Sendo Greta Gerwig

por uma estética desesperada do fragmento
[texto escrito nos quarenta minutos finais do retorno de saturno desta que vos escreve]

Não tenho certeza, mas acho que estou ouvindo um assovio submarino desde que acordei. Aparentemente uma baleia beluga achou por bem dissolver-se no meu fígado; é bem verdade que certos patês oleosos e cantos marinhos só desaparecem assim, esquadrinhando meus lobos hepáticos, e em alguma dimensão paralela, num universo desconjuntado onde sou alguém qualquer, alguém diferente disso aqui, tenho sonhado que observo como uma voyeur várias sessões de sexo selvagem entre delfins mediterrâneos.

Não fazer parte.

Não fazer parte de nada e se desconectar com a facilidade de um fio. Essa ladainha familiar de Greta Gerwig tem se feito ouvir. Não fazer parte de nada. Achar que é possível, mas não ser. 
Não ser possível é uma única possibilidade em que pude ser incluída até agora.

Acordei horrorizada com a impressão gelada de que eu poderia ser Greta Gerwig, com os dentes de foca insubordinada, adoráveis dentes alinhados, mas de uma linhagem pura — essa arcada dentária das focas da Groelândia, que trazem a missão de insurgir contra a opressão que as obriga a migrar todo verão.

Mas veja bem, não necessariamente Greta Gerwig, a atriz, mas a entidade, o fantasma que emana de uma identidade específica. Algo como uma doencinha, uma doença [felizmente] quase em extinção. A musa.

E se eu for Greta Gerwig, existe a chance de que eu seja Lola Versus ou Florence Márr. Ou a Mistress America, a arrivista.

Ou pior, Frances Ha.

E isso é insustentável. É um feminino terrível, risível, pestilento. Que assombra porque é real demais. Ser Greta Gerwig é, em certos sentidos, pior do que ser Medeia, Medusa. Não há útero primevo, não há mistério sendo Greta Gerwig. Há a linda descoberta desoladora de que não é possível ser diferente do que se é.
Há a turba obscura, o labirinto do minotauro que só leva ao centro e o centro, Frances, é você. Com a sua máxima: “I’m so embarassed, I’m not a real person yet”.

Há a fase terracota, as cores quentes, os personagens criados e perdidos antes de chegarem à frágil existência de ficção, mas não há esperança de um nascimento da vênus. O sol nasce para todos, mas vênus não nasce para Greta Gerwig. Até porque Greta Gerwig é uma espécie de vênus contemporânea. E existe um certo lirismo, eu posso dizer: ácido, pós-moderno, um lirismo de sereia blooming, bêbada e existencial, com múltiplos vestidos de coquetel e nenhum dinheiro no banco. Nenhum prodígio oculto.

Me pergunto se há uma desistência em ativação, o fim de Rita, o início de Greta: o sexo nas entrelinhas.

A promessa de uma maior proteção contra as bactérias e dias mais verídicos, com feixes obscuros, mas precisos.

Saturno completa mais uma volta perfeita ao redor do sol e tudo permanece exatamente como deveria ser. O fim de Rita e o início de Greta.