Highlighted by Rodrigo Nascimento Maia

See more

A vulgarização do termo surge nas grandes cidades americanas dos anos 80 e 90. Nos anos 50 e 60 as populações brancas abandonaram as cidades após os motins raciais de Detroit, L.A. e Newark — o great white flight. As décadas seguintes marcaram um lento regresso da classe média à cidade, marcado precisamente pela emergência de novas classes profissionais ligadas às actividades “criativas”, que preferiam a aventura da cidade ao tédio dos subúrbios americanos. A crítica elaborada sobre os processos económicos decorrentes deste regresso — a expulsão das populações minoritárias que tinham encontrado nos bairros abandonados um território — ocorre já num período de refluxo da esquerda, num rescaldar das insurreições globais dos anos 60 e 70. Como tal, o conceito de “gentrificação” parece surgir enquanto materialização urbana de uma crítica do capital que teria abandonado qualquer possibilidade imediata de ruptura revolucionária e que se procurava reinventar enquanto ciência de sofisticação moral e humana de um capitalismo avançado. Traz por isso tantos problemas críticos às costas, não sendo os menores a defesa da “autenticidade” ou a incógnita relativamente às relações de propriedade que defende. Surge de aí uma conclusão latente às várias lutas locais contra a gentrificação: não há notícia de uma que tenha sido vitoriosa, sequer parcialmente. Isto porque a gentrificação não é um processo, mas sim uma consequência de um modo de produção cujas formas de valorização assumem por vezes essa forma. Separar estes fenómenos corre o risco de transformar o diagnóstico de uma nocividade numa ferramenta do senso comum reaccionário. É possível ser contra a gentrificação de um modo conservador assim como é possível ser contra a corrupção enquanto se defende uma economia de mercado.