Ser embuste.

se meu coração fosse um deserto,

meus pés estariam descalços sobre a areia escaldante

e estariam sujos e fatigados

e entre meus dedos haveria bolhas do tamanho de peras

e sobre estes pés eu seria todo uma mímica de mim.

Meu cabelo cairia sem forma sobre um rosto suado

E detrás deste rosto

haveria um tropeiro de sentimentos fustigados

encarregado de atravessá-los e vendê-los

pelo preço de uma vingança branca

aos meus pares sitiados lá do lado de lá.

Mas atravessar este mar de terra cansa

E me enche de uma revolta sem nome

E de uma dor que de tão desgastada nem parece dor

Parece só uma fatalidade por ser o que é,

Um fado lançado sobre os ombros

Ao peso de uma dívida que não foi paga

Nem por ele nem por ele nem por mim.

Esta dor, que nem parece dor, veio de quando não pude dizer não

De quando eu quis dizer sim e disse não

De quando eu poderia ter hasteado uma bandeira em nome de mim

Sobre a reserva de dignidade que a mim ainda pertencia

Mas não o fiz.

Esta dor, que não é dor ou não parece dor,

Foi por culpa dele e dele e de mim.

E mesmo sem compreendê-la,

vejo-a no fundo do meu gasto bornal

que de tão roto aos meus sentimentos mais puros envergonha

e por isso finjo-os, e cubro-os de pequenas invenções

– singelezas que os incautos alcunham de mentiras

mas que, por temor do desdém, prefiro chamá-los fábulas –

para que se pareçam tanto mais do bornal que lhes carrega.

Mas você, chame-os como quiser, suas fábulas também devem ser mentiras e seus sentimentos também podem ser dor.

Sei apenas que nestas fábulas me emaranho

como punhado de cordões esquecidos em caixinha de jóias

Cujos nós se atam pelo simples mover das mãos e não se desatam senão por horas

De empenho e reflexão

E a tal ponto nesses nós de fábulas me emaranho que após tantos envides

nem mais sei o quanto deles é embuste

E o quanto é puro medo de ser aquilo que sou.

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