Psicologia Analítica — alguns conceitos fundamentais

1.1 — Inconsciente

O conceito “inconsciente” se refere a todo conteúdo que um dia foi conhecido e depois esquecido ou reprimido e que, por se localizar próximo ao consciente, pode ser novamente acessado.

“O inconsciente abrange todos os processos psíquicos que não possuem a intensidade suficiente para ultrapassar o limiar que divide a consciência do inconsciente. Esses processos, por conseguinte, permanecem sob a superfície da consciência, manifestando-se, algumas vezes, de modo subliminar.” (JUNG, 2011b, p. 227)

Nascemos mergulhados numa condição inconsciente e assim permanecemos pelo menos nos primeiros dois ou três anos de vida. Ao mesmo tempo em que vamos desenvolvendo o ego, que é o “complexo central no campo da consciência” (SHARP, 1991, pág. 57), configura-se o inconsciente pessoal, onde se localiza a sombra. O inconsciente pessoal abarca todo conteúdo que reprimimos, não tendo necessariamente somente aspectos negativos, mas, também, outros positivos, como, por exemplo, quando nossa família ou a sociedade nos impede de fazer algo que julgamos ser bom e agradável, e que acabamos por não realizar por conta destas pressões.

Da mesma forma que se constitui a nossa sombra, ou inconsciente pessoal, também povos, nações e o conjunto da humanidade formam uma instância chamada por Jung de inconsciente coletivo, que abarca, por sua vez, as imagens primordiais da história humana.

“Os conteúdos do inconsciente pessoal são aquisições da existência individual, ao passo que os conteúdos do inconsciente coletivo são arquétipos que existem sempre e a priori.” (JUNG, 2011c, p. 19. Grifos do autor)

Portanto, o Inconsciente Coletivo é formado por arquétipos, estruturas vazias associadas a todo conhecimento da humanidade, que se apresentam indiretamente em nossas atitudes e relacionamentos na forma de imagens arquetípicas.

1.2 — Sombra

Consideramos o conceito “sombra” um dos mais importantes em toda a obra de Jung, juntamente com o ‘inconsciente”, embora o próprio autor tenha considerado a sombra como o próprio inconsciente (Cf. FRANZ, 2002, p. 11).

A sombra é algo que nos acompanha, que faz parte de nosso psiquismo, mas que desconhecemos ou mesmo negamos. Desta forma, podemos dizer que seu conteúdo seria impossível de ser completamente acessado, a não ser quando ela se torna evidente em algumas situações, como quando outra pessoa, por exemplo, nos aponta diretamente; ou através do convívio social, quando a sombra emerge nas interações pessoais, como buscarei demonstrar neste trabalho.

“A sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispender energias morais”. (JUNG, 2011c, p. 19)

Existem muitas formas da sombra se manifestar, como na prática psicoterapêutica ou em trabalhos vivenciais, nos sonhos, na forma como agimos, entre outros. Por exemplo, ao entrar em conflitos com outra pessoa, fatores desagradáveis, próprios de nós mesmos, são projetados no outro, naquele com o qual nos relacionamos, ou mesmo estando distante, como um ator, um personagem qualquer, fictício ou real, trazendo conflitos.

A sombra faz parte de nosso inconsciente pessoal, é o que negamos, reprimimos, ou ainda aspectos de nossa psique que nunca conheceremos e nem saberemos que existem. É o que não reconhecemos em nosso ego, o que nos envergonha e por vezes não admitimos que faça parte de nós, conforme Whitmont: “O termo sombra refere-se àquela parte da personalidade que foi reprimida em benefício do ego ideal.” (WHITMONT, 1991, p. 36).

A sombra pode emergir nas relações sociais, familiares, nos sintomas, sonhos, e toda sorte de produções do inconsciente. A sombra coletiva se refere aos aspectos que permanecem obscuros em grupos sociais, povos e nações, ela diz respeito ao que entraria em choque com os princípios dominantes da cultura, constelados na consciência coletiva.

Conquanto o conceito sombra não seja algo de tão difícil compreensão, o fato é que este tema é sempre objeto de atenção ou mesmo especulação, pois se refere a assuntos que remetem ao inconsciente, sendo, portanto, praticamente sinônimo do que é desconhecido na personalidade ou na cultura. Como falar sobre algo que não conhecemos? Como tratar do que se esconde dentro de nós mesmos e que desperta sensações, ideias e sentimentos contraditórios? Como olhar para isso? Paradoxalmente, podemos dizer que buscamos tornar consciente o que não conhecemos, mas como tomar conhecimento do que nem sabemos ou em que proporção existe? Essa é a problemática instalada pela sombra pelo seu par oposto, o ego, com quem ela encontra-se constantemente em conflito.

1.3 — Persona

Temos diversas formas de nos apresentar no mundo. A convivência familiar ou em sociedade, grupos de amigos, a escola, as diversas associações, nos levam a adquirir comportamentos compatíveis ou adequados ao espaço social em que nos apresentamos. Na Grécia antiga os atores usavam máscaras para representarem seus papeis no teatro, as chamadas personas. Seria praticamente impossível viver em sociedade sem nossas personas, pois estaríamos dando livre passagem a todos os nossos desejos, instintos e vontades, abrindo um canal direto com o inconsciente, entrando em conflito com outras pessoas em situações diversas.

“A persona é, pois, um complexo funcional que surgiu por razões de adaptação ou de necessária comodidade, mas que não é idêntico à individualidade. O complexo funcional da persona diz respeito exclusivamente à relação com os objetos.” (JUNG, 2011d, p. 426. Grifos do autor)

1.4 — Símbolo

É a representação de algo que não podemos definir essencialmente, isto é, nossa percepção não alcança o significado exato e absoluto de um objeto ou fenômeno, tendo que produzir, desta forma, uma imagem aproximada, de dimensão simbólica, para se relacionar com o que não é possível apreender completamente pelos padrões racionais do ego. Assim Jung define símbolo: “Termo que melhor traduz um fato complexo e que ainda não foi claramente apreendido pela consciência.” (JUNG, 2011e, p. 20) É a melhor definição possível de algo que escapa ao conhecimento atual do ego e que aparenta uma importância mais profunda, conforme esclarece Jung (2011f, p. 202) “Um conceito ou uma figura são simbólicos quando significam mais do que indicam ou expressam.” Jung reitera em diferentes textos que um símbolo é diferente do que se apresenta como um “signo”, que em geral pode ser entendido com base em um pressuposto, fazendo sentido imediato desde quando se apresenta à consciência. Parece ter sido a forma de diferenciar os termos com base na relação pessoal que o indivíduo pode estabelecer com as imagens, ressaltando que “Por este motivo, prefiro que o símbolo represente uma grandeza desconhecida, difícil de reconhecer e, em última análise, impossível de definir.” (JUNG, 2011g, p. 40)

1.5 — Processo de Individuação

A Individuação, conforme a teoria Junguiana, é um processo que nos leva ao encontro do Si-mesmo ou Self, à nossa individualidade, à essência de cada um de nós, o encontro do ego com o Self. “Ao tornar-se consciente, a sombra é integrada ao eu, o que faz com que se opere uma aproximação à totalidade. A totalidade não é a perfeição, mas sim o ser completo.” (JUNG, 2011g, p. 125. Grifos do autor) Isto não significa se tornar individualista, pelo contrário, é o conhecimento que alcançamos de nós mesmos e que nos leva à integração com o próximo e com a humanidade. Individuar-se significa ser único dentro do todo. O trabalho com a sombra é essencial para o processo de individuação, na medida em que nos despimos das personas indesejadas e assumimos outras que vão sendo lapidadas e que teriam mais a contribuir com nosso autoconhecimento. Individuar significa lidar com a tensão inerente aos conflitos instalados entre os polos opostos do bem e do mal, do inconsciente e da consciência.

“Quem progredir no caminho da realização do si-mesmo inconsciente trará inevitavelmente à consciência conteúdos do inconsciente pessoal, ampliando o âmbito de sua personalidade.” (JUNG, 2011a, p. 137. Grifo do autor)

Referências

FRANZ, Marie-Louise von. O bem e o mal nos contos de fadas. São Paulo: Paulus, 2002.

JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente: dois escritos sobre psicologia analítica. 22. ed. Petrópolis: Vozes, 2011a.

______. Psicogênese das doenças mentais. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2011b.

______. Aion: estudo sobre o simbolismo do si-mesmo. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2011c.

______. Tipos psicológicos. 4. ed. Petrópolis: Vozes, 2011d.

______. A natureza da psique: A dinâmica do inconsciente. 8. ed. Petrópolis: Vozes, 2011e.

______. A vida simbólica. Vol. 1. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2011f.

______. Ab-reação, análise dos sonhos e transferência: Psicoterapia. 7.ed. Petrópolis: Vozes, 2011g.

SHARP, Daryl. Léxico Junguiano: Dicionário de Termos e Conceitos. São Paulo: Cultrix, 1991.

WHITMONT, Edward C. A evolução da sombra. In: ZEWIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah (Orgs.). Ao encontro da sombra: o potencial oculto do lado escuro da natureza humana. São Paulo: Cultrix, 1991.