Um fio de carne entre os dentes

Fumo na cama.

Deito o fumo fora como quem te deita fora a ti. Com rapidez e um pingo de tristeza. Nem tive tempo, na verdade, para te mastigar e engolir. Nem digerir. Ficaste-me preso nos dentes como um fio de carne. Tira-me do sério. Que frustração!

Fumo na cama e olho para o tecto. Olho para o vazio imenso que o branco da parede promete e penso que, se calhar, um dia morro soterrada debaixo de um prédio quando vier o próximo grande terramoto de Lisboa. Penso de novo em ti e em como seria genial beijar-te enquanto isso acontecia.

Mas não, isso não.

Ponho a guarda de volta para cima, todos em sentido, soldados bem comandados que protegem as muralhas do meu coração. Protejo-me. E com calma lá me convenço que afinal voltei a saltar para o abismo sem olhar antes a profundidade. Ao menos, desta vez, a queda não foi feia. Apanhámo-nos a tempo.

Mais um bafo com mais um pedaço de ti. Nem sei que fazer. Apetece-me cuspir-te todo de uma só vez em vez de te expirar aos poucos. Bola de pêlo!

Mas para isso tinha que te consumir por inteiro até seres só cinza. Tinha que te morder, dilatar, ver-te por dentro e por fora até me fartar. Tinha que te virar e viver.

Em vez disso, chamamos as tropas. Distraímo-nos e sacamos o Twitter. Masturbamo-nos para te voltar a tornar numa fantasia. A realidade é um pouco sórdida, não achas? Viramo-nos para dentro, apagamos e reescrevemos. Nada do que é se mantém assim para sempre.

E tu, meu caro? Cá ficas. Sinto que te estou a seguir os passos contigo a caminhar aqui tão perto, lado a lado. Não é agradável, muito menos confortável. Tremo um pouco quando penso…

Apago o cigarro, já quase acabado. Expurgamos a praga com um último bafo.