É preciso

é preciso juntar os pares de meia, limpar o lodo do canto esquerdo inferior do boxe do chuveiro, ter tarrachinhas para todos os brincos e deitar no chão, ao menos uma vez, para ver como é minha casa de baixo.

é preciso limpar a geladeira e jogar fora a sopa que eu não comi e que ainda está na panela, e é preciso passar à limpo para a agenda nova as senhas, são tantas, que escrevo sempre na primeira página do ano igual minha mãe e minha vó.

é preciso comprar grafites, carregar o celular que só descarrega, eu o carrego ele logo descarrega, e esse verbo carregar deixa a gente cansado só de falar.

é preciso falar menos.

é preciso dar os mil pulinhos para são longuinho por causa daquele grande achado, e é preciso que seja logo porque hoje eu queria só achar a tesourinha de unha e não pude pedir por motivo de dívidas não pagas.

é preciso parar de querer entender tudo mas sem deixar de tentar entender tudo e é preciso evitar os imperativos, mas nessa de mandar em mim, descobri que por ser submissa a mim mesma tenho vontades constantes de me desobedescer.

é preciso comprar papeis colantes da marca post it que esses sim colam e os genéricos me irritam com as dobrinhas involuntárias.

é preciso não sair de casa num domingo de sol e fingir-se como o filósofo que diz que veio o mundo não para gozar, mas para fazer um balanço, mas como sou muito pouco disciplinada meu corpo arrumou logo uma dor de estômago me exigindo o sofá e o meu próprio banheiro ao invés do dia de sol.