O que seria diferente se mulheres liderassem a vida pública e econômica?

Rita Monte

ou a fala de uma brasileira sobre lideranças femininas numa conferência global de novas economias na Dinamarca

Grupo multicultural e multigeracional de mulheres depois do meu workshop de Poder Feminino, no Retiro Internacional de Mulheres, na Dinamarca (julho/19)

Bem, eu acho que precisamos nos perguntar isso.

Recentemente, tive a chance de estar em um grupo onde quase cada mulher vinha de um país diferente. Culturas da Croácia, Rússia, Alemanha, Dinamarca, França, EUA, Austrália, Espanha, Portugal, Gâmbia, Escócia, Finlândia, Noruega, Grécia, Filipinas, Ilhas Canárias, Escócia, Porto Rico, Itália, Malta, Suécia, Brasil estavam ali falando em cada mulher, em um espectro geracional que ia dos 16 aos 70 anos. Era um Retiro Internacional de Mulheres, que antecedia uma conferência global de novas economias, para a qual fui convidada para falar. Aproveitei para chegar antes, me nutrir entre mulheres e oferecer alguns workshops para elas.

Preciso dizer que eu estava nervosa com a perspectiva de trabalhar com tanta diversidade em um só grupo. Respirei fundo e confiei que eu tinha algo para oferecer, da perspectiva de uma mulher, mãe, branca, do Brasil. O que mais me impactou, e sigo saboreando enquanto escrevo, foi ver que há algo que nos une como mulheres, uma espécie de código, que transcende barreiras culturais e geracionais, e que é poderoso.

Foi com este algo que trabalhei encarnado no corpo, por meio da dança e de movimentos intencionais que expressassem o poder feminino de cada mulher, "seja lá o que isso queira dizer". Porque uma das percepções que se comprovou ali é que como mulheres não sabemos de bate-pronto o que é ser mulher e ter poder, no íntimo de nossa relação conosco. Temos muitos exemplos e modelos sobre como exercer poder; mas, ainda não paramos para refletir, em nosso corpo-história como mulheres, se esses exemplos e modelos são os únicos a seguir, por todos nós, como se fôssemos uma massa homogênea de pessoas, sem cultura — e sem sexo.

Como a língua era uma barreira nesse grupo diverso (inclusive para mim), propus que deixássemos nossos corpos falar. Então, dançamos para nós mesmas, buscando o prazer de nos oferecer uma dança espontânea; dançamos para nós mesmas em pares, partilhando da experiência de termos prazer com nossos corpos; dançamos para a outra nos apreciar, como um convite para que a outra testemunhasse algo único, algo lindo — nós e a nossa dança. Práticas simples, práticas libertárias — sabemos que a primeira reocupação para as mulheres é de nossos próprios corpos. E o que pudemos ver com esta experiência é que existe sim um âmago do ser mulher que se expressa quando tem espaço e reconhecimento, e que transborda, unindo todas pela beleza do que é único. É bonito, é maravilhoso, todas puderam ver e pra mim poder feminino trata essencialmente disso: reconhecer a sabedoria da vida em si e, portanto, no outro, ser capaz de se maravilhar e, com respeito que brota desta postura, cooperar com o que é vivo para reconhecer problemas e desenhar soluções.

Mas, ainda estamos tateando o que pode significar experiências tão verdadeiras como esta como fonte de qualidades de lideranças femininas nos espaços de poder institucionais — famílias, empresas em seus diversos níveis, boards, partidos políticos, grupos de trabalho, conferências, academia em seus diversos níveis, poderes políticos. Estou falando de aspectos sutis do exercício de liderança — o modo como fazemos o que fazemos. Esta é a minha área de trabalho.

Não basta ser mulher e participar de um processo decisório para garantir mudanças nas dinâmicas estruturais de poder. A representatividade feminina é fundamental, mas ela também pode vir recheada de falas e práticas que sustentam justamente aquilo que se queria mudar ao incluir uma mulher em posição de liderança. Exemplos na atual política brasileira não faltam. Eles também se reproduzem em fóruns de lideranças femininas, necessários para formar mais mulheres que subam às posições de alto impacto, mas muitas vezes reproduzindo modelos de liderança existentes, usando linguagem, modo de pensar e de fazer ditos "masculinos", o pior do que um masculino pode ser: pensamento orientado para o "ataque", "destruir a concorrência" como único modo de sobreviver, crescer com metas sempre maiores que as do mês anterior (como se crescer para sempre fosse possível), ter "o outro" como inimigo, ter estratégias bélicas como linguagem e pensamento para conduzir processos organizacionais.

Prestes a ir à Europa, recebi esta mensagem de uma amiga, mulher que venho acompanhando desde 2013 como líder em sua carreira corporativa meteórica:

Penso muito a respeito do poder no nome. O poder que vem quando nomeamos as coisas à nossa maneira, quando expressamos o que está latente dentro de nós; e porque não dizer: “quando expressamos nossos potenciais” — em alusão ao nosso querido GEP (Grupo de Expressão de Potenciais). Lembro-me de nós naquele café nomeando que você estava se preparando para ir pro mundo com o seu trabalho. Imaginávamos na época a magnitude onde isso tudo iria dar?

“O papel das mulheres na transição de um mundo em crise”, “novas economias”, “poder feminino”, “que mundo pode nascer de mulheres empoderadas?”, “identidade feminina não baseada em limitações e condicionamentos culturais” — são temas de uma vida inteira em mim. São dores, lutas, resistência, vontade, paixão, disciplina e tantas outras qualidades! Que agora quero que sejam mais leves (como falamos). É ocupação. São aberturas que fizemos/fazemos em nós, abrindo caminhos para as próximas. E também para nós mesmas ocuparmos nosso lugar de honra. Dentro de nós e pra fora também.

Eu em meus ambientes corporativos hoje consigo enxergar que quando eu chego, um time é criado. Corações separados e medrosos se juntam, se fortalecem, se tornam UM TODO. Eu nunca havia visto isso antes, mas hoje vejo, olho pra trás e enxergo estes times criados quando estou presente. Eu não sei direito que mágica acontece, mas pessoas percebem, falam e eu vejo a transformação acontecendo, muito além, muito além. Na sutileza do invisível. Fico estupefata. É gigante!

Quando uma mulher se apropria do que significa ser mulher em sua história, ela começa a encarnar o que pode vir-a-ser mulher que ainda não tem validação/lugar nos espaços que ocupamos. As relações em que estamos, então, começam a se transformar. É para isto que eu trabalho.

Greta Thunberg, literalmente uma mulher vindo-a-ser que já encarna os posicionamentos de uma liderança feminina íntegra, e inspira milhões de mulheres-feitas a agir nessa direção. Aos 15 anos, ela falou a líderes globais (homens brancos, em maioria): “Não estou aqui para implorar por sua atenção. Vocês nos ignoraram no passado, e vão nos ignorar agora. Estou aqui pela Justiça Climática. E para avisar: a mudança no sistema vai acontecer, quer vocês queiram ou não”.

Empoderamento Feminino: que processo é esse?

Sou Coach para Mulheres, com formação em Direito e em Jornalismo (além de especialização em Psicossíntese e formação contínua em Fenomenologia Goetheana aplicada a mudanças sociais), o que me dá a chance de fazer um trabalho um a um com um olhar de contexto — algo que considero fundamental em qualquer trabalho, na verdade. Brinco que sou uma coach que faz um zoom in e zoom out a cada grupo, a cada atendimento, a cada consultoria.

Meu trabalho consiste basicamente em facilitar processos de empoderamento e liderança femininos. Com isso quero dizer: estar ao lado de mulheres no processo de desaprender o que é dito sobre ser mulher e que causa sofrimento (estamos falando de muita coisa), e facilitar o caminho para que cada mulher "diga" o que ser mulher é por si, profunda e genuinamente. Dentro desse "dizer" há tudo: se sentir inteira, legitimar as próprias necessidades, valorizar sua trajetória, cortar relações abusivas, abrir caminho para ocupar espaços de poder, posicionar-se em favor do que é correto para a situação. Este é o trabalho de cada uma de nós. É um processo que tem começo, mas não tem final.

Empoderamento feminino parte do princípio de que há desigualdade de poder entre homens e mulheres, e entre mulheres, se outros recortes estiverem sobre a mesa, como o racial e o de orientação sexual. Que poder está desequilibrado? Para mim, é o poder de escolher a própria vida (apropriar-se de seu corpo e seu prazer, ter acesso a oportunidades e autonomia financeira) e o poder de influenciar decisões que impactam coletivos.

Quanto a este último, puxando o fio da História, o princípio básico é este: em se tratando de processos de tomada de decisão públicos e/ou coletivos, quem está presente opinando, pensando e decidindo é em geral um grupo de homens. Em governos, em empresas, em espaços que impactam diretamente toda uma população — os âmbitos econômico, religioso e político/jurídico. Temos o fio da História como a conhecemos, especialmente nos países ocidentais, para corroborar esta leitura. “Mas na minha casa minha mãe é que sempre mandou” — quem nunca ouviu isso? Quando o único espaço de exercício de poder para uma pessoa é o âmbito doméstico (um espaço desprestigiado socialmente), quando em todos os outros espaços esta pessoa é infantilizada e não legitimada para participar, isso pode acontecer, com consequências doentias. A frase “em casa é a mulher que manda” só reforça meu argumento, e me causa arrepios.

Tenho me especializado no trabalho com mães porque é no exercício da maternidade que muitas dinâmicas de poder distorcidas entre os papéis de "homens" e "mulheres" se encenam. É também na maternidade que uma das maiores potências do que é ser mulher se expressa: o poder literal de criar vida nova em si, para si e para o mundo. A qualidade de "posicionar-se em favor do que é correto" do que eu estou chamando de liderança feminina é explícita nas mães, que têm a clareza diária do quanto é necessário avançarmos como sociedade para cuidarmos das novas pessoas que estão chegando.

Muitas mulheres chegam em meu consultório atordoadas com as experiências: "sou eu quem tem que pensar em tudo em casa, isso parece dado, não dá nem pra falar sobre isso", "me sinto sozinha, sou invisível", "só consigo pensar em pedir demissão, o esquema de trabalho que estou me força a abrir mão de acompanhar o crescimento do meu filho", "estou fora do mercado desde que me tornei mãe e agora não sei mais se sou competente", "ele não desmarca compromissos de trabalho para ficar com as crianças", "dependo financeiramente de outra pessoa pela primeira vez na vida", "me sinto culpada por desejar a vida de antes de ter filhos". Experiências muito comuns, e que estão anos luz de distância da potência que criar um ser humano, no ventre e fora dele, significa ~se houver coragem para vivê-la e apoio para elaborá-la. Se não ficou claro até então que somos formados todos em uma cultura patriarcal, ser mãe e ser pai nos mostra isso de maneira escancarada. Por ser uma tomada de consciência tão grande, maternidade e paternidade são também incomparáveis gatilhos de transformação — os casais que conseguem atravessar essa arrebentação patriarcal conseguem, de fato, ser células de outro modo de relação homem-mulher que não está pautado por poder-sobre o outro, mas de poder-para serem quem são e realizarem feitos juntos, como criar os filhos por exemplo. Da oposição à parceria. E isso tem um potencial enorme para o corpo social.

Em virtude do que tenho feito no Brasil junto com mulheres e homens, em julho de 2019 fui convidada para participar de um encontro global de pensadores e empreendedores de novas economias, no interior da Dinamarca. Empoderamento e lideranças femininas têm relação direta com o modo como criamos e circulamos riqueza. E as mulheres que se tornam mães são a engrenagem de nosso sistema produtivo, pelo menos até agora. É preciso falar de novas economias com o filtro de gênero: descobriremos um novo olhar para os problemas — e novos caminhos de solução.

Um sonho de futuro? — Poder Feminino na Dinamarca

E assim, cheguei na Dinamarca.

Entrei no país por Copenhagen. Tudo é lindo e tudo funciona — na verdade, beleza é sinônimo de funcional ali. O design dinamarquês, entendido como um modo de pensar, é mundialmente louvado. Entendi na prática por quê.

Vista da Biblioteca Pública de Copenhagen, na "orla" que é pura mobilidade: gente a pé, de bike, carro, barco.
Bairro turístico deslumbrante de baladinhas
Centro de arquitetura (tipo um Sesc), que inclui espaços para as crianças e adultos relaxarem — na fachada
Um dos diversos equipamentos urbanos para as crianças usufruírem. Na "orla" da cidade.

Fiquei bem atenta para me afetar pelo contexto do país que receberia esta conferência. A primeira coisa que precisei me perguntar imersa em Copenhagen é: empoderamento feminino faz sentido na Dinamarca? Como falar desse tema, onde estão as tensões na cidade, entre as pessoas? Seria Copenhagen um exemplo de cidade onde mulheres e homens estão em balanço, representados nesse design todo? Um design que resolveu demandas como as que temos em São Paulo — por incluir mulheres, mães, crianças e pais no planejamento urbano e acesso a serviços públicos e privados? Mas, ainda assim, um design sem lugar para curvas, para o mistério, para o convite a uma pergunta aberta, não resolvida, mas impulsionadora de novos questionamentos… Algo como o que Gaudí fez na Espanha com prédios e catedrais…. Dinamarca não foi por esse caminho para sanar demandas sociais. Em termos de parentalidade, por exemplo, eles dividem bem o ônus e o bônus de criar as crianças. Dá pra ler como eles dividem a licença parental aqui. É tudo lindo e resolvido. Mas, considerando aspectos sutis encarnados no comportamento estético das cidades que visitei por lá, continuo inquieta: há equilíbrio de poder entre homens e mulheres nesse tipo de sociedade? Ainda não sei responder.

A conferência chamava The Coming Storm, e meu talk foi intitulado O papel das mulheres na transição de um mundo em crise. Eu sugeri este tema, e foi muito bem aceito. O que me disse que há espaço para questionar a crise global que vivemos do ponto de vista de gênero.

O que eu não poderia imaginar é que o ponto de vista de gênero, este recorte transversal a qualquer situação social (e por social eu também quero dizer empresarial) ainda é novo, mesmo numa conferência global de novas economias.

Meu talk sobre lideranças femininas na conferência The Coming Storm. Foi a única palestra em círculo (que eu abri), formato em que todos nos vemos e todos somos co-responsáveis pela qualidade das falas, que podem ser trocadas, em vez de terem uma direção unilateral (palestrante-platéia).

A conferência teve 5palestrantes mulheres na programação oficial, de um total de 22, fora as inscrições que aconteciam espontaneamente como um open space, mas que não tinham tanta força.

Eu fui do Brasil para o interior da Dinamarca especialmente para fazer esta fala. Fui patrocinada em parte pela conferência. Mesmo assim, no dia em que ela aconteceria, o líder da programação a retirou da sala principal, sem me consultar, e a colocou em um espaço "menos privilegiado", sem infra adequada. Eu fui falar com ele, e disse: "bem, eu poderia falar no novo espaço que você me alocou. Mas, isso dá a entender que gênero e o papel das mulheres não é um assunto de economia, é um "assunto de mulheres". Se for essa a mensagem que você deseja passar, então sugiro que avise todos no microfone que você alterou a programação de uma palestrante convidada e patrocinada, e que esta é a razão. A não ser que não seja".

A palestra se manteve no main hall.

Ela aconteceu no penúltimo dia de conferência, o que significa que pude assistir quase todas as falas antes de me posicionar com a minha. Refiz a narrativa 5 vezes. E o que escolhi apresentar foi em diálogo com a falta de perspectiva de gênero para todas as falas até ali.

Eu não sei se preciso dizer sobre o que é esta "tempestade que se aproxima", a crise em que estamos vivendo. Centenas de estatísticas mostram um mundo em profunda desigualdade social e econômica. Aqui no Brasil é fácil de ver diariamente, nem tanto na Dinamarca. Mas os números continuam a nos apresentar um mundo dividido entre os que têm e o que não têm, em que a biodiversidade crucial para a vida do planeta como florestas, abelhas, água doce e combustíveis fósseis vai se esgotar em muito breve, problema que a próxima geração precisará enfrentar como realidade.

Um mundo resultado de um certo modo de pensar, agir e tomar decisões.

Liderado por homens.

"Qual o papel dos homens em achar saídas para esta crise? Bem, eles já tiveram um grande papel em destruir o planeta".

Este foi o meio da minha fala na conferência.

É uma fala dura, que pode ser lida como simplista e colocar mulheres numa posição superficial de "imaculadas salvadoras" — centro da crítica que recebi por lá. E não discordo desta crítica.

Continuo assumindo este risco de leitura colocando esta fala aqui. Porque ela é um recorte real. Não é pessoal, é histórico. E é tão básico que parece ser invisível. É uma leitura sobre a crise que deixa de ser feita, como se não tivesse importância. Mas, tem. É um baita elefante branco na sala.

Em março, fiz uma turnê de palestras sobre equidade de gêneros no interior do Brasil, para uma mineradora. Falamos com muitos homens e mulheres. Parte do programa era fazer os talks em dupla com um homem, que falaria do lugar dos homens sobre equidade de gêneros. O que significa fazer falas que reconheçam que a balança pende para os homens quanto a divisão de poder. Eu indiquei este parceiro, amigo em cujo trabalho confiava, embora nunca tivéssemos trabalhado juntos antes. É um homem bastante empático com as dores das mulheres, e que faz muito sucesso com o público feminino. Nosso processo de afinação foi uma das coisas mais interessantes de todo o trabalho. Na véspera da primeira palestra, já no Rio de Janeiro, ele me perguntou o que deveria falar. Eu disse:

Não é para as mulheres que você deve falar — eu falo com elas. Você fala com os homens. Você precisa sentir a dor de ser o machista em revisão que você é. E falar com homens a partir do machista em revisão que você é. Se você for capaz disso, sentir as dores disso, e contar as suas histórias, então faremos uma boa dupla. Porque os homens se verão em você, e é para isso que você está lá.

Conto essa história porque falar sobre equidade de gêneros tem demandado que voltemos os olhos para as nossas histórias como mulheres e homens e, portanto, para as nossas dores. Posso dizer que esse meu parceiro foi mudando a palestra dele — acho que foram umas 6 alterações ao longo da turnê — e muito em virtude dessa tomada de consciência: onde dói ser homem em uma sociedade patriarcal?

E posso dizer também que eu tive um papel fundamental nesse processo dele, nosso. Sendo mais literal, como mulher, tive um papel fundamental na afinação de nossa relação profissional homem-mulher, e na revisão dele de algumas atitudes. Ao final do último dia de palestra (num total de 7 dias), ele me agradeceu. Antes disso, tensionamos. E só fizemos desta tensão algo criativo porque sustentamos o desconforto, dialogando muito.

Eu costumo dizer que falar de equidade de gêneros como mulher é algo pessoal, porque essas situaçõezinhas que acontecem como a que relatei com o coordenador da conferência, como se nada, não são nada. Elas acontecem rapidamente, incontáveis vezes num dia, e é preciso estar muito atenta como mulher e como homem para interceptar o momento em que elas acontecem, e fazer diferente.

Final da minha apresentação, e diversos grupinhos pipocaram espontaneamente, para continuar refletindo. Foi a única palestra em que isso aconteceu.

Para um homem dizer sobre o que dói e como dói estar em uma posição de privilégio que o leve a mudar a programação de uma conferência "porque pode", custa um tanto de energia e prática de auto-observação. E, para mim, isso só vai acontecer se ele reconhecer o preço desse poder masculino — tudo aquilo que ele foi ensinado sobre como ser poderoso, o que inclui não se conectar com a própria sensibilidade, e tudo o que decorre dessa razão sem sentir, essa racionalidade sem lastro com cara de "objetividade e eficiência", esse mundo em crise em que estamos todos enfiados.

Historicamente, mulheres zelam pelos valores que hoje são definidos como as inteligências emocionais "dOs" líderes do futuro. Botemos os pingos nos is: são qualidades e inteligências femininas as que agora estamos reconhecendo como fundamentais para um futuro tecnológico — e, a não ser que sejam incorporadas radicalmente, poderemos continuar excluindo a maior parte da população planetária. São inteligências como empatia, pensamento crítico que inclua o sentir, flexibilidade cognitiva (sustentação de diversos pontos de vista), orientação para servir, inteligência emocional, coordenação com outros, criatividade, resolução de problemas complexos.

Não significa que agora as mulheres precisam dominar os espaços de poder, e fazer algo como o filme Eu não sou um homem fácil mostra, um matriarcado, a inversão de papéis dentro dos valores do patriarcado (embora seja um ótimo filme pra reconhecer as situações bizarras em que homens e mulheres vivemos nessa cultura). Mas significa, sim, que para fazer algo novo, é preciso parar de fazer nos moldes como temos feito. O que implica não só aumentar o número de mulheres no poder, mas qualificar essas lideranças femininas para que não achem que precisam trair essas inteligências "do futuro" (que são bem ancestrais) para terem voz. Por exemplo, recentemente, saiu um estudo sobre como seria uma “gestão feminina” — o que as mulheres mudariam em seu local de trabalho, e alguns pontos de atenção alterariam profundamente o modo como produzimos riquezas — como “mais ética”, “trabalho compartilhado”, “sem disparidade salarial” e “dar muita importância a filhos e pais”. Um jeito feminino de ler problemas e encontrar soluções.

Seguimos, um passo por vez.

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Entre agosto e setembro de 2019, darei 3 aulas online sobre o que ofereci no Retiro Internacional de Mulheres e na conferência The Coming Storm. Você pode adquiri-las para participar delas ao vivo online, e também para ver quando puder. Adquira aqui!

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Rita Monte

Written by

Por mais mulheres apropriadas do brilho que nossos filhxs enxergam na gente. www.ritamonte.com

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