

A irmã de Austen, Cassandra, preservou três orações escritas por Jane para os devocionais familiares. Elas dão voz a uma sincera devoção a Deus. Uma delas começa assim:

“Dá-nos graça, Senhor Todo-poderoso, para que possamos orar, assim como para sermos dignos de que nos escutes, para que nos dirijamos a Ti com nossos corações, assim como nos dirigimos com nossos lábios. Tu estás sempre presente e não há nenhum segredo para Ti. Que o conhecimento dista verdade possa nos ensinar a que firmemos nossos pensamentos em Ti, com Reverência e Devoção.”

Em outra oração, ela intercede por aqueles que ainda não conheceram a Cristo:

“Que a Tua misericórdia se estenda sobre toda a humanidade, trazendo os ignorantes ao conhecimento de Tua verdade, acordando o impenitente e tocando os de duro coração.”

Por ela e por sua família, ela pede que “não joguemos a salvação que nos deste por nossa própria negligência, nem que sejamos cristãos apenas de lábios”. Qualquer tentativa de retratar Austen como cristã nominal se vê diante de uma barreira: ela dirigia suas orações precisamente contra o cristianismo nominal.

A vida de Austen

Como Irene Collins coloca: “Nenhum biógrafo enxergou causa alguma que ponha em dúvida a sinceridade da fé (de Austen), da qual ela constantemente deu testemunho, e de onde ela tirou forças durante sua última e angustiante enfermidade.” Ela se fazia presente na igreja duas vezes aos domingos. Numa rara semana em que perdeu o segundo serviço, ela realizou as orações noturnas em seu lar. Logo após sua morte, um dos irmãos de Austen a descreveu como “completamente religiosa e devota” e disse na catedral de Winchester, onde ela foi enterrada, que “todo o seu inventário de mortos não continha as cinzas de um gênio mais brilhante ou de um cristão mais sincero (que Austen)”.

As obras de Austen

Austen se mostrou bastante disposta a criticar a religiosidade hipócrita. Mr. Collins — seu clérigo mais famoso, devido a popularidade incomparável de Orgulho e Preconceito — transborda santimônia, veneração da classe e falsa humildade. O Mr. Elton de Emma não pode ser considerado superior nisso. Mas esses retratos negativos são contrabalanceados por vários exemplos positivos: na verdade, os heróis de três de suas novelas — Senso e Sensibilidade, Mansfield Park, e Northanger Abbey — possuem carreiras eclesiásticas.

As obras de Austen resistem de maneira específica a ideia de substituir religião por literatura. Por exemplo, Anne Eliot recomenda ao Capitão Benwick, personagem angustiado e obcecado por poesia, que leia as memórias de “personagens valorosos e sofredores” cujas vidas forneçam “os mais firmes exemplos de persistência moral e religiosa.” De igual maneira, Marianne Dashwood, que fundamentou sua visão de mundo em romances fictícios, se arrepende deste erro e expressa seu desejo de “ter tempo para a expiação divina.” Mas talvez a evidência mais sugestiva da obra de Austen para uma rejeição da proposta de Alain de Botton se encontre no início de sua última novela.

Persuasão foi publicada seis meses após a morte de Austen. Seu início reflete uma descrição da piedade puritana — mas distorcida:

“Sir Walter Elliot, de Kellynch Hall, em Somersetshire, foi um homem que, para seu divertimento, nunca tomou outro livro pra ler além do Baronetagem; lá ele encontrou ocupação nas horas de ócio, e consolo nas horas de angústia; … e lá, se qualquer outra folha fosse impotente, ele poderia ler sua própria história com um interesse que nunca falhou — essa era a página com a qual seu volume favorito sempre começava — “ELLIOT DE KELLYNCH HALL”

Substitua “Baronetagem” por “Bíblia” e Sir Walter se torna um homem profundamente religioso, que restringe sua leitura as Escrituras e que apenas encontra consolo e prazer na leitura da Bíblia. Mas em vez disso, o pai de nossa heroína construiu sua vida baseada num livro que lista títulos e histórias da nobreza. E o herói da bíblia de Sir Walter não é um salvador abnegado, mas um tolo auto-idólatra.

A resposta de Austen ao Ateísmo 2.0?

Alain de Botton nos convida a trocar as escrituras pela cultura: “Obrigado, Platão; obrigado, Shakespeare; obrigado, Jane Austen!”, mas Austen, que colocou o ideal platônico em prosa, rejeita essa substituição. Para ela, a cultura cresce do solo fértil de uma vida firmada na fé. Ainda que seu contexto fosse bastante diferente daquele que encontramos em igrejas de tradição negra pentecostal nos Estados Unidos, ela sem dúvida confessaria junto a eles: “Obrigado, Jesus; obrigado, Cristo; obrigado, meu Salvador!”


Rebecca McLaughlin tem Ph. D em Literatura Inglesa pela Univerdade de Cambrigde. Ver artigo original aqui.

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