Pra ter mais um filho, preciso garantir que não cuidarei dele sozinha

quando criar filhos e tecer comunidades se tornam sinônimos

Quase não dá pra ver a comunidade nessa foto. Mas, acredite: essa terra foi cenário de um dos muitos almoços coletivos de famílias que se frequentam e se cuidam, em Ubatuba — um almoço que tive o prazer de participar, numa segunda-feira à tarde… ❤
“Para decidir ter mais um filho, eu preciso consultar primeiro outras 5 pessoas que, comigo, vão se responsabilizar por criar esse filho”.

Foi o que uma amiga me disse, em uma conversa de 2 minutos. Ela, mãe solo de dois, me falava sobre o que aprendera nessa jornada de dupla maternagem sem o apoio diário do pai das crianças. Certeira.

Honestamente, é nisso que estou pensando ao sonhar um segundo filho/a.

Meu impulso é chamar uma conversa com avós, tios e alguns amigos/as mais chegados e dizer: “‘ó, galera, seguinte: tem um bebê querendo chegar, mas ele/a só vai vir de mim e do Victor se vocês garantirem que estarão presentes na criação e nos cuidados do bichinho desde o começo, valeu?”. E garantir presença não significa quebrar um galho. Significa estar lá, assim como eu e meu companheiro estaremos. Sem diferença.

Não duvido nada de fazer essa conversa, pensando bem.

Embora saiba que ela ainda é inusitada, pra dizer o mínimo, em nossos círculos sociais.

O fato materno ainda é seguido de isolamento, solidão e hiper-responsabilização da mãe pela criação dos filhos/as. Criar um filho/a da porta de casa pra fora, buscando vínculos com a cidade, com os vizinhos/as, com a escola, para além da própria família, ainda é uma solução “criativa”, quase inconcebível, para muitas mulheres.

De tantas histórias que vejo nos atendimentos em Coaching para Mulheres e no CGM — Coaching em Grupo para Mães, posso afirmar que o “pensamento comunitário” passa longe — a premissa de que é preciso uma vila para criar um ser humano, e de que é insano criar um filho/a sozinha ou apenas no núcleo familiar. Pedir ajuda, buscar grupos de famílias que estão vivendo o mesmo que você, participar de encontros de cuidados compartilhados, circular pela cidade em bando de mães-bebês… Isso ainda é um movimento que pouquíssimas mulheres se permitem viver.

Eu fui dessas que buscou comunidade quando nasceu Ivo.

Foi natural pra mim.

Do que observo, um bebê é gregário por natureza. Atrai olhares, mãos, colos e também palpites, achismos, medos alheios.

Não me fazia sentido ficar sozinha em casa naquele começo de maternidade. Senti a solidão. Mesmo dividindo os cuidados com meu companheiro. Mesmo assim, me sentia "encavernada" demais. Então, me abri para conectar com outras pessoas que estavam vivendo o mesmo que eu.

Moro em São Paulo, mas, rapidamente, essa cidade que é um país se transformou em uma comunidade cheia de pessoas íntimas: a princípio, feita pelas mulheres que pariram com a mesma obstetriz que eu.

Logo, essa comunidade se expandiu para os homens pais dessas crianças, as famílias que se criaram ou que expandiram. Estou relatando o começo desse meu movimento de me conectar com o mundo como mãe, um momento em que eu e essas mulheres estávamos em licença-maternidade (no meu caso, não remunerada, nem formal, porque sou empreendedora e… Foi assim que foi).

E então todo dia tinha programa para povoar a cidade de mães-bebês à flor da pele, que se encontravam para elaborar o que estava rolando da pele pra dentro através da relação intensa de cuidados diários e madrugais dos nossos bebês. Nossos medos, exaustões, aprendizados, momentos de graça e pequenos milagres cotidianos… Que tempo bom.

E de fim de semana tinha almoço estendido dessas famílias que se encontravam pra aliviar a labuta de cuidar sozinhos das crias ao longo da semana. Se cuidar de um bebê é difícil, juntar 5 deles e 10 adultos torna a coisa bem mais leve e fluida. Foi isso que descobrimos na prática.

Essa experiência mudou meu ponto de partida ao pensar no que significa cuidar de uma criança. É insano pensar que toda a responsabilidade recai sobre o núcleo familiar onde ela nasceu. Não. Uma criança recém-chegada no planeta, gregária como é, merece criar vínculos de qualidade com outros adultos/as que lhe cuidem, que zelem por ela como anfitriões, como quem já está por aqui há mais tempo e recebe quem está chegando com atenção. E vice-versa: descobri que é um privilégio me conectar com as crianças de outras famílias, cuidando delas como se fossem filhos/as. Acompanhar o crescimento das crianças que crescem junto com meu filho, e ser uma referência de confiança na vida delas, é especial demais.

Agora, pense no nível de intimidade necessário para se vincular assim à criança e à família.

Para mim não há prazer e sentido maior em me relacionar se não for com intimidade. Coisas que valorizo e que nem sabia serem importantes pra mim na criação do meu filho, por vezes foram postas em xeque por esses amigos/as, me fazendo ver melhor meus valores em transição… Outras vezes, fui eu que choquei, hahaha… E nada como uma boa conversa olho no olho, e uma escuta generosa, para chegarmos a novos entendimentos sobre nós. Através da convivência com nossos filhos/as. Amizades fortaleceram assim. Hoje, confio em alguns amigos/as como cuidadores do meu filho que são tão zelosos como eu. E eram pessoas que eu não conhecia até 3 anos atrás. Isso é precioso.

A impressão que tenho, que está bem forte, é: nasce um filho e, junto com ele/a, um mundo recomeça. Imagina adentrar no mundo novamente, só que com bagagem? Foi assim que me senti quando Ivo nasceu: todo um mundo novo, interessante, se abriu. Musicalização de bebês, Dança Materna, Cinematerna, Slingada, Consultas Pediátricas Coletivas, Rodas de Pós-Parto, Atendimentos Psicológicos Coletivos para Puérperas, Buxixo de Mães e encontros das Buxixas do bairro, Barro Molhado e seus encontros de Reflexão sobre a Prática com as Crianças, Encontros com a Ana Tomás, o coworking familiar Casa de Viver, projeto Leve, Coruja Musical, Coruja Molhada, Rolezinho, Casa Barro, nossa, muita coisa.

Eu saí experimentando, e me conectei com aquilo que me chamou mais. Acabei aprofundando minha presença em um grupo de cuidados compartilhados que nasceu do movimento Barro Molhado, e que acabou gerando a primeira escola que vivemos com Ivo, o Ori Mirim (em si, também uma comunidade de famílias). Acabei abrindo meu próprio espaço de fortalecimento da mulher-mãe, o CGM — Coaching em Grupo para Mães, e acompanhei o surgimento da Jornada do Pai, uma série de rodas de pais facilitada por meu companheiro, ao lado de seu parceiro Rodrigo Bueno (pai de gêmeas) e do pediatra Cacá, e dos grupos de Paternidade Ativa que Victor segue sendo parte e, às vezes, protagonista em algumas rodas e palestras.

Fora que eu mesma encontrei amigas pra vida inteira num grupo de maternidade do facebook (!!!), e viraram minhas confidentes da vida, com quem posso me virar do avesso e ser a melhor e a pior de mim simultaneamente porque sei que vai haver escuta, espelhamento, impulso pra crescer vindo delas. As amo. Mulheres que quero ter por perto, pra sempre.

Foi tudo isso que Ivo atraiu, gregário como toda criança é, há quase 4 anos.

Hoje, o que é chamado de Rede de Apoio é, pra mim, uma família expandida.

Eu busquei essas pessoas, e as deixei entrar em minha vida e na do meu filho.

Relaciono-me com elas me colocando à disposição pra dar aquele apoio sempre que precisam, e vice-versa. Ficando com as crianças, fazendo jantar coletivo depois da escola, dando banho e fazendo festa do pijama. De domingo a domingo. Com intimidade. Assim, nos cuidamos.

É uma construção. Não é ligar só quando precisa. É construir uma convivência. Que é muito prazeirosa.

E, ainda assim, para ter o segundo filho/a, me vejo com necessidade de confirmar a disponibilidade da rede de apoio onde estou. Como se esse filho/a que vai chegar fosse chegar entre todos nós. Vem através de mim e do Victor, mas se relacionará com todos. Como cada um quer e pode se vincular com essa criança, e facilitar seu crescimento? Uma bela pergunta para uma bela conversa. É nisso que eu acredito. Vai ser uma conversa interessante. Depois, escreverei sobre ela.

Por fim, se eu puder te dizer uma coisa aqui, de mulher-mãe pra mulher-mãe, é: não perca a oportunidade de se conectar com outras famílias em seu próprio processo de se tornar mãe. Ser mãe não tem manual, e fica bem mais leve e interessante unindo-se a pessoas que estão vivendo coisas parecidas. Tecer comunidades também não tem manual — embora haja alguns por aí, hehehe… Amizades podem brotar, novos pontos de vista, novas possibilidades e, mais importante: nossas mãos se multiplicam para fazer o trabalho invisível de criar nossas crianças. Rede de apoio se tece, e começa com seu movimento de abertura. Por aqui, funcionou.

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