Psicofisiologia de um Afogamento

A cada ano, quando vemos notícias de jovens afogados nos rios de Portugal, sentimos aquela sensação de pena e de perda alheias, de quando não nos toca a nós. Mesmo sendo pais, imagino que seja um sentimento de solidariedade que é expressa da nossa própria casa, sem expressão no mundo real. Mas quando nos acontece a nós, vemos os mecanismos a entrar em acção.


Hoje o dia tinha tudo para correr bem, mas podia ter corrido muito mal. Uma viagem de barco com o clã Falcão no rio Douro, na zona do Douro Internacional, mesmo em águas abertas, no centro do leito, era uma coisa simples, parecia-me a mim, desde que não me afastasse muito do barco.

Depois da hora em que eu e os meus primos tínhamos estado a penar por uma aberta para mergulharmos, finalmente, o barco parou a meio do rio e, sem hesitar, 5 criaturas saltaram para a água, em animação. Ao voltar à superfície, tentámos nadar para montante do rio, mas a ondulação do barco e a corrente do próprio rio — entre dois montes espinhados do planalto, sem acesso a pé ou por qualquer outro meio que não o aéreo dos Abutres do Egipto e dos Falcões que ali nidificavam — tornou a tarefa incómoda e à força de braços. Aproximámo-nos do barco, agarrámo-nos, descansámos um pouco e voltámos a mergulhar.

Para jusante, e com a dita corrente, era bem mais fácil nadar, claro. Nadámos uns cinco metros para jusante, mas a corrente afastou-nos mais. Quando dei por mim, 3 dos 5 que tínhamos entrado na água já estavam no barco outra vez, e apenas eu e a minha prima estávamos agora a 8 metros do barco, com uma corrente enorme a arrastar-nos mais.

Tentei nadar na direção do barco, mas parece que a minha coordenação na natação se foi deteriorando com o passar do tempo, e, além de não sair do sítio, estava a ficar sem força. Comecei a nadar em círculos, à força de pés, e a tentar respirar para ganhar força de braços. A certa altura, um choque de realidade, ou, quem sabe, um sistema de alarme, foi espoletado dentro de mim. Paniquei completamente, como se soubesse que, se não nadasse rápido o suficiente para quebrar a corrente, não ia sair dali. Nem naquele dia nem nunca.

No meu pânico, comecei a lançar ‘ais’ à minha volta, tentando não engolir água. A minha prima veio em meu auxílio, mas, ao que ela me diz, eu empurrei-a para baixo sem intenção — nem disto me dei conta. A minha prima gritou pela boia, enquanto tentava não se afogar no processo, mas os meus outros familiares no barco, em contraluz, não percebiam o que se estava a passar.

O meu segundo sistema de alarme entrou em ação. Avaliei a única pessoa capaz de me safar duma daquelas: a minha mãe e uma tia não sabem nadar em águas profundas, o meu avô já soube mas tem 90 anos, não via o meu pai, a minha irmã ou o meu tio nadar há anos, a minhas outras tias não tinham força para me levar até ao barco, dois primos mais pequenos e leves que eu não eram opção, e a minha prima estava ao pé de mim a tentar pedir a boia e o irmão dela era o único que realmente faz exercício nesta família. Claro que chamei por ele. Não vi bem o que se passou a seguir, mas sei que ele estava ao meu lado antes de eu dar conta, a boia estava a ser lançada à água, e eu vi que a corda ia estar curta para chegar a mim- tudo em visão de túnel.

Só quando ele me disse para eu me apoiar nele e me acalmar é que comecei a respirar normalmente, a reduzir conscientemente o meu ritmo de respiração numa tentativa de damage control para que todos nos safássemos desta. Não sei se bati pés em direção nenhuma — o meu cérebro estava em mono-tarefa.

Esteve um dia cheio de sol, com calor e um vento suave que só arrepiou ao final da tarde. Já tínhamos gargalhado muito, o meu primo estava a gravar a viagem com a GoPro e todos estavam a tirar fotos e a apontar para todos os ninhos de abutres, andorinhas e falcões que víamos nos penhascos inacessíveis. Manchas brancas nas paredes vermelhas e castanhas dos penhascos. As vertentes do rio a ficarem cada vez mais juntas, à medida que subíamos o rio. Já há muito tempo que não estávamos os 14 juntos. Até as fotos com o avô se tornavam sempre incompletas, porque havia sempre uma criatura que não tinha podido vir. Este Domingo era um dia especial em vários aspectos e estava a ser um dia em grande até para o meu avô, que se cansa rapidamente.

E depois isto. A boia estava mais perto, à medida que nos aproximávamos do barco. Havia manchas indistintas sobre o barco. Não vi rostos, não sei quem olhava e quem tentava ajudar. O meu único foco era uma fatia redonda de plástico laranja presa a uma corda. Quando lhe toquei, pensei se me metia lá dentro — tanta era a ânsia de não voltar a cair no profundo escuro do Douro — ou se me agarrava a ela — já não tinha forças para nada-, ou se me deitava sobre ela e esperava que a ausência de atrito da água me levasse ao barco, puxada pelos que já lá estavam.

À borda do barco, o skipper e a minha mãe estenderam os braços para me agarrar. Como eu sabia que a minha mãe não ia ter força para me puxar de uma vez só, chamei o meu pai, mas foi a minha irmã que veio. Agarraram-me pelos cotovelos e, à segunda investida, meio corpo já sobre o barco, e um arranhão no joelho, consegui entrar.

Não liguei ao arranhão, às perguntas do ‘estás bem’ e do ‘deita-te’ e caminhei, erecta e sonâmbula, à procura da minha toalha, e a enxotar todas as mãos que me tocavam.

É uma coisa que tenho reparado, e não sei se acontece a muita gente, mas depois de uma coisa destas, ou de uma quebra de tensão que tenha, a pior coisa que me podem fazer é tocar-me, mesmo que seja para me amparar. Sou capaz de me sentar imediatamente no chão para não ter que ser suportada por ninguém. A minha explicação para isto é que, com tanta energia reprimida do choque do que aconteceu, ela tem que expandir, e o toque de outras pessoas faz com que haja uma interferência negativa nesta expansão. Não é desprezo, não é snobice nem egoísmo. São os biorritmos pessoais de qualquer um. Da mesma forma que, quando alguém é injusto comigo, o pedido de desculpas subsequente ao meu olhar de ‘tu sabes que isso não é assim’ até pode ser aceite, mas quase nunca imediatamente, e nunca com toque, nem com falinhas mansas. São os biorritmos — fisiológicos, psicológicos, emocionais que todos temos, expressos de uma forma ou outra. Por isso, pessoais.

Entender isto, e ter um bom conhecimento do próprio corpo e dos próprios biorritmos, assim como das emoções negativas e positivas, ajuda a que os mecanismos de alarme entrem em ação quando são necessários, e as decisões responsáveis que tomamos em situações-limite não sejam tomadas por nós, mas pelo nosso inconsciente preventivo. Bem haja a sua existência!

Nesta categoria, enquadram-se também as decisões conscientes de não desperdiçar energia desnecessária, ter um sentido de foco activo na vida, um burnout container quando estamos mesmo apertados de trabalho e o corpo não cede quando estamos no pico da exigência, e o nosso gut feeling em situações de instinto e de decisões.

Depois de me acalmar, e de responder, com ar restabelecido, que o incidente tinha sido um ataque de pânico a meio de um rio profundo, e que estava bem, pelo menos naquele momento, o resto da viagem fi-la enrolada na toalha, encostada aos assentos do barco, a digerir, enquanto toda a gente se movia à minha volta, olhos atentos, mas sem perguntar muito. Este ar restabelecido é outro kick mecânico dos sistemas de alarme. Comunicação para damage control. Depois, shut down. A digestão do choque foi lenta, na minha perspectiva de newbie em acidentes deste tipo. Ou seja, eu estava ali, vivinha da silva, nem tinha engolido quase água nenhuma. Não estava tudo bem? Não estava?

Mas estão a ver aquela cena do ‘ver a vida toda à nossa frente’? Não aconteceu. Só pensava que tinha um riff fluvial profundo por baixo de mim, estava a 10 metros do barco, e a minha única hipótese imediata era uma única pessoa. Mesmo que o barco se aproximasse de mim, podia não ter corrido tão bem. Todos estes se’s flutuaram na minha cabeça. Em modo zombie, fiz a maioria do percurso em modo “estou a ver a paisagem”.

Vinte minutos depois, reagi. “Vou-me meter na água quando chegar ao cais. Vens?”, perguntei eu. Mais 3 anuíram. Chegámos ao cais, saímos do barco, e depois de verificar que tudo estava fora do barco, deixei a toalha e mergulhei de cabeça. A água estava ainda melhor. Passei lá 5 minutos e voltei a sair. Antes de abandonar o local, já tinha decidido que ia fazer natação, quando voltasse ao Porto.

Porque é que este regresso à água, menos de uma hora depois do quase fatal, foi importante? Porque não posso deixar que nada condicione o que eu posso fazer. Por isso, enfrentar o trauma antes que ele se instale é o melhor remédio para mim.

Pensei que ia ficar lá de vez? Pensei. E só 4 horas depois consegui chorar, de pensar nesta perspectiva. E, por isso, pensei em todos aqueles que lá ficam todos os anos, e em como o respeito ao rio não tem só a ver com saber nadar.