O que escolhi (sem saber) quando escolhi ser mãe?
reflexões de uma mãe coach de mães

Parece óbvio, mas é sempre bom lembrar: os filhos chegam e crescem a olhos vistos.
Lembra do seu recém-nascido, e do que aconteceu com ele nos primeiros 30 dias de vida fora do seu ventre? Uma revolução, eu chamaria.
Chegou, tomou corpo, mudou de forma.
Mas, isso não aconteceu só com ele.
A gente cresce também, muda junto com eles.
Só que essa mudança ninguém vê. Muitas vezes, nem a gente que vive na pele.
Talvez esse seja um dos motivos por quê passar pela experiência materna seja algo culturalmente solitário.
Difícil ver e falar do invisível.
Meu maior interesse na maternidade é ajudar a tornar visível o que acontece com as mulheres quando se tornam mães.
Porque algo grandioso acontece.
Não somos mais as mesmas — mas, o que isso significa, na prática?
O que a maternidade faz com a gente — do nosso corpo ao nosso tempo, da nossa identidade ao nosso trabalho, das nossas paixões às nossas formas de amar?
Quem, de nós, nasce em nós através da chegada de um filho/a?
Que pergunta poética. Quase não dá pra apreender o que ela quer dizer. Mas, ó: é essa pergunta mesmo.
Há 3 anos e meio mergulhei na prática materna, quando nasceu Ivo.
Porque ser mãe é uma prática.
E o verbo da mãe, zelar.
E aí, a poesia dessa mudança invisível convive com a dureza do trabalho ininterrupto do zelar. Não dá tempo de entender o que está acontecendo com a gente no batidão do dia-a-dia. Criar um ser humano pelo qual somos responsáveis é emocionalmente exaustivo; não desligamos.
E então, te pergunto: foi isso o que você escolheu quando escolheu ser mãe?
O que você escolheu?
Já parou pra pensar no que vem no pacote, e em como você quer lidar com isso?
Esta é uma das perguntas-chave do CGM — Coaching em Grupo para Mães, programa de coaching de vida + carreira que ofereço para mulheres desde 2015. Já estamos no 7o ciclo desse trabalho, que começa no fim de agosto, com inscrições abertas.
É através das mulheres que passam pelo CGM que posso me trabalhar, em tantas questões delas, que são minhas, nossas — mulheres que estão se libertando de estereótipos que achatam a experiência potente da maternidade.
Posso dizer que só agora, com essa distância de 3 anos e meio, consigo me abrir para olhar com honestidade para esta pergunta. Idade em que meu filho é mais ele mesmo e eu, mais eu mesma, corajosamente sem saber bem o que isso significa.
Então, partilhando questões, vou usar este espaço para fazer a minha reflexão com você sobre essa pergunta. Talvez te ajude com a sua…
O que eu escolhi (sem saber) quando escolhi ser mãe?
Começando pelo começo, o fato é que tem uma nova pessoa no planeta (!!) que mora na casa que era minha e agora é nossa; que ocupa um tempo antes meu e que agora é compartilhado indefinidamente; que tem necessidades, vontades e ideias próprias, diferentes de mim e que, no entanto, é “meu filho”.
Eu vou lidar com isso, mesmo que não goste, mesmo que não me sinta capaz, mesmo que esteja esgotada.
É um fato: esta pessoa está na minha vida, e a ocupa junto comigo.
Só isso já é um baque.
Com meu filho, tenho um vínculo de vida, pra vida toda.
Pra vida toda serei sua mãe, enquanto ele cortará laços comigo para poder crescer e ganhar o mundo. (ai).
Eu vou me perder (ai), eu vou me doar (até onde?), eu vou me mover (mesmo cansada de mudar), vou crescer e esvaziar, “mãe é mar, mãe é mar”…
… Para ele construir segurança e autonomia para fincar suas próprias raízes nessa Terra, e continuar sua existência dele pra frente, não pra trás, onde eu estarei.
Haja maturidade, né? Espero tê-la pra viver isso aí que escrevi.
Conversando rapidinho com uma amiga outro dia, mãe de 2, ela me disse: “eles não são ‘meus’ filhos. Mas eu sempre serei mãe deles”.
Deu nome para o que eu sinto.
A impressão que tenho é que seguirei pra sempre zelando por meu filho.
Que, pra sempre, ele estará dentro de mim, literalmente compartilhando minha energia vital que sempre estará parcialmente alocada para ele, por ele.
Parte da minha energia vital será dele. Sempre.
Eu nunca vivi uma relação como esta em minha vida.
Como filha, eu não vivo isso com meus pais, isso de compartilhar minha energia de vida com eles, o que significa dizer:
- compartilhar meu tempo cronológico
- minha vontade para realizar coisas e fazer dinheiro
- meu sono
- meus sonhos
- meu prazer
- o tempo/espaço pra namorar
- meu corpo, desde a gestação, e os colos, e meu sangue com a amamentação…
… Tudo isso está vinculado ao meu filho.
Na prática.
Sim. Tudo isso.
Mas, eu não escolhi isso quando me abri para gestar.
Quero dizer que: eu não tinha como escolher isso quando me abri para ser mãe.
Não tinha referência pra o que seria esta “ocupação” de mim por outro, pra sempre.
E o que escolhi quando me abri pra gestar?
Acho que escolhi ser passagem pra uma nova pessoa no mundo chegar.
Escolhi ter pra sempre companhia, me sentir continuada, escolhi realizar a maior obra criativa da humanidade em mim mesma — que eu tenho disso, essa atração pelos “grandes feitos”.
Escolhas de propósito, poéticas e tão significativas pra mim.
E aí, chega o outro. O filho. Que é parte de mim e não é, simultaneamente.
E me ocupa, na prática.
Mesmo que eu tenha novos impulsos e projetos para realizar agora — eles terão de ser negociados com meu filho, que divide comigo minhas prioridades, tempo e energia.
Ainda estou construindo minhas referências sobre que mãe posso ser na prática.
Não sem luta e luto.
E também não sem me fortalecer em uma resiliência quase sem saída — ou sou resiliente, ou sucumbo na resistência à mudança.
Eles crescem. A gente cresce. Aos saltos.
E, então, o milagre: quando permito a mudança, me alargo, cresço pra dentro para caberem confortavelmente eu e meu filho.
Não sou mais a mesma, porque cresci, me desenvolvi sendo mãe.
Literalmente, expandi: pra dentro, em minha capacidade de ser desimportante para mim mesma. Libertador, isso.
E, agora, pra fora, estando no mundo de um jeito completamente diferente do que eu estava acostumada a estar.
Quero empreender de outro jeito e estou descobrindo na prática como.
Quero gerir meu tempo de outro jeito, sem peso em incluir o ócio na agenda.
Quero amar de outro jeito, descobrindo quilômetros de prazer que minha pele é, em um novo jeito de estar no meu casamento.
Para ter sempre em mente enquanto crescemos com nossos filhos/as, e construir uma maternagem que te seja saudável, listei 3 perguntas:
- O que quero compartilhar com meu filho/a?
- O que posso limitar dessa partilha toda? O que não quero compartilhar com meu filho/a? O que dá pra ser “só eu” nessa relação de vínculo eterno?
- E da pele pra dentro: como estar em paz me desocupando dele, me esquecendo dele, me esquecendo que sou mãe?
Perguntas corajosas, de pessoas que tem olhado os estereótipos de “mulher”, “mãe” e “pai” de frente, tendo a ousadia de dizerem por si: o que é ser mãe e que mãe querem ser.
Mulheres que vêm elaborar no CGM — Coaching em Grupo para Mães o que querem daqui pra frente, e como realizar seus projetos incluindo tudo o que é importante em suas vidas. Juntas.
