Perdoa?
Infelizmente tenho outro na cabeça. Decidi escancarar isso aqui já que o “tique” único nas desculpas que enviei às suas acusações de sagitariana frieza deixou-me sem qualquer direito de resposta. Sim, existe outra pessoa: essa é a versão curta do que tenho a dizer. Talvez lendo isso me condene por ser duro demais, mas é para que saiba que nunca o enrolei ou tentei confundir. Tenho trilhado esse mesmo caminho e — apesar da já claríssima falta de expectativa de chegar ao meu destino — as dores nas pernas e os calos nos pés não me deixam esquecer o poder que a ilusão, sorrateira, tem de nos forçar a acreditar nos mais ínfimos sinais de “quem sabe pode ser talvez que…” enquanto faz-nos cobrir com o pano curto da vazia esperança todos os escancarados outdoors com letras gigantes que estampam "não te quero". A ilusão é uma luz que só ilumina o que nos confunde e joga sombras sobre tudo aquilo que nos deveria trazer claridade. Acendendo a ilusão, escurecemos a realidade.
Eu poderia tentar escrever um lindo texto te comparando com uma obra de arte; aquisição de valor que até os olhos mais destreinados apreciam; que você é digno de um apartamento espaçoso e bem iluminado, com pé direito alto e paredes largas, onde brilhe sozinho. Esse mesmo texto afirmaria que você merece estar exposto em uma galeria só sua. E, seguindo essa mesma ideia, eu diria que sou um muquifo cheio de mofo e infiltrações, caindo aos pedaços e enfestado por baratas — e apesar de reconhecer que cobriria com louvor as minhas rachaduras, você não evitaria a minha ruína. Mas não escreverei esse texto porque a verdade nua e crua é que você merece ser mais do que item decorativo. Merece ser necessidade. Merece ser água, luz e alimento.
Sorrisos, abraços, beijos e palavras que trocamos, de minha parte, foram todos sinceros, verdadeiros e de coração. Mas isso foi o máximo que pude dar. O resto já não é mais meu há algum tempo porque entreguei-me em troca de um apertado abraço prolongado; de um profundo suspiro que até hoje eu tento entender o que significou; e do pedido de uma desculpa pra me rever que nunca foi usada. É pouco. Pouquíssimo. Mas ainda tira minha paz e o meu fôlego; come o meu juízo e me faz passar fome.
Perdoa? Espero que saiba que tem valor. E que percebi, sim, o seu valor. O mais provável é que eu não perceba o meu e, por isso, siga me oferecendo por cada vez menos a quem tanto me pechincha sem intenção de me comprar.
