Que crenças moldam minhas escolhas?

e o que Coaching para Mães tem a ver com isso

Somos história.

Se tem uma coisa que posso dizer que aprendi em 11 anos trabalhando com gente, facilitando processos de transição é: somos história.

Viemos de algum lugar e estamos indo para outros. Sempre em trânsito. Só paramos de nos mover quando morremos (e isso pode acontecer em vida, toda vez que estagnamos e perdemos a vontade).

Para mim, atender uma pessoa em um processo de coaching é, em essência, intervir em uma parte de sua história.

E, para que esta intervenção seja bem-sucedida, precisamos, eu e a mulher que me chega, ser capazes de enxergar:

  • Que história é essa que a contou até aqui, e para onde ela a impulsiona a ir no futuro?
  • Que forças fazem a história crescer, que forças a fazem morrer, como um ciclo?
  • Como cooperar com as forças de crescimento de cada pessoa, e enxergar um futuro potente vindo daí?

O que “crenças” têm a ver com nossas histórias e com forças de crescimento e decadência?

Tudo.

Somos e criamos situações através do que acreditamos. Sim, isso eu já tinha ouvido falar. Mas ver isso operando em cada pessoa, ao vivo, na sua frente, é algo impactante.

É como se eu pudesse contar tantas versões da minha história sobre quem sou e sobre o que eu posso ou não realizar quantas forem as crenças que filtram meu olhar sobre mim e sobre o mundo.

Como coach, vejo o poder das crenças agindo sobre a capacidade de visão e ação em cada pessoa e em mim.

Vejo em cada processo o poder que as crenças que nutrimos (a maior parte do tempo sem saber) tem para dar forma e fronteiras para o mundo que consideramos “real”.

Para nos unir e para nos isolar.

É assombroso como algo tão intangível e fugaz tem tamanho poder de materializar nossa experiência de vida.

Não há como fugir do poder das crenças.

O que podemos fazer — e aí entra a função de uma coach — é oferecer recursos para a coachee reconhecer tanto as crenças que a aprisionam quanto aquelas que a fazem crescer, ou seja, as que lhe dão sensação clara de estar “no rumo”, com poder pessoal e autoestima restabelecidos.

E ser sua parceira para que esta mulher possa tomar decisões que pavimentarão seu futuro a partir das crenças que a fazem crescer, não o contrário.

Crenças individuais e crenças sociais

Desde que me tornei mãe, optei por direcionar meu trabalho de coaching e mentoring apenas para mulheres.

Entendi, em minha própria pele, que além do meu próprio sistema de crenças eu, agora mãe, estava lidando com um outro, que se manteve desacordado em mim durante minha vida até então (embora firmemente atuante): um sistema de crenças sociais sobre o que uma mulher e uma mãe são, o que não são, o que podem e o que não podem fazer.

Entrei em contato de uma só vez com estereótipos, fôrmas sociais de crenças que achatam a experiência autêntica de ser mulher e mãe em todas as nossas possibilidades.

Faz 2 anos que fiz a escolha de me aprofundar em um trabalho de Coaching para Mulheres e apenas receber mulheres em minhas sessões; e, há 2 anos, venho reconhecendo padrões, histórias que se repetem e que unem as cerca de 100 mulheres que atendi até agora, e outras 200 com quem interagi através do Livro CGM — Coaching em Grupo para Mães e outras ferramentas digitais de coaching que criei para mães em transição.

Crenças que não são propriamente “delas” ou, melhor, nossas — mas que nos dirigem, nos causam dor e nos trazem limitações sem que tenhamos nos dado conta.

Crenças como:

  • Mulheres cuidam, são sensíveis e emocionalmente disponíveis. Sempre.
  • Mulheres sensuais sempre estão abertas para relações sexuais; se algo acontece à força, a mulher é que não devia ter provocado.
  • Ou mulheres são inteligentes, ou são bonitas.
  • Mães se doam e colocam os filhos/as em primeiro lugar, pais provêem e não participam do trabalho doméstico.
  • Mães não são produtivas e, portanto, rendem menos que homens no mercado de trabalho.
  • Licença-maternidade é sinônimo de férias extras para a mulher.
  • Quando nasce um filho, é a mulher quem tem a principal responsabilidade de acompanhar o desenvolvimento da criança.
  • Mulheres precisam competir com outras para serem valorizadas pelos parceiros, sob ameaça de serem trocadas por alguém que satisfaça seus parceiros melhor que elas.
  • Quando casadas, mulheres precisam cuidar do parceiro como cuidariam de um filho, fazendo-lhe suas vontades, independentemente das suas próprias.
  • Mães não têm libido e isso autoriza pais a terem outros relacionamentos sexuais quando elas se mostram indisponíveis sexualmente.
  • Mães amam seus filhos/as incondicionalmente.

Isso apenas para citar algumas.

É esse material que vem junto com o sistema pessoal de crenças de cada mulher que chega para um processo de Coaching comigo.

Esse material é meu também, e de tantas mulheres que vieram antes de nós, nossas mães, avós, bisavós…

São crenças duras, que existem e que são visíveis em cada história de abuso sexual que ouço de quando eram meninas (só esta semana de atendimentos, já me deparei com 3, de 3 mulheres diferentes), em cada demissão involuntária quando a mulher retorna da licença-maternidade, em cada pesquisa que retrata que, apesar de mulheres serem mais bem sucedidas em seu histórico acadêmico, são poucas as que chegam em postos de alto impacto comparativamente a homens que não tiveram tanto sucesso acadêmico assim.

Crenças sociais que precisam ser trazidas à luz para que se tornem “trabalháveis”, “transformáveis”.

Estereótipos atuantes nas histórias de todas as mulheres que atendi, sem exceção.

E que se tornam objeto de trabalho tão importante quanto as crenças individuais daquela mulher em especial.

Um trabalho de reconhecimento e transformação de crenças sociais na própria mulher que, fortalecida em sua autenticidade e capacidade de orientar sua história, se posiciona em todas as suas relações resguardando o que lhe é importante e verdadeiro.

Daqui pra frente.

Inaugurando uma nova história para si, abrindo oportunidades de novas histórias para suas filhas. Este é o propósito que guia meu trabalho.

A delicadeza do trabalho da/o coach

É bem mais fácil ver um conjunto de crenças em atividade no outro que em si mesmo.

Outro dia, em uma sessão de supervisão, minha terapeuta me disse:

Nós temos espelho para vermos nosso corpo físico e, daí, entendermos suas dimensões, limites, o que parece cair bem, o que parece não combinar. Mas, a psique não tem espelhos para se ver. Os espelhos de nossa psique são os outros. É nas relações interpessoais que temos a chance de ver nossas crenças em ação. É nos espelhos dos olhos dos outros que temos mais condições de fazer uma auto-observação, reflexão e ação para mudar nosso próprio conjunto de crenças e, portanto, nossa história.

É nas relações que temos a chance de crescer e mudar nosso sistema de crenças para um mais “nosso”, mais autêntico — se tivermos olhos para ver o que cada relação importante nos mostra sobre nossa capacidade de sermos leais àquilo que nos faz crescer.

Assumi como coach o papel de ajudar mulheres a gradualmente pautar suas escolhas por um conjunto de princípios que lhes fazem bem, que cuidam delas, compreendendo que cada crença identificada como “limitante” já cumpriu sua função em sua história e não precisa mais atuar fazendo-as repetirem o script.

Um novo roteiro para uma nova história precisa de novos princípios. Daí a importância central do trabalho de reconhecimento e renovação de crenças em um processo de mudança.

Reconhecer uma crença que não mais faz sentido e mudar para outra “mais verdadeira” para quem aquela mulher é agora significa recomeçar o mundo, mudar o sentido da própria história, recontar o passado por meio de mais uma camada de significado e abrir caminho para um futuro completamente novo.

É tudo isso!

Intervir em um processo de mudança de uma mulher me inspira profundo respeito por seu sistema de crenças: foi isso o que moldou sua história até aqui, e convida para uma aproximação cuidadosa.

Crenças são matéria-prima delicada, que merecem gentileza e firmeza no trato.

Coaching tem potencial criativo e destrutivo na mesma medida.

Trabalhar com o sistema de crenças de outra pessoa é como moldar barro no torno: qualquer movimento brusco põe a forma a perder, a deforma. É fundamental que coaches tenhamos isso em mente a cada novo processo.

Um trabalho de artesania, delicado e potente.

É assim que considero este ofício que me escolheu.

Em agosto abro o último ciclo do CGM/Coaching em Grupo para Mães de 2017, um programa de Coaching de Vida+Carreira para mães em transição. Pra conhecer mais o programa e se inscrever, veja aqui: www.ritamonte.com/cgm