Se para as mulheres é preciso desconstruir a ideia de mãe, para os homens é preciso construir a ideia de pai

Rita Monte
Sep 5, 2018 · 9 min read
foto do evento PAI: Desafios da Paternidade Atual, do qual participei em agosto/2018. (crédito: lhsimonetti)

Este foi um insight de sessão. Eu estava ouvindo uma mulher dizer sobre como se sentia em quase 5 anos de maternidade ativa em relação a seu marido, que priorizou seu tempo para prover trabalhando fora, em detrimento de estar com a família.

Ela dizia: “ele está fazendo seu melhor. Ele trabalha desde os 10 anos e, agora que é pai, reforçou uma crença de que ele só pode dar certo trabalhando. Eu sei que ele está fazendo o melhor dele, mas isso não me impede de me sentir exausta, sozinha, sem parceria e presa na minha própria vida. Como eu posso me sentir assim sendo mãe da pessoa mais preciosa da minha vida, a minha filha?”.

No mesmo dia, outra mulher me dizia em sessão: “a gente divide muito lá em casa, ele é bastante presente. Mas, tem uma coisa que eu reparei: eu não desligo. Eu vejo que ele consegue relaxar no sofá quando nossa filha está dormindo, mas eu não: sempre estou ligada organizando mentalmente como será a semana, os esquemas para nossa filha ficar coberta enquanto nós estivermos trabalhando, o que precisa comprar no supermercado, a roupa que precisa lavar à noite para estender antes de dormir. Eu fico esperando sempre ele tomar essa iniciativa de pensar também. Mas, ela não vem. E eu não desligo”.

Minha devolução para ambas foi: o que aconteceria se você deixasse de fazer?

Porque se a ideia de ser mãe é também ser dona de casa que lava, passa, cozinha, faz supermercado e também ser planejadora da agenda da família e também ser a pessoa que se envolve com a escola e também a mulher que se realiza profissionalmente e também ao além… Essa conta não vai fechar nunca. E a sensação será a de sempre estar devendo.

Mas… Devendo para quem?

“Eu sinto que minha vida acontece nos intervalos em que não estou com minha filha. E isso nunca é suficiente. E me sinto extremamente culpada ao me sentir assim. Não sei o que fazer”, arrematou a primeira mulher.

A resposta para sua angústia é complexa, mas passa necessariamente pela construção do lugar do pai na criação dos filhos.

Me parece que enquanto o lugar da mãe é exageradamente louvado, falado, como se todos soubessem do que se trata (e, portanto, não havendo razão para se questionar), enquanto "a mãe" habita um lugar imaginário com pouquíssima aderência à realidade da maternidade, o lugar do pai é simplificado à imagem do provedor. Ou do menino que não cresceu e "de quem precisamos rir" quando tenta lavar uma louça ou varrer a casa, porque não fará direito. Ao contrário da imagem idealizada da mãe, esta imagem do pai encontra ampla aderência na vida do dia-a-dia. Na prática da parentalidade, a mãe acaba ocupando um lugar enorme nas dinâmicas com as crianças, e o pai…. O pai está fora. O pai está vazio de sentido. Para que serve o pai?

Homens que são pais sabem responder esta pergunta?

É uma pergunta dura. Mas, que abre toda uma avenida de reflexão.

Em agosto, eu fui a um evento onde a reflexão sobre a paternidade era o foco.

Eu fui falar no evento PAI: desafios da paternidade atual 2018.

O convite veio pelo Papo de Homem, plataforma de conteúdo e consultoria empresarial que atua há 11 anos ativamente na construção de novas masculinidades que não sejam tóxicas.

casa cheia de homens dispostos e sedentos por trocas sobre o que é ser pai, hoje. (crédito: lhsimonetti)

Foi um dia inteiro dedicado à troca de experiências, informação e reflexões sobre como ser homem e pai em uma cultura que nos formou machistas.

Do convite até o evento, foi 1 mês em que eu fiquei mastigando muitas perguntas:

O que os homens estão vivendo com a paternidade?

Como suas rotinas, agendas, prioridades têm ou não mudado depois de terem filhos?

Eles têm questões, angústias, dilemas? Quais?

A paternidade os têm transformado como homens, na relação com as crianças, com suas mães/pais e com suas parceiras?

Do que os homens têm aberto mão quando se tornam pais?

Eles têm se posicionado defendendo uma paternidade presente frente a seus chefes e parceiros de trabalho? Têm contribuído quando vêem mulheres lutando por mudanças nas condições de trabalho em suas empresas?

E onde (e em quem) eles estão se apoiando para praticar uma paternidade diferente do modelo pai provê/mãe cuida?

Foi com essas perguntas no horizonte que construí um tanto da minha fala, que foi sobre "O que grupos de pais podem aprender com grupos de mães" — e que acabei puxando para a síntese: temos o que trocar uns com os outros, homens e mulheres? Sobre o que queremos falar quanto à nossa maternidade e paternidade?

Fui muito curiosa para saber se o que eu ia falar interessaria aos cerca de 100 homens de diversas cidades, idades e experiências com a paternidade.

E interessou. E muito. Recebi feedbacks lindos. Senti que minha fala chegou, e que trocamos.

Fiquei o evento todinho. Vi e ouvi muito. Fiquei impactada.

roda de trabalho coletivo sobre "dicas e estratégias de sobrevivência de pai para pai". (crédito: lhsimonetti)

Minhas 6 principais impressões sobre o evento:

Há homens que querem se vulnerabilizar e se transformar através da experiência paterna. E estão sedentos por espaços seguros e estruturados para isso.

Há homens que querem elaborar o que é ser pai agora. E isso não era necessidade explícita há uns 15 anos.

O que a atual geração de pais em transição mais quer, em comparação com as referências que tinham sobre paternidade (começando por sua própria experiência como filhos), é criar vínculo com seus filhos desde o começo da vida. E, para isso, entendem que precisam estar nos cuidados diários, além de reservar tempos para estarem sozinhos com as crias.

Elaborar a paternidade, para esses homens, tem levantado mais questões sobre como agir com a criança (educação parental) e como dividir o trabalho de cuidar com as mulheres, e menos questões de auto-transformação: como se rever em sua identidade como homens, do que precisam abrir mão agora que são pais para que algo novo surja, quais as novas atitudes em relação às parceiras, na dinâmica homem-mulher, entre outras.

Homens sabem muito pouco sobre suas parceiras. Sabem muito pouco sobre como elas recebem os impactos da maternidade em seu âmago, e como se transformam com isso. Pouquíssimo se falou sobre o que acontece com a mulher quando se torna mãe, do ponto de vista social, individual e conjugal. Quase nada se levantou sobre a desconstrução e reconstrução de identidade feminina. Pouco se questionou, pouco se viu sobre a mudança da mulher. E, portanto, pouco se pensou sobre: se ela muda tanto, como eu mudo também? [para saber um pouco mais sobre o que estou falando quanto à transformação da mulher e como se relacionar com isto, te convido para ver o mini-doc Força Matriz]

Quase não se falou sobre as mulheres na construção da paternidade: o que temos a trocar? A dizer, a aprender sobre sermos mães com os homens que são pais dos nossos filhos — e vice-versa? Maternidade e Paternidade se constroem em relação (por existência e por ausência), mas quase nada se falou sobre isso. Precisamos trocar muito mais entre nós.

eu e meu guri falando na mesa "O que os grupos de pais podem aprender com os grupos de mães?". (crédito: lhsimonetti)

Como coach para mulheres e mães em transição, trabalhando com desconstrução de estereótipos de gênero especialmente na maternidade, posso afirmar: este é um caminho relacional. Uma maternidade potente tem a ver com uma paternidade potente. E com isso quero dizer: ambos, homens e mulheres, nomeando o que é ser pai e mãe a partir do que é mais significativo para si, e fazendo o que lhes cabe para que a criança cresça bem, nada menos e também nada mais (no caso das mulheres, principalmente).

Se homens não tiverem acesso a espaços de apoio e reflexão que os impulsionem a construir uma ideia e uma prática do que é ser pai diferente dos modelos masculinos disponíveis, só a libertação das mulheres com relação à mãe idealizada não será suficiente para causar uma mudança consistente em direção à equidade de gêneros, em direção a uma prática de paternidade e maternidade realizadoras.

Ouso falar algo além disso, que parece óbvio — e, por isso mesmo, me parece necessário ser dito: é a mudança dos homens que trará uma reconfiguração nas relações sociais entre homens e mulheres, dentro e fora de casa, na criação dos filhos/as, no trabalho, na política.

Não é uma mudança feminina.

Há um protagonismo masculino urgente aí.

falas, escutas, proposições. agora é ir pra ação, em casa. (crédito: lhsimonetti)

Quem está com o privilégio precisa se mover para fazer diferente. Mas, com qual motivação?

Eu acredito (porque vejo diariamente) que a força de um rebento, a atração que um filho exerce para que se fique em redor dele, a abertura para se renovar na relação com alguém que acabou de chegar no mundo, fornece motivação arrebatadora para a mudança. Não é uma mudança qualquer: é o que acontece quando atendemos ao convite irresistível que um filho/a nos faz: “mãe, pai, sejam tudo o que vocês podem ser, assim como vocês desejam isso para mim”. Uma revolução.

Não só eu vejo isso, mas a paternidade foi elencada como um dos 7 gatilhos de mudança masculina em direção à equidade de gêneros pela pesquisa Precisamos Falar com Homens?, realizada em parceria do PdH com a ONU Mulheres em 2016. A pesquisa quali e quanti foi feita com mais de 20 mil respondentes de todo o Brasil, e gerou um documentário poderoso.

Mas, como facilitadora de processos de mudança, eu sei que isso por si é pouco. É necessário espaço estruturado de acolhimento, escuta e proposição de novas atitudes para sustentar o processo de mudança — grupos de homens, programas voltados à desconstrução de estereótipos masculinos, um CGM — Coaching em Grupo para Mães voltado para pais… ;-) Espaços insistentes, repetitivos, de acompanhamento de uma transformação que acontece gradualmente.

Tão importante quanto é haver mais espaços seguros de escuta, diálogo e reconexão entre homens e mulheres para elaborarem a construção da paternidade e da maternidade juntos, sendo casais ou não. Rodas mistas, podcasts, um evento PAI com mais espaços para trocas entre mães e pais.. Eu e meu marido Victor Farat facilitamos juntos um trabalho para pais e mães, chamado Entre Nós. É sempre muito rico, curador e gerador de novas possibilidades para homens e mulheres que estão vivendo a experiência de criar filhos.

Quanto mais escuta, apoio e diálogo para homens se reverem e construírem uma imagem significativa de pai, melhor para todos nós.

Algumas falas inspiradoras ditas por homens em suas reflexões… Uma ponta de protagonismo masculino surgindo…

Converse com seus filhos olhando nos olhos: este é um caminho para desconstruir a paternidade antiga.

Reservar momentos particulares para estar com o filho e aprender sobre ele. Sou pai ha 9 anos, mas só fui conhece-la há 4, quando separei. E eu achava que estava fazendo tudo certo, provendo, cuidando, mas não: se doar e se dedicar à criança pra saber quem ela é. Esse foi o meu maior erro.

Este é o principal desafio: conhecer bem o seu filho. Ter um momento só seu e da sua cria, para criar intimidade para conhecer seu filho.

Mostrar para a criança que pai também erra. Se o pai nunca chora na sua frente, depois quando ele chorar, acabou.

Não é ajudar, mas como a gente faz pra não cair nisso?

Nesse medo que vivemos sobre como se portar na gestação e nascimento, temos que buscar conhecimento: em grupos, workshops, textos.

Trocas de ajuda: não pode ter protagonismo na tarefa para haver a coisa da ajuda. Precisamos chegar em tarefas e papéis claros. acordos claros. E alternar funções. Para o pai poder experimentar um cuidado completo, e sair do basicão do superficial. Eu chamo isso de gestão colaborativa do bebê e da casa.

Dividir tarefas, sentimentos e preocupações. Não só tarefas.

Eu queria ser cuidado por minha esposa no pós parto.
Mas, não, não tinha a ver.
Mas, esse pedido é legitimo.
Como equilibrar a dinâmica dos cuidados?

Filho é prioridade, mas precisamos prestar atenção em nós também.

Ter o cuidado de incluir amigos ao redor do casal. Fortalecer a rede de apoio que vai nutrir o rebento e o casal.

um pouco da vibe do encontro. foi bonito, gente. (crédito: lhsimonetti)

    Rita Monte

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    Por mais mulheres apropriadas do brilho que nossos filhxs enxergam na gente. www.ritamonte.com

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