O nervoso que a comida me provoca

Ontem vi-me ao espelho. Nua, estiquei os braços por cima da cabeça, primeiro um, depois o outro, um passo de dança. Estiquei-me toda estilo gato e vi, de repente, assim, suavemente, o desenhar das costelas debaixo da pele. Assustei-me e baixei os braços à pressa, bati no osso da anca, também saliente. Ao consolar o cotovelo apercebi-me da barriga côncava e das coxas que não se tocam. Comecei a passar os dedos pelo corpo, com mais ou menos força, consoante doía mais ou menos, consoante sentia osso ou pele. Doí sempre um pouco… Não devia. Estou demasiado magra na verdade. Olho-me ao espelho de queixo caído.

Liguei à minha mãe umas horas antes :

Oh pá acho que estou doente…
Então?
Não tenho o período há dois meses… Mas as análises não revelam nada. Dói-me o estômago, estou enjoada. Deve ser só stress, mais nada.

Desligámos o telefone comigo a prometer marcar consulta para mostrar as análises à médica. Mas ao chegar a casa, ao passar as mãos pelo corpo, apercebi-me do que se passa.

A verdade é que eu não estou doente, talvez seja doente por vezes. A verdade é que não como nem durmo bem nem me cuido. Não consigo comer há semanas. A proteção e o cuidado comigo própria acabam por ser sempre as primeiras coisas a serem deixadas para trás no reboliço da vida. O meu corpo já não responde como antes, tendo sido obliterado por anos destes hábitos. Bebo e fumo demais. Como de menos. Mesmo com fome, não consigo mastigar, engolir e respirar. Sinto-me mal, cheia de mais e apetece-me sempre vomitar no fim.

Não tenho apetite, nem prazer em comer. Logo eu, que gosto tanto de comida… Fumo ganzas que ao menos isso dá-me fome (pareço uma paciente de quimio)… De manhã bebo batidos de proteína misturados com café instantâneo e leite. Até com isso fico cheia e enjoada, arrasto os pés a caminho do trabalho. Durante o dia, vou mastigando aqui e ali. Uma bolacha, uma trinca de bolo. Quase nunca almoço e quando saio para almoçar, como pouco ou nada, no geral, acaba tudo no prato na mesma. Começo a fazer bola de comida na boca sem conseguir engolir (já a minha mãe faz isto quando não quer comer mais), vou mexendo e remexendo o prato e quando chega o empregado, pergunta sempre “não gostou, a menina?” e eu respondo sempre, com um sorriso, “não, não, estava ótimo! eu é que não estou com muita fome”. Bebo o café e pago a conta. Ultrapasso. Vou vivendo, respirando oxigénio, expirando a nicotina, o alcatrão que me tira a fome.

Não sei cuidar de mim, mais vale admiti-lo. Não tenho respeito (será que é amor?) suficiente por mim própria para me alimentar. Também não o tenho para me organizar. Lavar a roupa e a loiça, fazer as coisas que tenho que fazer. Prefiro afogar-me na banheira com uma garrafa de vinho branco. Fuma-las e adormecer na água quente. A certa altura pergunto-me se será sempre assim…

Eu só tento engordar para que ninguém repare quão magra estou. A mim, na verdade, não me incomoda. Rodo-me ao espelho, um misto de choque e prazer por ver as costelas novamente, pela barriga côncava, a cintura de vespa apertada. Penso no meu amante novo, no quão horrorizado ficaria se, por acaso, soubesse disto. Penso nos amantes que estão comigo há anos, que me dizem que estou mais magra, que se nota na cara. Tenho que comer. Mas não penso em mim. Para mim, é-me igual. Aliás para mim, penso (num cérebro falhado) que comer é perda de tempo. Não penso na falta de energia e na falha na produtividade. Não penso no sorriso que se apaga e na personalidade que se esvai. Não penso na minha saúde e no quanto quero viver. Não penso em mim.

Tentamos, todos os dias, um pouco melhor. Falo com outros, de um lado e de outro do espectro. Aqueles que comem demais e os que comem de menos. Os que, por vezes, escorregam e esquecem-se de comer dias a fio e os que comem até vomitar por acharem que não merecem outra coisa. Apoiamo-nos uns nos outros, é sempre bom saber que não estamos sozinhos. Se não fossem eles, eu não saberia que isto é normal, seria tão isolante que poderia ser bem mais grave do que já é.

Sigo em frente, com os batidos de proteína. Por vezes, quando consigo, até junto fruta. Espero por uma nova fase. Talvez para a semana já consiga comer um prato inteiro outra vez, talvez consiga só metade. Espero, respiro fundo, corrijo o que posso corrigir e falo muito sobre isso. Aviso a terapeuta de que não estou bem outra vez, que até de hambúrgueres fujo. Ela diz-me para esperar que passe, para me obrigar a comer, diz-me que estou a fazer tudo o que posso fazer.