Derrame
Lá fora o sol recuava e do lado de dentro móveis, quadros, plantas e cacarecos boiavam em crescente penumbra. O anoitecer viera tão rapidamente que, não fosse a luz anêmica do refrigerador a iluminar-lhe, o homem teria se afogado na escuridão de seu apartamento. Seus olhos percorriam as prateleiras da geladeira como um casal de peixes explorando o fundo do oceano em busca de alimento para sua incapaz cria. Não que tivesse fome — tampouco tinha qualquer vontade de comer — mas sabia que precisava por estar em jejum desde que acordara há muitas horas e já sentir-se vazio e fraco.
Desdenhosamente flutuou pelo crepúsculo até mergulhar no vasto sofá verde-água. Encarou o teto enquanto dissolvia na boca pedaços de uma barra de chocolate amargo que mantinha na geladeira para emergências — não que estivesse passando por uma, mas convenceu-se de que a falta de apetite concedia-lhe induto para aquela regalia. A temperatura ambiente era amena, portanto foi com estranhamento que percebeu, no momento exato em que sua língua nadava pela última vez no retrogosto intenso do cacau, que estava a transpirar excessivamente, a ponto de sentir-se encharcado. Apalpou a própria testa e constatou que ardia.
No banheiro iluminado apenas por uma vela, abriu o chuveiro para que a água esquentasse enquanto se despia. Olhou-se no espelho e condenou sua aparência comum e pouco convidativa. Desviou, decepcionado, o olhar. Ao livrar-se da camiseta surrada, levou o dedo indicador da mão esquerda em um ponto do peito que latejava. Era uma antiga cicatriz que o homem raras vezes notava e, pareceu-lhe naquele momento, vazava. Desassossegado, acendeu a luz e percebeu que ela havia retrocedido em ferida, e que suas roupas não estavam molhadas de suor; também não era sangue. Entendeu que seu vazio não era falta de alimento e que seu ardor não era febril. Desistiu do banho, já era tarde demais. Derramava-se e, tal qual doença diagnosticada tardiamente, soube que seria impossível estancar o desague, e que agora cada vez mais gotejavam seus poros.
De volta à sala, colocou uma música e sentou-se, como que preparando-se para um ritual, no seu local preferido: o braço desconfortável do sofá. Armou-se do isqueiro e acendeu um cigarro, tragando longa e profundamente. Deslizou a larga vidraça para o lado e exalou para o exterior a fumaça que transmutou-se, por reação química, em um líquido neon em contato com seus pulmões úmidos e o ar poluído da cidade. Não obstante seu instinto de sobrevivência, que implorava que clamasse por socorro, permaneceu imóvel e fumou cada vez mais intensamente. Seus pensamentos, que resistiram pouco mais que seu corpo, também começaram a se liquefazer e agora escorriam pelo parapeito da janela. A bituca acesa naufragou perigosamente no sofá.
O que antes fôra ele, agora jorrava e inundava a rua, e afluía também pelas perpendiculares. Instantes depois, invadiu e irrigou de luz o apartamento escuro de outro alguém que, distraidamente, deixara todas as suas janelas abertas. Quem lá morava não tinha como imaginar ainda mas seus olhos, que já começavam a brilhar, nos próximos tempos, mudariam de cor. Se momentânea ou definitivamente, não se sabia.
