ô, mãe
lembra?
[ao som de Galos, noites e quintais — Belchior]
Lembra a meningite que me atacou e como se sentiu quando o médico aconselhou que me beijasse adeus naquela noite porque eu não abriria meus olhos novamente quando raiasse o amanhecer? Tinha só 6 meses de vida.
Lembra que me sentou no chão da cozinha colocando, entre minhas curtas pernas, uma vasilha com um abacaxi em rodelas, me fazendo comer tudo até que me ferissem os lábios, por eu ter reclamado que você me deixava passar fome, só porque me pediu que fosse paciente e esperasse que descascasse toda a fruta? Isso aos 5 anos.
Lembra quando você me deu aquela surra de toalha molhada no banheiro, completamente despido, ao descobrir que eu não tomava banho e só abria a torneira, deixando que a água escorresse intocada pelo ralo por meia hora, enquanto matava meu tempo ensaiando os golpes dos Cavaleiros do Zodíaco para lutar com meus primos no quintal? Eu tinha lá meus 7 anos de idade.
Lembra que foi convocada a uma reunião com a diretora da escola porque eu fingia dores e doenças para não ser obrigado a participar das aulas de educação física — por não querer jogar futebol com os demais meninos, e sim vôlei, com as meninas? Eu estava na quinta série.
Lembra quando passei no vestibular e te ouvi prantear no banheiro porque seu menino caçula sairia de casa para viver em outra cidade, longe de você? E que, mesmo com o coração e o bolso apertados, você me alugou um apartamento que mobiliou com carinho, encheu o armário de comida com generosidade, e me ensinou o segredo do seu arroz pela primeira vez? Que não conseguimos nos despedir com palavras naquele domingo, mas que nossos olhares sempre cúmplices se afagaram com marejado até logo? E, poucas semanas depois, ao receber uma carta, pranteei eu ao ler suas linhas de orgulho e incentivo? Eu tinha pouco mais de 16 anos.
Lembra quando te confidenciei ser gay e fomos àquele psicólogo que (sabiamente) conversou comigo por curtos 10 minutos, dedicando o restante da sessão a você? Que você nunca atirou porquês em minha direção? E também que me pediu permissão antes de dividir minha verdade com meu pai e irmão por sermos uma família unida? Faz 13 anos já.
Lembra que, quando foi fazer aquele curso em Uberlândia e almoçamos juntos no shopping, te contei que estava feliz como nunca houvera sido e que precisava com você dividir tamanha alegria, mostrando não só que meu coração descobrira o amor de verdade, mas também exibindo uma foto do meu primeiro namorado? E que, depois, você me pediu desculpas se por acaso tivesse transparecido inesperada surpresa, mas emendou com sua voz sorridente e sotaque mineiro que encontrar seu "fi" tão feliz era sua maior realização? Foi em 2006.
Lembra que segurou minhas mãos trêmulas e suadas quando te revelei, longos e angustiantes 3 anos depois do fato, o que me havia acontecido no primeiro semestre de faculdade? E que, mesmo após duro golpe, me acolheu de novo como se eu acabasse de renascer, por ter reconhecido em minhas lágrimas que era a primeira vez que eu cutucava aquela ferida na frente de alguém? E como soube que novos ares me fariam bem e, mais uma vez a me carregar, viajou da nossa Patos de Minas até São Paulo para "mudar o Renato de cidade", como você costumava dizer? Já faz quase 10 anos.
Lembra aquela vez que você, novamente e sem hesitação, largou tudo — casa, marido, filho, dois empregos e cachorro — viajando por 12 horas até mim, naquele maldito ônibus capenga, para cerzir o farrapo em que um fim de namoro desastroso me transformara? E como me disse pra colocar tudo pra fora quando chorei alto minha dor no seu colo? Foi no ano de 2008.
Lembra o primeiro churrasco que fizemos com minha família paulistana lá no casarão da Vila Leopoldina e, emocionada, agradeceu aos meus amigos-irmãos por me acolherem, amarem e de mim cuidarem? Que vendo como eu era querido e estava feliz, podia voltar a se tranquilizar e sossegar o peito? 7 anos já.
Lembra que você nunca soube ser egoísta comigo? Que nunca confundiu disciplina com tirania? E que nunca projetou em mim seus sonhos e frustrações? Que nunca disse sentir vergonha de seu filho?
Eu lembro, mãe.
E agora é a minha vez.
