O 1619 Project: um grande jornal questiona o mito fundador dos EUA

Julia Michaels
Sep 17 · 8 min read

Irrompeu um debate duradouro em agosto passado, nos EUA, que neste ano contabiliza 400 anos desde a chegada naquele território dos primeiros africanos escravizados. Desembarcaram no dia 20 de agosto de 1619 vinte de um total de 400 mil levados à força para a América do Norte entre 1619 e 1808. Notavelmente para o leitor brasileiro, piratas haviam tirado essas vinte pessoas de um negreiro português, embarcados no território hoje conhecido como o país de Angola. É de se supor que o Brasil tenha sido o destino original do navio.

Em janeiro, Nikole Hannah-Jones, jornalista negra e estudiosa de segregação racial, membro da equipe da revista dominical do New York Times, havia proposto que o jornal aproveitasse a data para publicar um número especial da revista, dedicado ao impacto da escravidão até os dias de hoje, nos Estados Unidos.

Mal imaginava ela no que daria o “1619 Project”: filas em Times Square para se conseguir um exemplar, tiragens muito além das planejadas, leitores postando vídeos da hora de abrir o envelope de cartolina que traz a revista pelos correios, prêmios importantes de jornalismo, elogios no congresso norte-americano. Professores loucos atrás de exemplares para seus alunos.

Apesar de matérias do New York Times repercutirem com frequência na imprensa brasileira, pouco se falou sobre o 1619 Project. Um Google de “Projeto 1619” revelou somente quatro menções, uma de Angola.

No coração do projeto (PDF aqui) revela-se pela primeira vez, para muitos americanos, a hipocrisia fundamental dos EUA: a maior parte dos homens que assinaram a declaração de independência do país, em 1776, eram donos de escravizados. Pior, esses deram um jeito para proclamar que todos os homens foram created equal, menos aqueles que trabalhavam de graça, sob opressão — de acordo com Hannah-Jones, um quinto da população norte-americana na época.

“Em junho de 1776”, ela escreve, “Thomas Jefferson sentou em sua escrivaninha portátil num aposento alugado em Filadélfia e redigiu estas palavras: ‘Consideramos estas verdades como autoevidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes são vida, liberdade e busca da felicidade’. Pelos últimos 243 anos, essa afirmação fervorosa dos direitos fundamentais e naturais do ser humano, à liberdade e governos representativos eleitos, definiu nossa reputação global como terra da liberdade. Enquanto Jefferson compôs suas palavras inspiradoras, porém, um menino adolescente que desfrutaria de nenhum desses direitos e liberdades, aguardava perto do mestre, para servi-lhe conforme seu capricho”.

Esse menino era parente da mulher de Jefferson, mantido como escravo apesar de ser filho do sogro do homem que viria a ser o terceiro presidente dos EUA.

Hannah-Jones conta que levou décadas para entender por que, apesar de uma vivência de linchamentos, repressão eleitoral e discriminação na carreira militar, o pai dela mantinha diariamente uma bandeira americana diante da casa da infância dela. Ainda conta que, criança, ficou encabulada quando a professora pediu que os alunos escrevessem sobre o país de origem de seus antepassados. Acabou por optar por um país qualquer africano.

“Nossos ideais fundamentais de liberdade e igualdade eram falsos quando foram escritos. Americanos negros lutaram para torná-los verdadeiros. Sem a luta deles”, escreve a idealizadora da edição da revista de 18 de agosto passado, “América teria democracia alguma”.

A revista traz uma visão multifacetada das ramificações da escravidão, chacoalhando pressuposições do leitor.

“Da escravidão — e do racismo contra o negro do qual precisava — cresceu quase tudo que verdadeiramente tornou a América excepcional”, escreve o editor desse número da revista, Jake Silverstein. “Seu poderio econômico, a força industrial, o sistema eleitoral, a comida e a música popular, as desigualdades de seus sistemas de saúde pública e educação, a inclinação surpreendente pela violência, sua desigualdade de renda, o fato que serve de exemplo no mundo como uma nação de liberdade e igualdade, sua gíria, o sistema judiciário e os medos e o ódio racial endêmicos que continuam a atormentá-lo até os dias de hoje”.

O número especial contém uma gama de ensaios, artigos, fotos e manifestações artísticas, quase tudo de autores negros, por enquanto inéditos em português. O jornal oferece podcasts, também.

Aprendemos que os escravizadores hipotecavam seres humanos, na hora de fazer empréstimos bancários. A cidade de Atlanta sofre hoje de engarrafamentos de transito por ter seus bairros e estradas traçados com o intuito de separar as raças. O ensaísta Wesley Morris descreve como os músicos brancos minam os tesouros dos músicos negros, tornando-os palatáveis para quem se incomoda com a cultura afro-americana: “Por séculos, a música negra, forjada no cativeiro, tem sido o som de total liberdade artística. Não é de se admirar que todos a roubam, o tempo todo”.

Há surpresas incômodas. Um ano antes de proclamar a liberdade dos escravizados norte-americanos, em 1863, o presidente Abraham Lincoln, que comandou a União contra os confederados na Guerra da Secessão, propôs a líderes negros emancipados, convidados à Casa Branca, a emigração para outro país, custeada pelo congresso.

“Vocês e nós somos de raças diferentes […]”, disse Lincoln, cujo apelido desde a juventude era Honest Abe. “A raça dos senhores sofre muito, a grande maioria, por viver entre nós, enquanto nós sofremos pela presença de vocês. Numa palavra, sofremos por ambos os lados”.

Um dos ensaios mais impactantes trata do breve período da história americana, pós-Guerra da Secessão, em que os novos cidadãos americanos, ex-escravos, de fato participaram amplamente na política local e nacional. Triste foi o fim da chamada Reconstrução, em 1877, quando a constelação política do país permitiu a reversão dos direitos políticos recém conquistados dos negros americanos. Em 1872, havia sete negros eleitos ao congresso em Washington (cuja sede era fixada em alicerces construídas por escravizados). Depois que o último eleito no século 19 morreu, em 1901, demoraria 28 anos até que um negro chegasse novamente ao congresso. Da região sul dos EUA, um negro foi eleito novamente ao congresso apenas em 1973.

O sul não é um vilão solitário na história da escravidão e de seu legado, a despeito do que se ensina nas escolas norte-americanas. A revista também revela as ligações financeiras e econômicas da região norte dos EUA (sobretudo Nova York, onde Wall Street foi, além de endereço da bolsa de valores, local de um mercado de escravos), tida por muitos como território abolicionista, ao sul e às plantações de algodão trabalhadas por escravizados. Há também um artigo sobre como a escravidão viabilizou o cultivo (e o consequente consumo voraz) do açúcar, de relevância aqui no Brasil.

O número especial da revista do New York Times foca também em resistências e esperança, destacando perfis de quatro advogados negros recém-formados da faculdade de direito da universidade de Howard, dedicada desde 1867 à educação de negros norte-americanos.

Seguir Nikole Hannah-Jones no Twitter é uma emocionante viagem ao furacão que é o novo debate sobre história e racismo nos EUA. Na calmaria do olho da tempestade, ela rebate constantemente as críticas com dados, informações, pensamento crítico e um alargamento de perspectiva (aqui temos uma entrevista com ela, sobre seus objetivos e sua reação às reações).

Há de tudo, entre críticas simplórias e reações ponderadas de conservadores (tratadas aqui por um dos contribuintes à revista de domingo); a revista também instigou uma fascinante troca de ideias até agora limitada ao âmbito acadêmico. Aqui, John Clegg, fellow da Universidade de Chicago, rebate o ensaio na revista de Matthew Desmond, professor de Princeton University.

Desmond afirma que a escravidão norte-americana moldou o tipo de capitalismo lá praticado; Clegg aponta o racismo anti-negro e as relações de poder entre os governos federal e estadual como fatores mais importantes do que os benefícios econômicos da escravidão para o senhores do sul e industriais do norte.

O momento para essa rica discussão é oportuno com Donald Trump na Casa Branca e uma eleição presidencial dos EUA, ano que vem. Já que americanos hoje propagam o conceito segregacionista de Abraham Lincoln, quase 250 anos depois de assinada a Declaração de Independência do país, está mais do que na hora de reexaminar seus alicerces e as instituições econômicas e políticas que regem a nação mais poderosa do mundo.

É de se admirar que os editores do New York Times, instigados por Hannah-Jones, tenham tido a coragem (alguns dirão arrogância) de desafiar o mito fundador dos EUA. A data ground zero não seria 4 de julho de 1776, mas 20 de agosto de 1619.

Enquanto os norte-americanos leem, conversam e debatem a convite de um grande jornal, no Brasil a discussão do legado da escravidão continua às margens. Isso, apesar do Brasil ter sido o país no mundo que mais escravos recebeu, quase cinco milhões, entre os séculos 16 e 19. E olha que a população afrodescendente nos EUA é 14% do total; aqui negros e pardos somam 56%.

Um holofote nos firmamentos brasileiros iria revelar o quê? Como seria uma reportagem dedicada aos impactos da escravidão aqui? Quais os efeitos duradouros e nocivos que pouco percebemos, hoje?

Seria interessante pautar artigos, por exemplo, sobre como o sistema educacional bifurcou entre os anos 1950 e 1970, nos grandes centros urbanos — uma via para pobres e negros e outra para aqueles que podem pagar o estudo particular. O que aconteceu, enfim, com as escolas públicas? Outro ensaio poderia ser sobre a disposição da cozinha de classe média brasileira e suas raízes na escravidão. Por que, ainda, a falta de conforto e facilidades?

O ensaísta inglês Perry Anderson já apontou o caminho para uma análise dos marcos constitucionais pós-Abolição, desde a perspectiva das relações raciais. Anderson vai além do problema mais óbvio da Constituição de 1988, a falta de cumprimento de seus muitos promessas. Diz ele que a Constituição atual teria sido “elaborado por uma classe política moldada sob [duas décadas de ditadura militar] […] para neutralizar a possibilidade da formação de qualquer vontade popular que pudesse ameaçar as enormidades da desigualdade brasileira, ao administrar clorofórmio às preferências eleitorais, numa miasma de competições subpolíticas por vantagens venais”.

João José Reis, professor titular de História da Universidade Federal da Bahia, autor de vários livros premiados sobre a escravidão, sugeriu numa troca de emails que um equivalente ao 1619 Project fosse patrocinado pela Folha de São Paulo ou O Globo. “No Brasil”, escreveu, “que tem a maior população negra fora da África, um projeto dessa natureza precisava ser mais conhecido e algo nessa linha talvez replicado”.

Aqui, o professor lembrou, o conceito contemporâneo de mão de obra comum — barata, pouco instruída, às vezes ainda trabalhando em troca de casa e comida — vive de raízes profundamente fincados no passado. No dia 17 de setembro, a Folha de São Paulo noticiou justamente um caso de suposta redução à condição análoga à de escravo.

Reis observa “o renovado interesse que a experiência da escravidão desperta nas discussões sobre o Brasil de hoje, onde, entre outros aspectos, ainda perdura a escravidão — ou condições de trabalho análogas a esta — nos mais diversos setores da economia em várias regiões de norte a sul do país. Assim, além do legado escravocrata ser definidor do que somos enquanto sociedade, temos a questão urgente de que essa instituição se renova como parte do mecanismo de exploração da mão de obra brasileira, inclusive de crianças”.

Agradeço as revisões cuidadosas de Liv Sovik e a foto da capa da revista, de João Carlos Nara, amigos e guias generosos.

Julia Michaels

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