Nesta hora eu não queria palmas

- mas continuem um pouco mais, por amor.

Queria antes que se comovessem com esta dor que ora exponho como relíquia ou troféu.

Esta dor que não é minha

Como tampouco é minha esta cena que agora lhes mostro

- Mas que é como se fosse.

É como se eu fosse tediosamente a dor nos olhos daquela mulher com versos nos lábios

Que encena a dor que também não é sua

Como se fosse ela própria a dor

Do poeta que esses versos escreveu.

E então eu me faço ela

Ela se faz o poeta

E já agora ele é que sou eu.

Sou eu puramente em olhos entediados no grande escuro

Mãos desterradas

Coração sem versos

Corpo desversado

Pés ao avesso

E braços revirados em cima e por fora do túmulo.

Debaixo da lápide, um corpo que não sai em público,

Um desejo que não vem à tona

E uma vontade que há de vir por último,

A de queimar todas as joias, colares, pulseiras e dentes d’ouro

Junto com o corpo que com eles se enterrou

Queimar tudo

Bem em frente daquela mulher que não me pariu

- Mas que é como se parido me tivesse.

Like what you read? Give Henrique D. a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.