Herança

Tinham se passado cinco semanas desde o funeral, quando Helena convocou-nos a voltar ao casarão para lermos o testamento de nossa mãe e começar a partilha. Dona Augusta havia sido precisa sobre quem deveria ficar com as joias e peças afetivas, que enchiam os olhos da família e amigos. Dentre os objetos que herdei, havia dois braceletes passados de mãe para filha, desde minha bisavó, e que eram usados no dia do casamento, por tradição. De prata, com madrepérolas e marcassitas, não eram as joias mais valiosas mas tinham um grande valor sentimental. 
Eu estava sentada no chão do quarto, ao lado do velho baú de madeira, separando as inúmeras fotos antigas quando avistei uma do casamento de mamãe. Lá estavam eles, adornando os pulsos finos e brancos daquela mulher jovem, de sorriso discreto e olhar submisso em direção a meu pai. Lembrei da madrinha que sempre falava da risada divertida e sincera de minha mãe, e que nunca cheguei a conhecer. Dona Augusta fora uma mulher eficiente nos cuidados com a casa e silenciosa quanto aos próprios desejos. A única vez que bradara seu desapontamento foi ao saber de minha gravidez: “Minha filha, mãe solteira?!”
- Mãe! Olha o que eu achei. 
Dei de cara com Olívia metida no vestido da foto, com o véu torto a enfeitar sua cabeleira ruiva e os braceletes, um em cada braço. Arrastando aquele volume branco, sentou-se ao meu lado.
- Estou igual a vovó. — disse Olívia, olhando a foto no meu colo. 
Sorri diante da ingenuidade da pequena e de minha falecida mãe. Os tempos eram outros e os braceletes agora eram só braceletes.