Para que a festa continue, sr Medina, com certos cuidados

A empresa Dream Factory produz o Carnaval de Rua, há anos

No dia 17 de setembro passado, o empresário Roberto Medina propôs, na página de opinião do jornal O Globo, que seja criado um calendário de festas. Seria um jeito de ocupar nossos 60 mil quartos de hotel e aproveitar as novas instalações. Para mudar o “cenário difícil”, Medina quer unir a iniciativa privada, veículos de comunicação, governos federal, estadual e municipal, Ministério do Turismo, Embratur e a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis.

Fundador da agência de propaganda Artplan, Medina é o idealizador do festival Rock in Rio, desbravador dos espaços vazios da Zona Oeste. A produtora de eventos Dream Factory, que pertence à Artplan, já produziu a arvore de Natal do Banco Bradesco, a Jornada Mundial da Juventude 2013, a maratona do Rio e durante anos, com a prefeitura como cliente e a Ambev como grande patrocinadora, nosso Carnaval de rua.

Nada contra negócios na cidade grande, precisamos deles. E, quando os negócios se centram em festas, como costuma ser quando Medina está no meio, melhor ainda. É realmente, como ele diz, uma vocação do Rio — e porque não, para nosso próprio bem, compartilhar o ambiente feliz com visitantes?

Propostas empresariais devem ser sempre bem-vindas. A questão aqui é como trabalhá-las no contexto urbano.

Roberto Medina pensa nos empregos que mais festas irão criar, na renda para os cariocas e as receitas para os cofres públicos. Claro que estão em jogo, também, receitas para as empresas dele e de outros empresários.

Contudo, quem garante que essa proposta vai atender aos interesses da cidade como um todo — a cidade metropolitana?

A mídia, que veicula anúncios e notícias relacionados aos grandes eventos, vai zelar pelos interesses de quem mora, por exemplo, em Xerém, e demora três horas para chegar ao trabalho, no centro? A Câmara dos Vereadores e o Tribunal de Contas Municipal irão escrutinizar e questionar, adequadamente, as contas e contratos municipais ligados aos novos eventos?

Pós Olimpíadas, está na hora de resolver não apenas o problema de hotéis vazios, mas também, por exemplo, as falhas urbanísticas no entorno do novo BRT Transcarioca em Ramos (parte do legado olímpico), descritas recentemente no Globo.

Quem decide as prioridades?

Medina é pioneiro e herói empresarial. Porém, quando fala de segurança, está aparente seu pouco conhecimento das dinâmicas sociais do Rio de Janeiro. Se fosse a solução “um plano de criminalidade zero para a área turística usando tecnologia de ponta, câmeras, modernas técnicas operacionais de segurança pública e depois, com a entrada dos recursos, expandir o sistema para toda a cidade”, já o teríamos implementado.

Que o diga os vizinhos, policiais e moradores do Turano, do Complexo do Alemão e do Cantagalo, que convivem com tiroteios e fatalidades quase diários, nas últimas semanas, inclusive durante os Jogos. E os moradores da Baixada, onde políticos andam se matando?

Mais festas farão bem para eles?

Seria importante trabalhar a proposta de Roberto Medina dentro do contexto urbano em geral porque cada escolha que se faz tem seus custos diretos, indiretos e mais o custo de não ter gasto o mesmo dinheiro em outro empreendimento. Esses custos são pouco discutidos. Quem pode fomentar a debate é a imprensa, a justiça, nossos representantes, grupos de interesse e a sociedade em geral.

Medina parece acreditar que a segurança é basicamente uma questão mecânica com, talvez, uma dose maior de vontade política do que tivemos entre 2009 e 2013.

Mas esse nó é complexo, passando por falta de diálogo com moradores, territórios administrativos pouco integrados e concorrentes, a incorreta Guerra às Drogas, a falta de preparo e as condições trabalhistas dos policiais, corrupção e até a Constituição. Trata-se de seres humanos.

Precisamos de menos bolhas no Rio de Janeiro, não mais, como Medina propõe, tornando seguro, primeiro, áreas frequentadas por turistas.

Além de festas, empregos, vendas e tecnologia de segurança, vamos pensar em como fortalecer os pesos e contrapesos que também fazem parte do quadro, visando o bem maior: a Câmara dos Vereadores, a Câmara de Integração Metropolitana, o Tribunal Municipal de Contas e o jornalismo independente.